A vitória que precisava chegar



Hoje vai ser fácil falar de intensidade. Roger Machado repetiu essa palavra diversas vezes em sua primeira semana como técnico do Grêmio, e a atuação em Goiânia agradou justamente por conta disso. Nesta quarta, diante do Corinthians, com dois gols em quatro minutos, é quase um clichê dizer que o Grêmio foi intenso. Mas ele foi, mesmo, e não ficou só nisso: foi agressivo, insinuante, paciente e consciente com a bola nos pés. Compensou suas deficiências com grande solidariedade coletiva. Mereceu a grande vitória que construiu, e o Timão, embora repleto de problemas momentâneos, ainda é um time cheio de recursos, como ter a possibilidade de tirar do banco nomes como Vágner Love, Danilo ou Petros. Não foi um rival simples.

O começo fulminante, claro, refletiu todo o restante do jogo. Ele se deveu mais, talvez, à crise corintiana que a um suposto momento novo gremista. Mas isso não é demérito: sabendo que o Corinthians vem em péssima fase, inseguro, abalado, pressionado, o Grêmio partiu para cima com tudo. O Timão quase não tinha trocado passes e o placar já apontava 2 a 0. No primeiro gol, uma ótima participação de Walace terminada com um ingresso típico de Giuliano. No segundo, início e fim brilhantes de Marcelo Oliveira.

O Corinthians não estava entendendo nada. E nem o Grêmio, talvez ele próprio incrédulo com um começo tão positivo. A equipe de Roger diminuiu o ritmo e deixou o Corinthians se assentar no jogo. Aí, cometeu seu único pecado: recuou excessivamente e deu chances ao adversário de crescer na partida. Não pareceu orientação do novo técnico, que pedia a todo instante para a equipe sair do enchiqueiramento a que se submetia. É um vício de jogador brasileiro.

O Corinthians descobriu na dobradinha Fagner-Romero em cima de Marcelo Oliveira o caminho para ameaçar o Grêmio. Na terceira jogada por ali em cinco minutos, Mendoza descontou. E aí o Tricolor ganhou o jogo, na postura após tomar o gol. Em vez de se apavorar, de pensar no filme da Ponte Preta, o Grêmio voltou a se impor, a valorizar a posse ofensiva, a empurrar o Timão para trás com atitude e bom toque de bola. Quando Luan fez o 3 a 1, a equipe gaúcha já merecia aumentar a vantagem. Ainda quase sofreu o segundo, em nova jogada de Fagner para Mendoza, mas desta vez o colombiano errou.

Roger corrigiu o problema de marcação no intervalo, e Tite mexeu não mexendo: posicionou Renato Augusto do meio para a esquerda, botou Mendoza ao lado de Romero e passou a causar problemas pelo lado direito defensivo, em cima de Galhardo. Mas foram só cinco minutos de perigo: logo, Walace tomou conta do setor. Pouco inspirado, o Corinthians viu suas alternativas se restringirem. Vágner Love não deu mais qualidade que Romero vinha dando. A bola aérea era uma das últimas, mas Geromel e Rhodolfo foram soberanos. Quando Fellipe Bastos entrou no meio, dando o fôlego que já faltava a Maicon, o Grêmio passou a controlar o jogo com facilidade. Nos últimos 20 minutos, teve mais chances de golear num contra-ataque que de ver sua vantagem ameaçada.

O Grêmio precisava de uma vitória como essa: diante de um grande adversário (o Corinthians não será esse horror o campeonato todo, não se enganem, tem estofo para sair dessa), em casa, com uma atuação convincente. O resultado ajuda a afirmar Roger e, principalmente, os jogadores, que andavam tão pouco confiantes. O dedo do novo técnico, embora seja cedo, já se nota pela maior força de marcação e, algo que se viu também no Serra Dourada, trocas de passe conscientes no campo ofensivo. O Grêmio errou muito menos passes que o Corinthians (24 a 45), mas desarmou o dobro (24 a 13) e fez bem mais faltas (22 a 10). Os números não mentem.

Em tempo:
- Geromel, Walace, Luan, Giuliano, quem foi o melhor? Fico com o camisa 3, que tirou 11 de cada 10 bolas que eram alçadas à área. Zagueiraço.

- Em 2014, o Grêmio também fez um começo fulminante diante do Corinthians, mas no segundo tempo. Em três minutos, Barcos abriu 2 a 0 e o time segurou um 2 a 1 apertado até o final.

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Ficha técnica
Campeonato Brasileiro 2015 - 5ª rodada
3/junho/2015
GRÊMIO 3 x CORINTHIANS 1
Local: Arena do Grêmio, Porto Alegre (RS)
Árbitro: Wilton Pereira Sampaio (GO)
Público: 20.231
Renda: R$ 549.810,00
Gols: Giuliano 2, Marcelo Oliveira 4, Mendoza 22 e Luan 38 do 1º
Cartão amarelo: Yuri Mamute, Walace, Bruno Henrique, Gil e Vágner Love
GRÊMIO: Tiago (7), Galhardo (6), Geromel (8), Rhodolfo (7) e Marcelo Oliveira (8); Walace (8), Maicon (7) (Fellipe Bastos, 22 do 2º - 6), Giuliano (8) e Luan (8); Pedro Rocha (7) (Vitinho, 18 do 2º - 5) e Yuri Mamute (6) (Lincoln, 31 do 2º - 6). Técnico: Roger Machado
CORINTHIANS: Cássio (5), Fagner (7), Edu Dracena (5), Gil (4) e Fábio Santos (5); Cristian (4), Bruno Henrique (5) (Petros, 29 do 2º - 6), Jadson (6), Renato Augusto (5) (Danilo, 29 do 2º - sem nota) e Mendoza (6); Romero (5) (Vágner Love, 15 do 2º - 4). Técnico: Tite

Comentários

Tiago disse…
O estádio ainda é novo e a minha memória não tão boa, mas o gol do Marcelo Oliveira foi dos mais bonitos da história da arena. Não só pela conclusão, mas pela jogada como um todo, que ele começou com uma meia-lua do meio de campo até lançar pro Giuliano e receber dando aquele chute.

Não sei muito de tática, mas por esse jogo estaria o time deixando o 4-2-3-1 do gauchão? Foi um esquema que até funcionou com o Felipão, mas realmente parece haver uma outra orientação com o Roger.
Vicente Fonseca disse…
Acho que ainda é cedo pra dizer que o 4-2-3-1 será deixado de lado. O próprio Roger já disse que o Douglas é uma peça importante, e mesmo nesta formação de ontem existe uma variação do 4-2-2-2 pro 4-2-3-1. No segundo tempo, o Mamute jogou mais adiantado e centralizado, e o Pedro Rocha voltou para compor a linha de meias pelo lado esquerdo.

Mas, como o Roger disse, o Grêmio precisava explorar mais os lados. Eu mesmo, no Gauchão, já disse algumas vezes no Carta na Mesa que esse time do Grêmio afunilava demais as jogadas. E, pra explorar os lados, nada melhor que jogar com gente mais aberta. Esse 4-2-2-2 permite triangulações pelas alas (Galhardo-Giuliano-Mamute na direita, Marcelo Oliveira-Luan-Pedro Rocha na esquerda). É uma formação interessante.

Quanto ao gol, sim, me parece um dos mais bonitos da história da Arena. Aquele do Elano contra a LDU ainda é o mais bonito na minha opinião, mas tem um do Maxi Rodríguez contra o Flamengo e o quarto do Alán Ruiz no Gre-Nal, que também foram lindos. De adversários, aquele do Seedorf, em Grêmio x Botafogo, é imbatível.
Chico disse…
Novo nome da arena: Cemitério cúrintiano