O título do Leicester e de Claudio Ranieri é o que de mais humano o futebol já viu

Morgan comemora: gol de empate contra o United foi o do título
Há equipes que no futebol europeu um dia foram grandes, e hoje não conseguem mais beliscar nada. Não precisamos apelar para o Nottingham Forest, bicampeão continental décadas atrás, mas que há muito tempo perambula pelas divisões menores da Inglaterra. Podemos citar o Steaua Bucureste, o Estrela Vermelha, o Aston Villa. Quem sabe até mesmo o Ajax, tetracampeão europeu, mas que vem sofrendo há 20 anos com o declínio da liga holandesa. Todos eles ganharam um alento hoje: por mais improváveis que sejam suas aspirações de um dia serem protagonistas como já foram devido ao menor investimento em relação a clubes de capitais ou países maiores, o Leicester 2015/16 mostra que sim, é possível chegar lá.

Claro, tomar o exemplo do título do pequeno clube de East Midlands como padrão é um absurdo. Porque ele vai contra todos os prognósticos: nunca o poder de investimento de um clube de futebol foi tão importante em momento algum da história do esporte quanto de 20 ou 25 anos para cá. Livre do rebaixamento por milagre no ano passado, o Leicester é um dos clubes que menos recebe dinheiro da televisão na Inglaterra. Não fez contratações bombásticas, nada disso: seus protagonistas são um meia argelino de trajetória até então discreta, um atacante japonês que nem sempre é titular de sua seleção e um centroavante que até quatro anos atrás jogava a quarta divisão nacional.

E mais: os concorrentes do Leicester formam a liga mais competitiva do mundo. O calendário exaustivo dificulta a vida dos clubes ingleses em torneios continentais, mas a Premier League tem em Manchester United, Manchester City, Liverpool, Arsenal, Chelsea e Tottenham alguns dos 20 clubes que mais geram receita no mundo. Bem mais da metade dos 66 titulares destes seis times disputou a última Copa do Mundo. Há 20 anos o título nacional ficava com um deles (exceto o Tottenham, que amarga jejum de 55 anos).

O título do Leicester, por tudo isso, pode ser considerado o mais surpreendente dos tempos modernos do futebol. Ao contrário das conquistas de Copa do Brasil de clubes como Paulista e Santo André, do título europeu da Grécia ou da Libertadores pelo Once Caldas, se deu em uma competição de pontos corridos. Isso em uma época onde dinheiro e pontuação andam juntos, e em relação a um clube que jamais, nem nos tempos mais remotos, havia sido campeão nacional. É muito argumento junto, muita improbabilidade junta.

Ao visitar a mãe na Itália, Ranieri não viu jogo do título
Além de uma lição de esperança a clubes que sonham com uma improvável glória, o título do Leicester também ensina que a reabilitação é sempre possível, e que qualquer profissional pode, mais cedo ou mais tarde, atingir seus objetivos. Claudio Ranieri, depois de fracassar na tentativa de levar o Chelsea ao título inglês de 2004, teve passagens decepcionantes por Juventus, Internazionale e pela seleção grega, entre outros. Assumiu o Leicester como o Leicester o abraçou: um precisava do outro, e um acreditou no outro (ou mais ou menos, já que, na 2ª rodada, Ranieri descartou qualquer chance de chegar à Liga dos Campeões após a segunda vitória de sua equipe). O resultado foi coroado hoje, com o empate entre Chelsea e Tottenham, que confirmou o título de forma matemática - esta talvez a única injustiça, a de a torcida do Leicester não ter podido comemorar o título com um jogo de seu time. Fica para sábado, em casa, diante do Everton.

A trajetória deste time e a de seu comandante se confundem. Ranieri não ganhava nada de especial há 12 anos, e nunca tinha sido campeão nacional em lugar algum, mesmo dirigindo camisas mais pesadas. O Leicester, por sua vez, sequer sonhava que um dia poderia alcançar um título desta magnitude. Ranieri não viu o jogo do título: estava visitando sua mãe na Itália hoje à tarde, e estava voando até a Inglaterra durante a partida entre Chelsea e Tottenham. Mais um toque humano nessa história tão humana que, paradoxalmente, chega a beirar o sobrenatural.

Comentários

Não é paradoxo. Tocar o sobrenatural é o que faz humana a história!
Vicente Fonseca disse…
Excelente, Sancho!