Num Gre-Nal fraco, venceu merecidamente quem entrou com a faca nos dentes

Vitinho leva vantagem sobre Galhardo: Inter correu mais no Gre-Nal
O Gre-Nal deste domingo foi do Internacional porque ele cumpriu o que lhe cabia: mostrar muita disposição, marcar com força o Grêmio e suar sangue para sair com uma vitória que lhe manteria vivo na briga pelo G-4 e vingaria, ao menos em pequena parte, o fiasco do clássico anterior. Na verdade, a equipe de Argel Fucks não passa disso quase nunca, e não passou hoje de novo. Mas o Tricolor, por sua vez, não executou o seu papel: o de jogar no erro, com inteligência, explorando as evidentes limitações e o clima de pressão que havia sobre o rival. Não chegou a ser um time apático, mas visivelmente entrou sem a mesma disposição do adversário, provavelmente por sua situação tranquila na tabela. Foi merecidamente derrotado, pois tratou o clássico como um jogo comum. E ele nunca é.

O clássico foi feio. Especialmente no primeiro tempo. O Inter teve cinco chegadas perigosas, o Grêmio só duas, e a única chance realmente clara foi colorada (Anderson perdeu de cabeça na pequena área). De resto, muita briga, muita discussão e pouco jogo. O time de Argel não conseguia articular nada, por falta de qualidade coletiva. Abusava dos chutões e não tinha ligação. Já o de Roger foi bem marcado, e pouco fez para sair desta marcação. Douglas não se apresentou, Giuliano raramente saiu da direita, Everton foi bem dominado. Só Luan incomodava o Inter. Maicon fez falta. Faz falta quase sempre, pois é ele quem dá a saída qualificada de quase todas as jogadas de ataque. Walace não tem essa característica, e seus erros de passe muitas vezes comprometem.

Com Pedro Rocha no lugar de Everton, o Grêmio teve boa chance na largada do segundo tempo, com Marcelo Oliveira cabeceando livre por cima após falta levantada por Douglas. Mas foi um falso indício de crescimento gremista: em vez de tomar conta do jogo como poderia, o Tricolor viu o Inter crescer no jogo e aceitou a pressão. Tomou o gol merecidamente: dois minutos antes de marcar, Vitinho envolveu o displicente Galhardo com facilidade e cruzou para Ernando perder chance incrível. No lance do gol, a displicência foi de Erazo, que tentou sair jogando contra um Rodrigo Dourado furioso, dedicado, que deu a vida pela jogada. Foi premiado com a assistência para o gol que decidiu o jogo.

Depois de abrir o placar, o Inter viveu seu melhor momento no jogo. Em cinco minutos, dos 11 aos 16, criou quatro chances de ampliar - duas com Vitinho, uma com Lisandro, outra com Dourado. Foram os únicos cinco minutos de real bom futebol apresentado na partida toda. O Grêmio seguia sem dinâmica ofensiva, mas agora abria muitos espaços, os quais não eram aproveitados porque o ataque sabidamente é a deficiência maior do Colorado. Anderson conduzia os contra-ataques com muita consciência. Teve de fato muito boa atuação, só não superior à de Rodrigo Dourado - que, é verdade, deveria ter sido amarelado por Ricardo Marques Ribeiro devido a sequência de faltas em Luan.

O crescimento do Grêmio coincide com a saída de Anderson da partida. Argel pôs Bertotto cedo demais, e ainda perdeu o contra-ataque com a má mexida. O Colorado tinha o controle do jogo e marcava bem seu rival com a formação que tinha em campo, não precisava se fechar ainda mais. O time de Roger encontrou o espaço que precisava para trabalhar a bola de trás e criou chances. Mas menos do que deveria para empatar, nem o suficiente para merecer a igualdade.

Tanto quanto a vitória no Gre-Nal, a grande notícia do domingo colorado foi a goleada de 6 a 1 sofrida pelo São Paulo para o Corinthians. A distância no saldo, que era de 11 gols, caiu para apenas cinco nesta rodada. Ainda é complicado: os rivais dos gaúchos são mais difíceis que os dos paulistas. Porém, o Colorado chega inegavelmente em melhor ânimo para as duas rodadas finais - tomar goleada deste tamanho em um clássico não é nada fácil, e o próprio Inter sabe bem disso. Além do mais, a comemoração diz muito sobre o clima de alívio no Beira-Rio: para quem temia uma nova derrota, o Inter ganhou do maior rival cheio de problemas, com muitos desfalques, na base da superação. Tudo isso dá ânimo. O problema é que o time de Argel tem se resumido a isso. Aliás, não passou disso hoje, mais uma vez. E por isso ainda acho que fica fora da Libertadores.

Quanto ao Grêmio, pareceu claro que alguns jogadores não entraram com a devida concentração no Gre-Nal. O que explica a irritação de Marcelo Oliveira, um dos mais dedicados durante toda a partida, e irritadíssimo na saída de campo, porque entende o peso do clássico. E ele tem razão: o Tricolor, em condições normais, poderia vencer seu rival. Mas Gre-Nal não perdoa quem o encara como um jogo normal - e a derrota, seja com vaga garantida ou não, seja de 1 ou de 5 a 0, sempre incomoda.

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Ficha técnica
Campeonato Brasileiro 2015 - 36ª rodada
22/novembro/2015
INTERNACIONAL 1 x GRÊMIO 0
Local: Beira-Rio, Porto Alegre (RS)
Árbitro: Ricardo Marques Ribeiro (MG)
Público: 34.109
Renda: R$ 1.081.230,00
Gol: Vitinho 7 do 2º
Cartão amarelo: Vitinho, William, Alisson, Silva, Galhardo e Luan
INTERNACIONAL: Alisson (6), William (5), Paulão (6,5), Ernando (6) e Artur (6); Rodrigo Dourado (7), Nico Freitas (6) (Silva, 38 do 2º - sem nota), Anderson (6,5) (Bertotto, 24 do 2º - 5) e D'Alessandro (5,5); Vitinho (6,5) (Alisson Farias, 33 do 2º - 5,5) e Lisandro López (5). Técnico: Argel Fucks
GRÊMIO: Marcelo Grohe (6), Galhardo (5), Geromel (6,5), Erazo (4) e Marcelo Oliveira (5,5); Walace (5), Ramiro (5,5) (Maxi Rodríguez, 33 do 2º - 5), Giuliano (5,5) e Douglas (5) (Bobô, 22 do 2º - 5,5); Luan (6) e Everton (5) (Pedro Rocha, intervalo - 5,5). Técnico: Roger Machado

Foto: Ricardo Duarte/Internacional.

Comentários

Tiago disse…
Time que leva pelo menos uma hora para começar a jogar não tem como ganhar grenal. E o pior é que nem precisava de tanto pra empatar.

E não só pelo jogo de hoje, mas eu não faria tanta força pra que o Erazo e o Galhardo ficassem. Não têm nada de excepcional que o time não possa encontrar opções no mercado. O Maicon sim, mas pena que o São Paulo pôs condições absurdas pra renovar. E terminada a rodada, com o Grêmio virtualmente na fase de grupos, é hora de começar a pensar nessas questões.
Rodrigo disse…
Pois é, em momento algum o Grêmio deu pinta de que poderia empatar, mesmo quando ensaiou uma pressão.

Acho que o Grêmio sente muito a falta de bons finalizadores, e não é de hoje. Os erros de passe também me pareceram bem acima do habitual, ocasionados provavelmente pela displicência - mas é somente a minha impressão, não cheguei a conferir as estatísticas.

Espero que a diretoria esteja consciente de todas as limitações do grupo atual e busque soluções adequadas o mais rápido possível. Apesar da ótima campanha, é preciso evoluir muito se quiser ter alguma chance na Libertadores.
Vicente Fonseca disse…
Tiago, concordo contigo. Também não vejo nada de mais em Erazo e Galhardo. A questão, em relação ao Galhardo, é que não vejo nada de mais em quase nenhum lateral direito brasileiro - o Marcos Rocha, do Atlético-MG, é uma honrosa exceção. O Galhardo, mesmo com todas as limitações (especialmente no cruzamento), foi um dos melhores da posição no campeonato. Mas se tiver que pagar ou dar algum jogador útil por ele pra ficar em 2016, aí já não acho que valha a pena. O Maicon, sim, é outro caso.

E também concordo contigo, Rodrigo. Acho que falta um grande finalizador neste grupo, mas, mais do que propriamente isso, falta mais objetividade para definir as jogadas. O Grêmio do returno (que não tem a campanha ruim que dizem, é de 51% de aproveitamento) é um time que passa, passa, passa e não chuta. Sempre tem pouquíssimas finalizações, que não condizem com o volume de jogo do time. Acho importante valorizar a posse de bola, mas às vezes vejo o time ser um tanto preciosista em esperar uma oportunidade perfeita de arrematar, o que nem sempre é possível num jogo como o de ontem.

Quanto aos reforços, sim, é evidente que são necessários. O que não dá é a terra-arrasada que os mais exaltados fizeram ontem, mas acho esse alarde todo até positivo para que a diretoria não se acomode. O grupo é só médio, o grande trabalho do Roger é que torna a equipe boa. Só precisamos tomar cuidado com o "Projeto Libertadores". Não gosto muito de pensar o ano seguinte só pensando na Copa, e sim na temporada inteira.

Abraços aos amigos.