quarta-feira, 25 de novembro de 2009

A chance da volta por cima

O Fluminense já deu muitas demonstrações de força e superação nas últimas semanas. Terá, porém, de dar mais quatro. São os dois jogos finais da Copa Sul-Americana e os dois do Campeonato Brasileiro, onde ainda na zona de rebaixamento. A última derrota foi dia 4 de outubro, 2 a 0 no Fla-Flu. De lá para cá são 13 jogos, 9 vitórias e 4 empates. São 8 vitórias consecutivas. Em novembro, foram 7 jogos. Sete vitórias, algo raríssimo de se ver em qualquer clube que seja nesta época tão cansativa do ano, onde o desgaste dos dez meses anteriores pesa sobre as pernas de todos.

A chance e o simbolismo de tudo é maravilhoso. O Fluminense tem a chance de terminar o pesadelo em que se meteu neste último ano e meio justamente contra o adversário que o meteu neste buraco sem fundo. Ganhar a Sul-Americana é muito mais que alcançar o primeiro título internacional do clube: é a vingança, mesmo que não na exata medida de uma final de Libertadores, mas psicologicamente idêntica. Isso, claro, se escapar da degola vier junto.

O time de Cuca só chegou nesta situação de esperança porque não perde há 13 jogos. Só uma série extraordinária poderia salvá-lo do quarto rebaixamento em 13 anos. Ela está sendo consolidada jogo após jogo. Faltam os quatro mais difíceis. Primeiro, a altitude de Quito, ignorada por todos no discurso. Já é o primeiro ponto a favor: quem antes do jogo já dá desculpas por uma eventual futura derrota já começa em desvantagem. Quito está a 2800 metros acima do nível do mar, nada que faça necessários balões de oxigênio e discursos inflamados, como em La Paz ou Potosí. Todos nas Laranjeiras já disseram não se importar com esse fator. Fazem muito bem. Num momento como este, de corda esticadíssima, quase arrebentando, não há espaço para outro pensamento que não seja o de vencer sempre.

Não perderei esta partida por nada deste mundo. Em três horas, pelo meio-dia, chego a São Paulo para o congresso da SBPJor. Às 21:50 inevitavelmente estarei no hotel, em frente à televisão, assistindo a esta grande peleia ao lado de Igor Natusch. Antes, porém, conheceremos o Museu do Futebol. Volto sexta a Porto Alegre, mas Prestes dará conta do recado até lá. Finalmente conhecerei a Pauliceia, certamente desvairada e, desde 1º janeiro, sem o acento.

Em tempo:
- Barcelona sem Messi e Ibrahimovic mete 2 a 0 na Internazionale no Camp Nou. Complica-se a situação dos italianos. A Inter parece não ter sido feita para jogar a Liga dos Campeões. Mas o Liverpool, que é talhado para ganhar a copa, caiu incrivelmente logo na primeira fase.

- Deixei passar a escolha dos finalistas para prêmio de melhores do Brasileirão da CBF. Na verdade, como sempre, algumas justiças e outras escalações feitas mais no nome que na bola. Se quiserem, deixem suas impressões, por favor. As minhas reservarei para o penúltimo Carta na Mesa do ano, no próximo dia 7.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Em quem está pensando o Grêmio?

O direito de dar férias antecipadas a alguns jogadores é legítimo. O Grêmio não disputa mais nada no campeonato: não irá à Libertadores, não cairá, já está garantido na desdenhada Copa Sul-Americana do ano que vem. Inclusive, acho que tudo anda conforme o planejado no Olímpico. Após a perda das chances virtuais de se classificar entre os quatro primeiros, o tricolor testou alternativas em seu time titular, já fazendo testes visando a próxima temporada: Maylson, Douglas Costa, o 4-5-1, três volantes no meio. Assim, tirou pontos de três rivais colorados na disputa de G-4. Agora, que os dois jogos finais não têm qualquer interesse direto de tabela para o tricolor, torna-se possível antecipar as férias dos mais cansados, promover alguns retornos de lesionados (Willian Magrão e Jonas) e poder, desta forma, começar antes a temporada 2010 - até porque a contratação de um técnico e a renovação de Maxi López, duas complicadas negociações, já estão em andamento antes mesmo que chegue dezembro.

O que realmente se espera é que o Grêmio use este direito que lhe cabe da mesma forma que tem feito com os testes que anda promovendo dentro de campo: tirando da cabeça o fato de que o Internacional está disputando o título. É uma situação complicada. Ano passado, o colorado disputava o título da Sul-Americana e encheu seu time de reservas no jogo contra o São Paulo, concorrente direto gremista na luta pela taça, a poucas rodadas do fim. Mas a Sul-Americana era um motivo nobre: único título de relativa expressão que o time poderia conquistar no ano, aliado a um mau Brasileirão, onde nada mais tinha o que fazer. Mais ou menos como o tricolor agora: uma campanha medíocre no maior torneio nacional diante da possibilidade de começar a temporada que vem um passo à frente dos demais que seguem com a corda esticada neste fim de ano.

Isto não significa entregar o jogo para o Flamengo no Maracanã. É claro que a chance de título existe para o Inter, mas ainda são relativamente pequenas e é complicado o colorado ser campeão mesmo que o Grêmio faça o crime no Rio de Janeiro, porque ainda há o São Paulo pela frente. Além do mais, a chance de os titulares gremistas tirarem pontos do rubro-negro seria pequena do mesmo jeito. Desfocado, pensando nas férias, o tricolor normalmente não entraria tão mobilizado como o time de Pet e Adriano. Entraria mais leve, menos afobado, mas menos interessado que o time da Gávea. Fora que a campanha como visitante no ano é tenebrosa.

É claro que a pressão de conselheiros e torcedores caso o Inter dependa do Grêmio na última rodada será grande por uma escalação enfraquecida. Mas Duda Kroeff e Luiz Onofre Meira estão certos em projetar o ano que vem desde já, como têm feito desde que o time perdeu as chances no Brasileirão e que Paulo Autuori saiu. O preocupante é que o pronunciamento do presidente de que o tricolor pode escalar um time desfigurado ocorreu somente após a vitória do time de Mário Sérgio no Mineirão, que recoloca o colorado na disputa pelo título. Dá margem a interpretações de mesquinhez por parte do Grêmio - e elas podem estar ocorrendo mesmo. Torço para que realmente seja pensando em prol ano que vem, e não por rivalidade. Um Grêmio maior em 2010 será construído pensando em suas questões internas, e não atrapalhando a vida do Inter.

Em tempo:
- Duda Kroeff teria dito que Paulo Autuori seria demitido mesmo que não recebesse a proposta dos árabes. Falta de convicção ou uma forma de diminuir o fiasco de perder o profissional em quem o clube tanto confiou?

- Renovação de Maxi López bem encaminhada. Só falta combinar com os russos.

- Dorival Júnior parece louco para vir.

- Grêmio x Barueri adiantado de domingo para sábado, às 19:30. A macumba de Samir El Hawat para pegar minha carteirinha e me impedir de ir ao jogo deu certo.

Belodedici: o herói de duas nações

Como alguns de vocês devem saber, durante algum tempo fui um dos responsáveis pelo blog Bola Romena, orgulhosamente intitulado como "único portal em português sobre futebol romeno na Internet". Foi uma experiência muito divertida, que me trouxe considerável conhecimento sobre o 'fotbal al romaniei' e que infelizmente tive que interromper por questões de falta de tempo e de inspiração. Seja como for, de vez em quando bate saudade, e estou vivendo um desses momentos agora mesmo. Não me sinto capaz de ressucitar meu antigo blog, pelo menos não agora e não em sua forma original; não tenho, digamos, a estabilidade pessoal necessária para isso. Porém, minha cabeça fervilha com ideias... Enfim, peço licença aos leitores do Carta na Manga para publicar aqui um artigo que cairia como uma luva no Bola Romena - uma luva estilo Helmuth Duckadam, para já irmos entrando no espírito guerreiro tão caro ao antigo portal. Quem sabe, não acaba sendo o pontapé inicial de algo maior?...O leste europeu sempre foi caracterizado por um futebol vibrante e viril - mas, sejamos honestos, não é muito bem sucedido no que se refere a competições internacionais. Ultimamente, temos visto os clubes da região servindo de saco de pancadas na Liga dos Campeões, raros sendo os times do antigo bloco comunista que chegam à oitavas. Esse ano até está sendo de exceção, com Unirea Urziceni (Romênia) próximo da vaga e os russos do CSKA e do Rubin Kazan ainda vivos na briga. A Copa da UEFA é mais generosa, com o Shakhtar Donetsk da Ucrânia sendo o atual campeão e CSKA e Zenit também tendo erguido a taça recentemente. Porém, na maior competição do continente, apenas dois clubes do leste europeu já triunfaram - o Steaua Bucureşti da Romênia (1985-1986) e o Estrela Vermelha de Belgrado, Sérvia (1990-1991). Unindo esses dois times, além da disposição guerreira e a vocação para fazer história, um único e talentoso jogador. Miodrag Belodedici, "Belo" para os íntimos, "O Alce" para os adversários. O líbero que foi herói de dois times, e entrou sem pedir licença para a história do futebol de dois países - e, por tabela, de todo o mundo.

Nascido na Romênia, mas oriundo de uma família de origem sérvia, Miodrag sempre teve uma ligação profunda com os dois países, que se manifestou visivelmente em sua carreira profissional. Na época, a Romênia vivia em pleno regime comunista, sob o jugo sangrento de Nicolae Ceauşescu - que, interessado em estatizar ao máximo o futebol do país, montou uma equipe chamada Luceafărul Bucureşti, para reunir as promessas do futebol local em um único time. Belodedici, na época, jogava no semi-amador Minerul Moldova Nouă, mas seu futebol chamou a atenção dos olheiros e aos 17 anos acabou convocado para o Luceafărul. No ano seguinte, mais precisamente em 1982, seria integrado ao grupo principal do Steaua Bucureşti, onde assumiria a posição de líbero.

Belodedici defenderia a camiseta do Steaua por seis temporadas, e foi nessa época que recebeu o apelido Belo, como diminutivo de seu sobrenome - e também a alcunho de "Cerb" (O Alce), que aviso aos mais maliciosos nada ter a ver com os cornos galhados do bicho: na verdade, é uma referência à elegância com que Miodrag desarmava os adversários. Coisa exótica num país tão afeito à botinada e aos supercílios abertos, mas enfim. Pelos militarii, Belodedici levantou sete taças em competições nacionais, com direito a um tetracampeonato nacional entre 1985 e 1988 - mas é claro que o que mais marcou sua passagem pelo Steaua foi a Liga dos Campeões de 1985-1986, até hoje a maior conquista do futebol romeno em todos os tempos. Foi um dos Heróis de Sevilha, tendo atuação destacada no jogo decisivo contra o poderoso Barcelona, segurando o 0 a 0 no tempo normal e na prorrogação. Nos pênaltis, o arqueiro Duckadam teve atuação sobrenatural, pegando todos os quatro pênaltis cobrados pelos espanhóis e garantindo a conquista que assombrou o mundo - e lançou a Romênia em uma festa que, se bobear, continua rolando até hoje...

Mas, mesmo com todas essas glórias, algo faltava no coração do atleta. Carregava ele o sonho de jogar pelo Fudbalski klub Crvena zvezda, ou Estrela Vermelha - clube da Iugoslávia do qual seus pais, mesmo morando na Romênia, eram torcedores fanáticos. Era um desejo de Belo dar aos seus humildes pais a alegria de vê-lo jogar pelos Crveno-beli (alvi-rubros), mas o governo de Ceauşescu proibia transferências de jogadores romenos para outros países, o que dificultava muito as coisas. Por fim, O Alce resolveu ser livre: em 1989, fugiu para Belgrado e ofereceu-se aos dirigentes do Estrela Vermelha. De início - pasmem! - os cartolas recusaram-se a crer que aquele fosse mesmo o Belodedici campeão da Europa anos antes, e o arqui-rival Partizan chegou a oferecer um vantajoso contrato ao defensor. Mas, ciente de que vestir as cores de outro clube iugoslavo feriria os sentimentos de seus progenitores, Belo recusou a proposta; e, depois de certa insistência, conseguiu acertar-se com o Estrela Vermelha. Porém, durante um ano ele pôde disputar apenas amistosos, já que foi suspenso pela UEFA por irregularidades no registro feito pelo governo romeno. E voltar para Bucareste, com Ceauşescu querendo devorar-lhe os rins cozidos na manteiga, não era grande ideia...

Apenas em 1990 Belodedici seria oficialmente inscrito como jogador do Estrela Vermelha, e logo participaria dos momentos máximos do clube (que detém até hoje quase metade dos torcedores de toda a Sérvia) e de todo o futebol da região. Depois de uma campanha notável, que merece um post só para ela devido aos seus incidentes - entre eles, garantir a vaga na final, enfrentando o poderoso Bayern de Munique em plena Alemanha, com um gol nos descontos do segundo tempo - os Crveno-beli garantiriam o título da Liga Européia de 1990-1991 em um confronto tenso contra o Olympique de Marselha (FRA). A partida foi disputada no dia 29 de maio de 1991 em Bari (ITA), e foi um jogo muito semelhante ao que Belo viveu pelo Steaua, anos antes: retranca o tempo todo, segurando um suado 0 a 0 e definindo tudo nas cobranças de pênalti. O time sérvio venceu por 5-3 as penalidades, e Belodedici converteu uma das cobranças, para gravar de vez seu nome na história. Não satisfeito, ainda seria importante na decisão do Mundial Interclubes, disputada em dezembro daquele ano contra o Colo Colo do Chile, quando o Estrela aplicou categóricos 3 a 0 em "Los Albos". Até hoje, o maior título de um time do leste europeu em todos os tempos - com a marca do grande Belodedici, o herói de duas nações, que certamente deve ter deixado seus pais muito felizes...
A trajetória do homem, dali para a frente, seguiria vitoriosa - entre outros, Belodedici defenderia ainda Valencia e Real Valladolid (ESP) e Atlanta (MEX) antes de retornar ao Steaua, já no final dos anos 90, para o encerramento de sua carreira. Além disso, foi nome destacado na seleção romena de 1994, uma das sensações da Copa dos Estados Unidos que quem acompanhou lembra muito bem. Mas o mais importante Belo já tinha feito - afinal, o que pode ser mais significativo do que apresentar o caminho das conquistas internacionais para dois países diferentes, sendo figura decisiva em ambos os casos? Não muita coisa, certamente. Hoje em dia, Miodrag Belodedici trabalha na Federação Romena de Futebol, encarregado de administrar as categorias de base do país. Tenho certeza de que, a seu modo, Belo segue levando o futebol do leste europeu para a frente, e preparando jovens para as conquistas do futuro a partir do seu próprio exemplo. Nada mal, convenhamos.
Fotos: Belodedici furando as redes pelo Steaua (Stelisti.ro) e levantando a taça em Tóquio pelo Crvena zvezda (blog Minuto 90's).

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Carta na Mesa - Edição 50 - 23/11/2009

http://www.4shared.com/file/158197356/75589214/CARTASNAMESAd231109.html

Ficha técnica
Gravação: Estúdio de Rádio da Fabico/UFRGS, 23/11/2009
Duração: 46'12"
Mesa: Vicente Fonseca, Lourenço Fonseca, Paulo Finatto, Pedro Heberle, Samir El Hawat, Marcos Almeida Pfeifer, Karen Couto e Gustavo Faraon.
Técnica: Neudimar "Batatinha" da Rocha.
Principais tópicos abordados: Tcheco deixa o Grêmio em 2010; Atlético-MG 0 x 1 Inter; briga pelo título e rebaixamento.

Volta o cavalo encilhadinho

No mundo encantado do Campeonato Brasileiro 2009, existe um cavalinho solitário que anda muito, muito triste. Mansinho e dócil, o cavalo troteia pelos gramados do Brasil, todo encilhadinho, pronto para conduzir quem nele montar rumo ao título nacional. Mas, embora todos pareçam interessados em dar uma volta no cavalo, ninguém realmente aproveita a chance de subir na garupa do bichinho. Na noite de domingo, foi a vez do Flamengo ver o cavalo encilhado desfilar garbosamente no Maracanã, lotado com mais de 80 mil espectadores, elétrico com a vitória do Botafogo sobre o São Paulo ocorrida minutos antes. Vencendo o Goiás, o Flamengo seria líder isolado, e teria a taça ao alcance de suas mãos. Mas, como outros antes dele, os cariocas demoraram demais para montar no cavalinho, e agora vá saber se terão outra chance...

O clima era de festa no Maracanã, com direito a um belo mosaico de milhares de torcedores compondo a frase "a maior torcida do mundo faz a diferença". Mas logo nos primeiros minutos ficou claro que, se quisesse tirar o Goiás para dançar, o Flamengo ia ter que dar uma variada no seu repertório. Contido pela forte marcação, Petkovic tinha dificuldades para achar espaços. Adriano, isolado, tinha que voltar até o meio de campo para ver a cor da bola. Pouco criativo, o meio de campo flamenguista municiava mal os laterais, e os volantes Airton e Toró passavam pouca segurança atrás. O sistema defensivo do Goiás continha bem o dono da casa, mas as jogadas de ataque do esmeraldino eram centralizadas demais em Léo Lima, que estava em péssima jornada e errava quase tudo. Com isso, o primeiro tempo só podia ser o que foi: tenso, arrastado, sem maiores iniciativas ofensivas de parte a parte.

Lendo bem as dificuldades do jogo, Andrade puxou Willians mais para a direita, para criar mais dificuldades ao jovem e nervoso lateral goiano Douglas. Por ali, sozinho ou em triangulações com Léo Moura, Willians achou algumas das melhores infiltrações do Flamengo na primeira etapa. Mas a melhor chance flamenguista foi de bola parada: Petkovic, aos 21 minutos, cobrou com enorme categoria, e a bola caiu mansamente a centímetros da trave do goleiro Harlei. Mas a melhor jogada da primeira etapa foi goiana: aos 41, Fernandão e Iarley tabelam, Léo Lima fica livre e obriga Bruno a uma defesa difícil. Um final agourento para um primeiro tempo pouco animador dos donos da casa - e para o pobre cavalinho encilhado, que a essa altura já pastava desanimado prevendo seu destino.

O jogo ficou mais emocionante e movimentado no segundo tempo, mas não se pense que isso foi fruto de uma melhora técnica significativa. Pelo contrário: o Flamengo passou a trabalhar ainda menos as jogadas, o Goiás perdeu parte de sua consistência defensiva, e o resultado foi um jogo rápido, nervoso, mas sem que houvesse imposição técnica de nenhum dos lados. O Flamengo até deu jeito de quem ia pressionar no início, mas algumas boas defesas de Harlei foram suficiente para arrefecer os ânimos do rubro-negro. Willians, um dos nomes mais ativos do Flamengo, saiu aos 18 minutos para a entrada de Kleberson - pouco depois o sempre dedicado Petkovic dá lugar ao pouco produtivo Fierro. E aí sim o rubro-negro se perdeu. O lance mais agudo da segunda etapa, aos 22, resume bem o que virou o jogo: um entrevero maluco na área goiana, com direito a botinada na cara do goleiro, puxões de cabelo, unhadas e golpes de full contact, até que a bola espirrasse de algum modo para longe do gol. Muita vontade, pouca inspiração e nenhuma sorte - eis o retrato do Flamengo no domingo do Maracanã.

O cavalo encilhado, antes de jogar a toalha e ir passear em outra freguesia, ainda viu o Flamengo perder algumas boas chances com Adriano e Ronaldo Angelim, o Goiás desperdiçar contra ataques com Felipe e Amaral, Léo Lima coroar sua má atuação aos 37 com um chute horrendo e o goleiro Bruno brincar de Marcos, tentando cabecear uma ou duas bolas alçadas por Léo Moura ao final do jogo. Mas a essa altura a partida já se arrastava rumo ao fim inevitável - e o silêncio de um Maracanã antes preparado para a festa era bastante revelador nesse sentido.

Nada está definitivamente perdido, pelo contrário. Bem ou mal, o empate sem gols diminuiu para um único ponto a distância para o líder São Paulo, e em duas rodadas tudo pode acontecer. Mas, terminada a partida, era indisfarçável a sensação de que o Flamengo tinha deixado passar a chance, titubeado na hora decisiva, ignorado o cavalinho encilhado no momento em que montá-lo era uma pura questão de iniciativa. E agora o time da Gávea terá que encarar Corinthians e Grêmio, torcendo por tropeços de seus adversários para conquistar a taça. Tarefa indigesta para um time cheio de qualidade, mas ao qual faltou tranquilidade e bom futebol na hora mais importante.

Em tempo:
- Destaques no Flamengo: Willians e Petkovic. Destaques no Goiás: Harlei, Leandro Euzébio e Ernando.

- Deplorável, mais uma vez, o uso pela TV das infames legendinhas nas canções entoadas pela torcida do Flamengo. A festa da torcida era linda, com certeza - mas futebol, mesmo que do RJ, não é desfile de escola de samba...

Campeonato Brasileiro 2009 - 36ª rodada
22/novembro/2009
FLAMENGO 0 X GOIÁS 0
Local: Maracanã, Rio de Janeiro (RJ)
Árbitro: Leandro Vuaden (RS)
Público: 83.489
Renda: R$ 1.470.905,00.
Cartões amarelos: Rithelly e Leandro Euzébio (Goiás).
FLAMENGO: Bruno; Léo Moura, Álvaro, Ronaldo Angelim e Juan; Airton, Toró, Willians (Kleberson) e Petkovic (Fierro); Zé Roberto (Bruno Mezenga) e Adriano. Técnico: Andrade.
GOIÁS: Harlei; Vitor, Rafael Tolói, Ernando e Leandro Euzébio; Douglas, Léo Lima, Rithelly (Amaral) e Fernando; Iarley e Fernandão (Felipe). Técnico: Hélio dos Anjos.

Foto: Adriano, muito marcado, não ajudou o Flamengo a assumir a liderança (Maurício Val/Terra Esportes).

domingo, 22 de novembro de 2009

Ferrolho para a América

O Internacional fez o que manda a cartilha: marcou seu gol fora de casa, após começar o jogo melhor, e se fechou no restante da partida. Assim como fizera o Flamengo, sabia que ao se fechar complicaria demais a vida do Atlético-MG, que demonstrara dificuldades em jogar neste tipo de situação. E mesmo que Mário Sérgio tenha retrancado a equipe muito cedo, saiu com a vitória mais importante no Campeonato Brasileiro.

No entanto, por mais que seja de deixar o coração dos colorados na mão, a estratégia de Mário Sérgio mostrou-se acertada. Afinal, o Atlético-MG de Celso Roth não teve jogadas trabalhadas, abusou do chuveirinho infrutífero (Bolívar e Lauro ganharam todas por cima, se consagraram), errou passes em demasia e foi se enervando à medida que a torcida ia se impacientando.

Alecsandro teve de deixar o jogo no intervalo, lesionado, para o ingresso de Taison. O ataque ganhou velocidade e ensaiou alguns contra-golpes na etapa complementar, algo que raramente aconteceu no primeiro tempo. Com Glaydson no lugar do apagado D'Alessandro, foi formado um paredão à frente da área. Roth levou incríveis 66 minutos para retirar o desastroso Éder Luís. Ainda levou sorte: quando ia tirar Thiago Feltri, única opção de jogada pela esquerda, em favor de Rentería, o zagueiro Welton Felipe se lesionou e Alex Bruno foi obrigado a entrar para recompor o setor defensivo.

No Inter, destaque para a dupla de zaga, que teve trabalho facilitado pelos constantes levantamentos do Galo. Guiñazu e Sandro foram muito bem no combate aos meias atleticanos, o que impediu criatividade por parte dos mineiros. Na esquerda, Kleber foi muito seguro na marcação e ainda participou do gol. Atuação destacada. Pelo Galo, alguma lucidez de Diego Tardelli. De resto, muita luta e pouca qualidade de acabamento.

O Inter só não entra na Libertadores por um desastre. Tem dois adversários fáceis pela frente e deve confirmar os seis pontos. Para título há a possibilidade, ainda que remota. Basta que o São Paulo faça 4 pontos ou o Flamengo vença as duas. Foi a melhor rodada do Brasileirão para o colorado: é o único time dos seis primeiros que venceu. E justamente era, de todos eles, o que tinha o compromisso mais complicado. A festa é justa. A América está perto novamente.

Campeonato Brasileiro 2009 - 36ª rodada
22/novembro/2009
ATLÉTICO-MG 0 x INTERNACIONAL 1
Local: Mineirão, Belo Horizonte (MG)
Árbitro: Cléber Wellington Abade (SP)
Público: 41.842
Renda: R$ 571.535,00
Gol: Giuliano 15 do 1º
Cartão amarelo: Carlos Alberto, Márcio Araújo, Lauro, Kleber, Glaydson, Guiñazu e Danilo Silva
ATLÉTICO-MG: Carini (6), Carlos Alberto (5) (Evandro, 38 do 1º - 4,5), Welton Felipe (5,5) (Alex Bruno, 29 do 2º - 5,5), Werley (5) e Thiago Feltri (5,5); Jonílson (5), Márcio Araújo (4,5), Corrêa (5) e Ricardinho (5,5); Éder Luís (4) (Alessandro, 21 do 2º - 5,5) e Diego Tardelli (5,5). Técnico: Celso Roth (4)
INTERNACIONAL: Lauro (7), Danilo Silva (6), Índio (6,5), Bolívar (7) e Kleber (7); Sandro (6,5), Guiñazu (6,5), Giuliano (6) e D'Alessandro (5) (Glaydson, intervalo - 5); Marquinhos (5) (Andrezinho, 13 do 2º - 5,5) e Alecsandro (6) (Taison, intervalo - 6). Técnico: Mário Sérgio (6,5)

Foto: Giuliano comemora o gol que põe o Inter quase na Libertadores 2010 (Vipcomm/Divulgação)

Filho do trabalho

O nome da tarde é estranho, mas a torcida do Botafogo já sabe de cor. E a do São Paulo não esquecerá tão cedo. Jóbson foi o personagem do jogo do Engenhão, que talvez tenha sido o melhor do Campeonato Brasileiro de 2009: marcou dois golaços, deu passe para outro e ainda achou tempo de ser expulso. Foi o herói de uma torcida que via seu time voltar para a zona de rebaixamento a duas rodadas do fim e a cinco minutos do encerramento da partida.

O Botafogo provou que desta vez a necessidade de sobrevivência venceu a da glória. O próprio São Paulo havia passado por situação semelhante ano passado, jogando contra o Vasco em São Januário, jogo no qual venceu por 2 a 1 e encaminhou o título. A equipe de Estevam Soares, sabendo do retrospecto fulminante do tricolor em retas finais, começou arrasadora. Faltava qualidade para traduzir o volume de jogo em chances reais de gol. Jóbson, entretanto, abriu os trabalhos aos 14 minutos, ao desferir um chutaço mortal no ângulo de Rogério Ceni, sem deixar a pressão arrefecer.

Com vários desfalques, o São Paulo precisava agora virar o jogo fora de casa. Aos poucos foi ocupando o campo botafoguense. Marlos começou a entrar mais no jogo, Jorge Wagner idem. Hernanes é que permaneceu em rotundo silêncio por todos os 90 minutos. Não fosse por um chutaço no poste no segundo tempo, ninguém lembraria que jogou esta partida. Até que no último lance do primeiro tempo Washington furou a resistência botafoguense empatando de cabeça. Uma ducha fria no Engenhão.

O resultado na volta do intervalo era ruim para os dois agora, mas o momento psicológico era são-paulino. A virada veio aos 10, com Jorge Wagner, e era o reflexo de quem jogava com mais tranquilidade e segurança. E aí veio o momento mais importante do jogo: o empate botafoguense dois minutos depois, em lance confuso envolvendo Jóbson, a zaga são-paulina e Renato, que empatou quase em cima da linha. O gol sofrido não estava no script de vitórias e títulos recentes do São Paulo. Permanecendo o tricolor em vantagem por mais tempo, e com a vitória parcial do Fluminense em Recife, o Botafogo entraria provavelmente em colapso nervoso. Mas a igualdade veio cedo, e o jogo mudava de figura novamente. Todas as alternativas que um jogaço poderia oferecer estavam sendo dadas.

O jogo ficava à feição dos cariocas, até pela expulsão de Richarlyson, aos 25. Mas sobrava nervosismo. E o São Paulo, nos contra-golpes, era perigosíssimo. Hernanes deu o supracitado balaço no travessão, Marlos perdeu chance em contra-ataque rápido. Mas Jóbson estava infernal. Do nada, apareceu na cara do gol, cortou Miranda com extrema categoria e matou o jogo. Já eram 10 contra 10. Jóbson foi expulso na comemoração, e Rodrigo Dantas deixou o Botafogo com oito no último minuto. Dramaticidade completa.

Muitos destaques no Botafogo. Leandro Guerreiro fez partidaço na cobertura, Juninho ia bem até levar vermelho, Victor Simões melhorou a movimentação do ataque na segunda etapa. Pelo São Paulo, boa partida do incansável Júnior César. Mas Jóbson foi o cara. Ninguém jogou mais que ele. E ninguém fará mais do que ele numa hora tão decisiva da temporada para o Fogão. Se os alvinegros esacaparem da Série B, um de seus heróis já está eleito. Agora, terão de ser mais 11 em Curitiba, quando ele próprio e mais o capitão Juninho não poderão entrar em campo. Para o tricolor um péssimo resultado, a menos que o Flamengo, daqui a poquinho, prove o contrário.

Campeonato Brasileiro 2009 - 36ª rodada
22/novembro/2009
BOTAFOGO 3 x SÃO PAULO 2
Local: Engenhão, Rio de Janeiro (RJ)
Árbitro: Sandro Meira Ricci (DF)
Público: 26.513
Renda: R$ 270.536,00
Gols: Jóbson 14 e Washington 49 do 1º; Jorge Wagner 10, Renato 13 e Jóbson 44 do 2º
Cartão amarelo: Renato, Jóbson, Renato Silva e Wellington (SPA)
Expulsão: Richarlyson 25, Juninho 38, Jóbson 44 e Rodrigo Dantas 48 do 2º
BOTAFOGO: Jefferson (5,5), Alessandro (5), Juninho (5,5), Wellington (5) e Diego (5,5); Leandro Guerreiro (7), Fahel (5,5) (Rodrigo Dantas, 35 do 2º - 2), Renato (5,5) (Jônatas, 32 do 2º - 5,5) e Lúcio Flávio (6); Jóbson (9) e Reinaldo (5) (Victor Simões, intervalo - 6). Técnico: Estevam Soares (7)
SÃO PAULO: Rogério Ceni (6), Renato Silva (4,5), Miranda (5,5) e Richarlyson (4,5); González (4,5) (Wellington, 26 do 2º - 4,5), Arouca (5,5) (Zé Luís, 18 do 2º - 5), Hernanes (4,5), Jorge Wagner (6) e Júnior César (6,5); Marlos (5,5) (Henrique, 39 do 2º - sem nota) e Washington (6). Técnico: Ricardo Gomes (5,5)


Foto: Jóbson foi o craque do jogaço no Engenhão (Daniel Zappe/Vipcomm/Divulgação).

sábado, 21 de novembro de 2009

Quase de terceira

O Juventude cumpriu hoje mais um capítulo melancólico de sua acidentada caminhada na Série B. Lotou o Alfredo Jaconi com ingressos a preços módicos e, mesmo assim, levou 3 a 1 do agora promovido Atlético-GO. Combinado este fracasso às vitórias de Brasiliense, Bahia e América-RN, temos um verdadeiro desastre: a entrada na zona de rebaixamento à Terceira Divisão na 37ª de 38 rodadas. E o próximo adversário é ninguém menos que o 3º colocado, o já promovido Guarani, no Brinco de Ouro.

Os cálculos para permanecer na Série B são simples. Difícil é dar certo. O Juventude, vencendo em Campinas, precisa que um entre Brasiliense, América-RN e Ipatinga não vença seu jogo. Destes, só os potiguares jogam fora, contra o vice-líder Ceará. Empatando, os caxienses só se salvam se o Ipatinga perder.

E esta é a única briga da última rodada, a contra o rebaixamento. O Fortaleza é outro tradicional clube nordestino que engrossará a lista dos favoritos ao título da Série C ano que vem. O rival do tricolor cearense, o Ceará, fez 2 a 1 na Ponte em Campinas e garantiu a volta à elite 16 anos depois. Já o rival da Ponte, o Guarani, levou 2 a 0 do Bahia em Salvador, mas subiu igual. O resultado foi bom também para os baianos, que já não caem mais. O acesso com derrota do Bugre explica-se pelo fracasso do Figueirense, que levou 2 a 1 em casa do Duque de Caxias e permanecerá mais um ano na Segundona. A Portuguesa fez 1 a 0 no Vasco, mas não tem mais chances de subir também.

Série A
O Náutico (18º, 38) prolonga sua vida por mais uma semana. Levou a virada do Corinthians (10º, 49) no Pacaembu, mas revirou o jogo e venceu por 3 a 2. Mesmo que o Botafogo vença o São Paulo amanhã, seguirá com chances matemáticas.

Já a Arena da Baixada viu um empate em 1 a 1 ruim tanto para Atlético-PR (15º, 44) quanto para o Cruzeiro (6º, 56), que desta vez fez um gol nos acréscimos ao invés de levá-lo. Os parananeses seguem ameaçados, e terão contra o Fogão um jogo irremediavelmente direto contra o descenso na semana que vem, também em Curitiba. Já a Raposa perdeu a chance de ultrapassar Atlético-MG e Internacional, que duelam amanhã. Se vencesse hoje e o jogo do Mineirão empatasse, finalizaria a rodada no G-4, tendo dois jogos relativamente tranquilos no fim. A Libertadores complicou. No fim, o Cruzeiro de bela arrancada perdeu o fôlego.

Gravação - Carta na Mesa, edição 50

Gravação de segunda-feira (23/11)
Estúdio de Rádio da Fabico/UFRGS
Endereço: R. Ramiro Barcelos, 2.705, Santana - Porto Alegre (RS)
Horário: das 12:15 às 13:00

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Um tapinha na chatice

A moda agora no futebol é uma ânsia punitiva. O STJD aparece na reta final do Campeonato Brasileiro punindo jogadores de clubes diferentes com pesos diferentes para casos muitas vezes semelhantes. O comentarista, a cada falta um pouco mais dura, já pede cartão, não raro o vermelho. O árbitro que erra pega geladeira. O dirigente, técnico ou jogador que reclama idem. Muitas vezes as punições são justas, mas em outras tantas elas só atendem ao afã rigoroso que dá a impressão de por ordem na casa quando, na verdade, é nada mais que uma moral de cuecas.

E agora, após França x Irlanda, já começaram os brados contra Thierry Henry. Antes de mais nada, deixo clara minha opinião: o que ocorreu foi um absurdo, foi cruel. A Irlanda encarou uma medíocre e medrosa França de igual para igual, poderia ter vencido por diferença ainda maior no tempo normal e não merecia, de forma alguma, sofrer um gol do jeito que sofreu: um impedimento não dado seguido de uma mão na bola por parte de Henry que possibilitou a conclusão de Gallas para o gol. Também me tomei de raiva na hora, senti pena dos irlandeses, estava torcendo por eles.

Entretanto, punir Henry seria mais um passo em direção à chatice suprema que os moralistas de plantão querem implantar no futebol. O que queriam? Que o jogador negasse que usou a mão para fazer o gol? Seria hipócrita da parte dele negar o inegável, como fez o jogador do Paraná naquela cortada de vôlei que o juiz não viu no jogo contra o Ceará. Henry confirmou o uso da mão e disse que isso é um problema do árbitro se não viu. E é mesmo. O que deveria ter havido é uma punição dentro do campo, com a falta marcada a favor da Irlanda e um cartão amarelo a Henry por atitude antidesportiva. Fazer justiça agora, fora de jogo, com o auxílio das câmeras, é concordar com o STJD brasileiro, que pune quem sai da linha como o público faz em votações do Big Brother Brasil, quase nunca com coerência e desautorizando por completo a decisão do árbitro. Quem precisa ser punida com rigor é a arbitragem, que não viu um lance clamoroso desses.

Henry não está certo em botar a mão na bola. Não concordarei nunca com tais artifícios. Mas eles devem ser punidos dentro de campo, na lei do jogo. Hoje em dia, quando alguém cai no gramado, é "obrigação moral" o atleta adversário, mesmo no fim de um jogo decisivo, botar a bola para fora para que o rival seja atendido (quando muitas vezes isso não passa de cera técnica). Até jogo na Inglaterra já foi anulado por conta desse absurdo. Alguns dribles viraram ofensa pessoal. Técnico não pode falar palavrão à beira do campo porque dá mau exemplo aos jovens que estão vendo pela TV. E agora um jogador que comete uma falta é visto como antiético quando, muito mais que isso, o árbitro que não viu o lance é que é um incompetente. Anular um jogo por causa disso é um absurdo. Se cada erro grave de arbitragem anulasse um jogo, estaríamos aqui no Brasil, em 2009, vendo ainda, talvez, o quadrangular final do Robertão de 1968.

O futebol é um jogo e tem suas regras. Mas é um jogo. Injusto, por vezes, sim. Mas não pode virar um espetáculo de moralismo onde todos devem se portar como mocinhos e uns poucos bandidos devem servir de exemplo para serem açoitados. E não há nada mais chato que ser moralista ou politicamente correto ao extremo, especialmente no futebol. Daqui a pouco teremos de pedir licença para fazer gol, pois é um ato que prejudica o trabalho dos adversários, que são honestos trabalhadores.

Copa com meio estreante

A definição das 32 seleções que desfilarão sob o som irritante das vuvuzelas nos mostra um dado interessante. Temos apenas um país estreante. Ainda assim, um meio estreante. É a Eslováquia, que quando ainda compunha nação com os tchecos era seleção tradicional em copas do mundo, sendo inclusive duas vezes vice-campeã, em 34 e 62. De bandeja, embora eu não considere, podemos colocar aí a Sérvia, agora separada de Montenegro, mas que também é velha conhecida.

O fato contrasta com a Copa de 2006, na qual tivemos oito equipes perdendo o lacre. Fora o torneio com maior número de estreantes, desde as copas de 30 e 34. Naquele ano, representou dois fatores diferentes: o primeiro a profissionalização do futebol se espalhando pelo mundo, muito através do mercado europeu que capta jogadores e fez com que Angola, Costa do Marfim, Gana, Togo e Trinidad e Tobago tivessem ao menos alguns atletas com a experiência necessária para colocarem suas seleções no mundial.

Por outro lado, os debutes de Ucrânia, Sérvia e Montenegro e República Tcheca em 2006, são da linha dos de Sérvia e Eslováquia, oriundos da geopolítica conturbada no Leste Europeu após a Guerra Fria. E são estreias que não acrescentam nada culturalmente.

A Copa do Mundo costuma ser uma grande oportunidade para que as pessoas conheçam a cultura de países até então obscuros. Roger Milla disse certa feita que só a Copa consegue fazer “um país pequeno se tornar grande”. Ele e Higuita sabem exatamente como.

Ainda assim, 2010 nos brindará com alguns participantes inusitados, casos da Nova Zelândia (futebolisticamente) e, especialmente, da Coreia do Norte. O império de Kim Jong possivelmente é o país mais fechado do mundo atualmente e o torneio pode ser uma possibilidade para conhecermos mais sobre os norte-coreanos. Até para olharmos mais para este país combalido.

Outro fator interessante nas seleções estreantes é a oportunidade de podermos assistir alguns craques de países pouco tradicionais. Os togoleses, por exemplo, fizeram um papelão em 2006, com ameaças até de abandonarem o mundial por brigas internas. Mas sua participação mostrou ao mundo Adebayor. Até hoje, o amante do futebol lamenta não ter visto George Weah, por exemplo, em uma Copa, ele que foi o melhor jogador do mundo em 1995. Sua Libéria ainda não chegou lá.

Pelo menos, a falta de novas seleções pode ser indicativa de melhor futebol. A ingenuidade é marca comum dos times novatos. A Grécia, campeã europeia em 2004, por exemplo, foi o maior saco de pancadas na Copa do Mundo apenas dez anos antes. Dos oito estreantes de 2006, apenas Gana passou da primeira fase.

Mas já tivemos lá alguns debutantes atrevidos. Em 2002, Senegal venceu a então atual campeã, França, que acabou eliminada na primeira fase. Em 1982, a Argélia, que estará de volta em 2010, bateu a Alemanha em sua primeira partida em copas. Em 1966, talvez a maior surpresa da história dos mundiais: a Coréia do Norte vence a Itália por um a zero e elimina os carcamanos. Os coreanos também retornam ao mundial. É bom ficar de olho. Se tem lugar pra dar zebra, esse é a África.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

48 meses depois

Como explicar que um jogador que não vence nenhum grande título em quatro anos sai com três quartos de aprovação por parte da torcida? No caso de Tcheco, há vários argumentos que explicam.

Tcheco foi um líder de grupo. Pode-se contestar o fato de ser o capitão do time há tanto tempo, afinal, tem temperamento explosivo. Mas nas poucas vezes em que foi para a reserva, nunca reclamou. Não cria intrigas, recepciona e deixa os mais jovens à vontade quando sobem ao profissional.

Tcheco foi também um líder técnico. Seus passes precisos, sua bola parada de altíssimo nível, seus gols e suas assistências fizeram dele uma referência dentro de campo para os colegas e para os torcedores, que sempre cobraram dele porque sabiam que dali poderia sair alguma coisa positiva.

Tcheco é um gremista. Identificadíssimo com o clube, é um caso raro de jogador que permanece por muito tempo num clube. Nos quatro meses iniciais de 2008, quando esteve no Oriente Médio, retornou ao Olímpico ganhando menos que lá, por saudades de casa e pelo amor ao clube com o qual tanto se identificou.

Tcheco soube ser ídolo. É um cidadão: atende a todos os fãs atenciosamente, posiciona-se sempre nas entrevistas, fala com a responsabilidade de quem é líder e ciente de seu papel como profissional e na sociedade.

Luiz Onofre Meira e o próprio Tcheco anunciaram há pouco o fim desta história de quase quatro anos. Não foi por dinheiro, como se chegou a anunciar, mas pelo entendimento mútuo de que o ciclo precisava ser encerrado. Tcheco termina, em dezembro de 2009, uma passagem com dois títulos gaúchos, um vice da Libertadores e um vice Brasileiro. Sincero, se diz frustrado por não ter conseguido taças mais relevantes. Esteve perto duas vezes, mas não atingiu os objetivos. Queria entrar na história do clube por isso.

Mas Tcheco está, sim, na história do Grêmio. Talvez entre nela mais ou menos como Iúra, um nome que ficou marcado por jogar no clube numa fase de poucas conquistas, mas que ainda assim tem valor inestimável de serviços prestados. Tcheco foi o principal nome de uma fase de recuperação da auto-estima do clube. Fez um 2006 marcado por grandes atuações entremeadas de lesões longas. Em 2007, teve um primeiro semestre espetacular e um segundo muito abaixo, com expulsões e um Brasileirão decepcionante. Em 2008, chegou para jogar ao lado de Roger, como um coadjuvante. Com a saída do meia para o Catar, assumiu as rédeas da criação no meio, não deixando a torcida com saudades do craque. Ganhou prêmios importantes por seu excelente campeonato. Neste ano, em prol do time, atuou improvisado como volante por vários meses no time de Celso Roth, mesmo sem tanto fôlego, aos 33 anos. Foi sua temporada de pior desempenho, mesmo quando voltou a atuar mais adiantado.

Não tenho posição definida sobre ser a favor ou contra a permanência dele para 2010. O certo é que o Grêmio precisaria buscar outros nomes para não depender tanto de Tcheco, que já não é o mesmo de seus melhores tempos. Ou ele ficaria com um papel menos preponderante, ou sairia. Optou-se pela segunda alternativa. Será difícil achar um jogador com suas características, que crie e ajude a marcação como ele faz, mas nada que não seja resolvível. Tcheco é um grande jogador, mas não um fora de série insubstituível. Talvez esteja chegando a hora de jovens como Douglas Costa e Maylson assumirem papel mais importante.

Nestes quatro anos, o camisa 10 cometeu seus deslizes, teve momentos de alternância de qualidade de atuações. Mas a aprovação em todas as enquetes e o aplauso dos torcedores a cada jogo no Estádio Olímpico são os claros sinais de que, apesar da falta de grandes títulos, ele sai por cima, de bem com os gremistas, com o dever cumprido. Um jogador que personificou, para alguns, a culpa por uma era sem taças relevantes. Tcheco deixa o Olímpico injustamente culpado por uma minoria por conta disso. Afinal, ele sempre foi muito mais solução do que problema nestes últimos 48 meses. E não é preciso pensar muito para se chegar a esta conclusão: comandou o time com grandes jogos e gols importantes na arrancada esplêndida do Brasileiro de 2006, marcou gol importantíssimo nos históricos 4 a 0 sobre o Caxias, fez o primeiro gol em três partidas fundamentais do mata-mata na Libertadores de 2007, marcou gols em três das cinco últimas partidas do Brasileirão de 2008. Se isso é cartel para merecer rótulo de "amarelão", imaginem o que sobra para tantos outros. Tcheco errou muitas vezes, mas seu currículo tem mais aspectos positivos que negativos. Com sobras.

Que faltou o grande título é óbvio. Mas o Grêmio finaliza 2009 bem melhor do que quando começava 2006. E nesta notória diferença de realidade, há o dedo decisivo de muita gente. Tcheco está entre os principais responsáveis.

Os últimos seis

A última rodada das Eliminatórias foi marcada por jogos equilibrados, dramáticos e polêmicos. No caso deste último adjetivo, bem aplicável ao duelo de Paris, onde a arbitragem não viu o clamoroso toque de mão de Henry, muito menos o impedimento no mesmo lance, que definiu a classificação a favor de uma França que tremeu de mediocridade e falta de hombridade diante de uma brava, porém limitada, Irlanda.

Ainda na Europa, a Grécia reviveu seus melhores momentos da Euro 2004, ao fazer uma retranca maravilhosamente armada para segurar o 1 a 0 adquirido no primeiro tempo em Donetsk, diante da Ucrânia. A Eslovênia foi a zebra do dia, fazendo 1 a 0 na Rússia e passando no saldo qualificado, para desespero dos fãs de Arshavin. Já Portugal garantiu presença ao ter muto boa atuação, mesmo sem Cristiano Ronaldo, repetindo, na Bósnia, o 1 a 0 aplicado em casa.

Com muito drama vieram as outras duas classificações fora da Europa. A Argélia fez 1 a 0 no Egito no jogo extra, em um jogo envolveu 15 mil policiais, 6 mil deles dentro do estádio em Cartum, no Sudão. Está na Copa 24 anos depois. A última participação dos argelinos fora em 1986, quando inclusive enfrentaram o Brasil, perdendo por 1 a 0, em Guadalajara.

Por fim no post e dentro do campo, a última vaga à Copa não poderia estar em melhores mãos. O Uruguai confirma sua vocação para o drama ao empatar em 1 a 1 com a Costa Rica no nervoso Centenário que viu Abreu fazer 1 a 0 e os costarriquenhos empatarem, botando 20 minutos de puro drama. Vi o primeiro tempo no bar interno do Olímpico e assisti a um Uruguai melhor em um jogo de muita briga. Felizmente, deu Celeste. A Copa do Mundo ganha com uma seleção com tamanha tradição.

Em tempo:
- Grande vitória do Fluminense, virada espetacular, de campeão. Torço para a LDU hoje, para que vejamos uma maravilhosa revanche da final da Libertadores de 2008. O Flu pode, ganhando a Sula e fugindo da Série B, um ano e meio depois, sair da crise em que se meteu após perder o título continental. Diante do mesmíssimo adversário que causou esse rebuliço todo.

- STJD novamente aparece do nada na reta final prejudicando o andamento do Brasileirão. Desta vez, depenou o São Paulo com punições severas, mas que certamente serão revistas. Ou seja: pune com rigor para aparecer nos holofotes e depois volta tudo ao normal. Nada pode ser mais lamentável.

Foto: Uruguai, o 32º classificado à Copa da África do Sul (Reuters).

Intervalo decisivo

São Paulo e Cruzeiro já haviam saído do Olímpico com mais de uma expulsão neste Brasileiro. Hoje foi a vez do Palmeiras, um time que perdeu o controle dos nervos definitivamente. Na mesma semana em que o presidente do clube é punido por 9 meses pelo STJD, Maurício e Obina brigam a socos no início do intervalo, dentro do campo. Heber Roberto Lopes viu tudo e os expulsou, como deve ser feito. O Palmeiras, incrivelmente, cavou suas duas expulsões sem precisar do adversário. Raríssimo, quase inédito.

O lance que definiu o jogo, portanto, ocorreu sem a bola rolando. Mas foi ocasionado pela última jogada do primeiro tempo, um gol de Rafael Marques que dava ao placar a cara do que era o jogo. O Grêmio fez um bom primeiro tempo e dominou a maior parte das ações. Possivelmente ganharia mesmo que Obina e Maurício não tivessem sido expulsos, pelo modo como o jogo transcorria. Criou diversas situações antes de fazer seu gol. Rospide montou um 4-5-1 que tinha Maylson aberto pela direita, de boa movimentação, e Douglas Costa, fundamentalmente, pela esquerda. O guri talvez tenha feito sua melhor partida como profissional - se não, uma das melhores. Driblava objetivamente em velocidade. Abriu a defesa palmeirense a partir de tabelamentos com Lúcio, sempre infernizando a vida de Figueroa e Maurício.

O Palmeiras chegou com perigo uma única vez, em jogada individual de Diego Souza. Quem tem visto os jogos dos comandados de Muricy não se surpreende. Apenas assim o Verdão tem conseguido esparsos resultados. Após a lesão de Cleiton Xavier, o rendimento da equipe caiu vertiginosamente, não apenas nos escores, mas nas atuações. O primeiro tempo dos paulistas não chegou a ser ruim, mas bastante insuficiente para quem chegou ao Olímpico falando em vitória com a salvação do ano. Além de Diego, Armero é quem fazia uma correria mais perigosa pela esquerda. Obina e Ortigoza, dupla escolhida para iniciar a partida em detrimento de Vagner Love, mal pegaram na bola. Deyvid Sacconi esteve bem controlado por Adílson e Fábio Rochemback, que desta vez até fez boa partida.

No segundo tempo, com dois a mais, o Grêmio diminuiu o ritmo. O jogo parecia mais a risco que na etapa inicial, de 11 contra 11. Diego Souza obrigou Marcelo Grohe a boa defesa, e a seguir cabeceou sozinho para fora. Só a partir dos 20 minutos é que o tricolor fez o que deveria: tocou a bola pacientemente até encontrar uma brecha. Rospide trocou o lesionado Maylson por Herrera na tentativa de furar as duas linhas de quatro armadas por Muricy para evitar fiasco maior. Em trocas de passe pacenciosas ou no chuveirinho, o Grêmio ameaçava. Foi em jogada coletiva de Souza e bela assistência de Herrera que Maxi López mostrou o centroavante rompedor que é para decretar o 2 a 0 final.

Douglas Costa foi o melhor homem em campo. Começará a temporada 2010 como titular, e vem merecendo mesmo. Lúcio lembrou o de 2007 e não o inseguro dos últimos meses, Réver e Rafael Marques formaram dupla qualificada de zagueiros, Souza errou muito e depois melhorou, apesar de estar longe de seu bom momento no ano. Mas a melhor notícia da noite foi a volta de Willian Magrão aos gramados, 9 meses após a lesão que o tirou da Libertadores e do Brasileirão. Fazendo boa pré-temporada, será o grande acréscimo ao meio-campo para o ano que vem.

Para o Palmeiras, que demitiu Obina e Maurício, é um momento complicadíssimo. O título é inviável, a Libertadores fica ameaçada, o clima é terrível e há jogo fundamental diante do Atlético-MG daqui a 10 dias. Muricy terá de provar que, de fato, cresce nas horas ruins, como disse em coletiva antes do duelo no Olímpico.

Campeonato Brasileiro 2009 - 36ª rodada
18/novembro/2009
GRÊMIO 2 x PALMEIRAS 0
Local: Olímpico Monumental, Porto Alegre (RS)
Árbitro: Heber Roberto Lopes (PR)
Público: 14.521
Renda: R$ 231.233,00
Gols: Rafael Marques 45 do 1º; Maxi López 25 do 2º
Cartão amarelo: Lúcio, Armero e Pierre
Expulsão: Maurício e Obina no intervalo
GRÊMIO: Marcelo Grohe (6), Thiego (6) (Willian Magrão, 27 do 2º - 5,5), Rafael Marques (6,5), Réver (6,5) e Lúcio (6) (Bruno Collaço, 38 do 2º - sem nota); Adílson (6), Fábio Rochemback (5,5), Souza (5,5), Maylson (5,5) (Herrera, 8 do 2º - 5,5) e Douglas Costa (7); Maxi López (7,5). Técnico: Marcelo Rospide (6,5)
PALMEIRAS: Marcos (5,5), Figueroa (4,5), Maurício (0), Danilo (5,5) e Armero (5,5); Pierre (5,5), Sandro Silva (4,5), Deyvid Sacconi (5) e Diego Souza (6); Ortigoza (4) (Marcão, intervalo - 5,5) e Obina (0). Técnico: Muricy Ramalho (4,5)

Foto: Obina prepara o cruzado que acerta Maurício e acaba com o Palmeiras no Brasileirão (Lucas Uebel/Gazeta Press).

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