Nunca se perde a majestade
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| Independiente campeão: eram 15 anos sem títulos continentais |
O Independiente mereceu o título não porque tenha jogado mais ou porque seja melhor que o Goiás. Mereceu porque foi heroico e superou todas as suas limitações, tanto técnicas como físicas. E, claro, a do placar de Goiânia. Passou por cima de tudo isso com uma vontade maior do que as próprias pernas dos jogadores podiam responder. E tirou a agonia de uma torcida que estava há anos em jejum, e que merecia, afinal de contas, uma alegria.
O começo de jogo não foi o do abafa esperado. Embora o primeiro tempo tenha terminado 3 a 1, o Independiente só começou a se impor pouco antes do primeiro gol. É preciso dizer que Mohammed escolheu bem o substituto de Silvera: Parra, quase um ponta direita, atuou centralizado e foi decisivo. Marcou dois gols, um de sorte, outro na raça. Foi um dos nomes do jogo. Rodríguez, o que não devia ter ficado de fora no Serra Dourada, foi outro que garantiu boa movimentação no ataque argentino.
A reação rápida do Goiás (contra-ataque espetacular) calou Avellaneda, mas o gol acidental de Parra pôs fogo definitivamente na partida e inaugurou o pior momento dos brasileiros em toda noite: os 20 minutos finais do primeiro tempo. Aquele foi o instante onde o Independiente poderia ter matado, mas não matou. Como os esmeraldinos em Goiânia, com a diferença de que lá o Goiás não definiu porque não quis, e hoje os argentinos não abriram goleada, mas tentaram.
Evidente que o ritmo absurdo da primeira etapa cobraria seu preço. O preparo físico dos clubes da Argentina não é bom perto do que temos no Brasil, e um cansaço adicional era a promessa de drama. Assim foi: o segundo tempo começou equilibrado, mas logo o Goiás foi se adonando da partida. Rafael Moura, um dos melhores jogadores em campo e craque da Sul-Americana 2010, tocou o terror com jogadas geniais. Seguramente não disputará a Série B do ano que vem por seu atual clube.
As mexidas colaboraram para piorar o quadro. Felipe entrou voando fisicamente e bem tecnicamente. Já Mohammed não foi feliz nas trocas. O carequinha Gomez entrou muito mal, errando tudo. Gracián fez mais, mas não tinha parceria. É difícil condenar o treinador por ter sacado Rodríguez, pois o meia podia estar com alguma restrição física. Mas, se a mexida foi técnica, não se justifica. Era ele o fluido que fazia a engrenagem funcionar. O resultado foi o campo todo para o Goiás trabalhar. O time do Cerrado pagou o preço de perder tantos gols.
Extenuados, os jogadores platinos não sabiam o que fazer com a bola. Passes de dois ou três metros eram errados, tal a exaustão. Mesmo assim, souberam resistir. Aí está o grande mérito. O Independiente fez tudo o que esteve a seu alcance para reverter e depois segurar. O Goiás, embora tenha sido superior na soma dos 210 minutos de bola rolando, não matou a decisão em Goiânia como deveria. Deixou para Avellaneda. Sabíamos que o jogo seria diferente lá.
É bonito ver uma torcida multicampeã, porém acostumada ao sofrimento recente voltar a sorrir. É ótimo para a Libertadores do ano que vem que o Independiente seja um de seus participantes. Não pelo time atual, mas por tudo o que este clube representa. Não que o Goiás não merecesse. O time do Centro-Oeste brasileiro foi o melhor de todos na Sul-Americana, pelo que jogou e por tudo o que fez, também superando sérias adversidades. Mas falhou na hora “h”. E não me refiro ao pênalti desperdiçado por Felipe, mas às várias oportunidades que teve para matar o Independiente, e não o fez. Com um Rey de Copas, seja em que circunstância for, não se brinca.
Em tempo:
- Dois times fracos podem fazer uma grande final. Partida de incrível carga emocional.
- Fez-se justiça, por linhas tortas, à campanha extraordinária de recuperação realizada pelo Grêmio no Campeonato Brasileiro. Renato Portaluppi conseguiu o que parecia impossível: tirou o time do 18º lugar e o colocou na Libertadores em pouco mais de três meses. O Tricolor entra como um dos principais favoritos. Será bom para a própria competição, que ganha mais um concorrente de peso, em vez de um figurante.
Copa Sul-Americana 2010 – Final – 2º Jogo
8/dezembro/2010
INDEPENDIENTE 3 (5) x GOIÁS 1 (3)
Local: Libertadores de América, Avellaneda (ARG)
Árbitro: Oscar Ruiz (COL)
Gols: Julián Velázquez 19, Rafael Moura 21 e Parra 26 e 34 do 1º
Decisão por pênaltis: Independiente 5 (Maxi Velázquez, Parra, Gracián, Matheu e Tuzzio) x Goiás 3 (Rafael Tolói, Everton Santos e Rafael Moura)
Cartão amarelo: Navarro, Tuzzio, Matheu, Julián Velázquez e Rafael Moura
INDEPENDIENTE: Navarro (8), Julián Velázquez (6,5), Tuzzio (7) e Matheu (6,5); Cabrera (5,5), Battión (7), Fredes (6) (Maxi Velázquez, 2 do 2º da prorrogação) e Mareque (6); Martínez (5,5) (Gomez, 20 do 2º - 4,5), Parra (7,5) e Rodríguez (7) (Gracián, 26 do 2º - 6). Técnico: Antonio Mohammed (6)
GOIÁS: Harlei (5,5), Ernando (7), Rafael Tolói (6) e Marcão (5,5); Douglas (5) (Everton Santos, 19 do 2º - 5,5), Amaral (6), Carlos Alberto (6), Marcelo Costa (5,5) e Wellington Saci (6,5); Otacílio Neto (5,5) (Felipe, 30 do 2º - 6) e Rafael Moura (8). Técnico: Arthur Neto (6,5)
Foto: AFP.

Comentários
ps: aposto em rafael moura no sao paulo, flamengo ou palmeiras ano que vem.
Nunca vi nada parecido com esse Gomez, errou todos os lances que participou
É impressionante a diferença entre a preparação física entre Brasil e Argentina.
Dito isso, muito obrigado por tudo =P
Não se pode duvidar de PORTALUPPI!
Gracias Independiente!
Chora gayás! Apodreça na 2º divisão!
Concordo com o segundo período, mas discordo do primeiro, mesmo com os quatro gols no primeiro tempo. Para uma final, que jogo (tecnicamente) horroroso! Embora tenha sido, de fato, bastante emocionante.
Eu, que não vi o primeiro jogo, fiquei perplexo ao constatar que o Goiás era realmente melhor que o Independiente. A exceção honrosa fica por conta de Rafael Moura, que vem mesmo jogando muito. Lembro quando ele surgiu em 2005 no Paysandu, como companheiro do saudoso Robgol.
Qualidade à parte, o título fará melhor ao clube de Avellaneda do que o contrário, embora um multicampeão sempre engrandeça qualquer competição incipiente. Competição, diga-se, que não se beneficiaria de ter como campeão um clube que jamais conquistou um título nacional importante.