Autocampeonato
A espetacular e categórica goleada imposta sobre o vice-líder Botafogo no Mineirão deixou claro: não há nenhum time neste Campeonato Brasileiro que por suas próprias forças seja capaz de ultrapassar o Cruzeiro na caminhada rumo ao título. A superioridade é incontestável: são oito vitórias seguidas, aproveitamento de quase 75%, 15 vitórias em 22 jogos. Neste returno, só jogos difíceis (Goiás, Atlético-PR e Botafogo), e o aproveitamento é de 100%. A vantagem só aumenta, o time joga o fino da bola, não dá a entender que vai baixar o ritmo. A torcida já grita que o time é campeão. Todos sabem que o campeão será o Cruzeiro.
E é exatamente aí que mora o perigo. Porque faltam 16 rodadas, mais de 40% do campeonato, tempo suficiente para a própria Raposa perder o título para ela mesma. Ganhar do Cruzeiro, cada vez mais, será como a recompensa dada a quem busca o bandido mais procurado do vilarejo em filmes de faroeste. Ninguém mais admite abertamente brigar pelo título, uma estratégia para se eximir da responsabilidade, mas o time de Marcelo Oliveira enfrentará 16 finais. O Cruzeiro só perderá o campeonato para ele mesmo, para seus próprios medos, sua própria ansiedade, aqueles problemas típicos que acometem grandes clubes que há muito tempo estão na fila por um título grande. Tudo isso é improvável, pela forma como o time tem jogado, mas pode acontecer.
O resultado de ontem foi justo, embora um pouco exagerado. O Cruzeiro foi melhor que o Botafogo, especialmente no primeiro tempo, mas não a ponto de golear, e os gols mais para o final do jogo nos forçam lembrar que houve vantagem mínima por um longo período de tempo, inclusive com um pênalti para o time carioca no começo da etapa final, e a vitória só se consumou após um pênalti bem discutível, já aos 36 do segundo tempo. Mas se a goleada se construiu nos dez minutos finais, ela só se justificou pelos 45 iniciais, nos quais a Raposa, aí sim, foi amplamente superior.
A saída errada de André Bahia logo aos três minutos, dando nos pés de Borges, já sinalizava que o Fogão começava o jogo acuado. Jefferson salvou a equipe com milagres no primeiro tempo, Bolívar em outras duas, mas várias bolas cruzaram a área alvinegra com imenso perigo, e sempre do mesmo jeito: algum lateral subia com perigo e cruzava rasteiro, e os meias e atacantes cruzeirenses, sempre muito numerosos, passavam por ela por questão de centímetros, se esticando, mas não conseguindo alcançar. É uma jogada mais simbólica do que parece: mostra que o Cruzeiro é um time organizado, onde os alas sobem de forma efetiva, e há sempre bastante gente para concluir dentro da área, o que demonstra a compactação de uma equipe que ataca com muita gente e defende com mais homens ainda.
Mas não se pense que foi exatamente um massacre. O Botafogo, aos poucos, passou daquele susto inicial e passou a acossar o time mineiro também. Na melhor jogada do primeiro tempo, Seedorf e Lodeiro combinaram bem e deixaram Elias na cara do gol, mas Fábio fez uma grande defesa e impediu o gol. O holandês e o uruguaio foram os grandes destaques cariocas dos 45 inicias, organizando jogadas de perigo quando possível. Mas o golaço de Nílton, praticamente igual ao da vitória sobre o Atlético-PR (porém com finalização mais plástica), era não apenas merecido pelo que produziram os times na etapa inicial, mas veio num momento fundamental, no último lance antes do intervalo, incendiando o vestiário cruzeirense e esfriando o botafoguense.
Comandado por Seedorf, o Botafogo não voltou para o segundo tempo com jeito de quem havia sentido o gol. Pressionou o Cruzeiro em boa parte do tempo, sempre compactado, com Elias e Rafael Marques buscando muito o jogo. Em um passe genial do holandês para o centroavante, pênalti indiscutível de Bruno Rodrigo. Mas quando as coisas dão certo, não tem jeito: Seedorf bateu provavelmente a pior cobrança de sua carreira, de tornozelo, errando no momento decisivo. Experiente, seguiu buscando o jogo e comandando seus companheiros, mas com bem mais erros do que de costume, e a grande partida de Dedé na zaga, e dos volantes Nílton e Lucas Silva à frente dela, impedia que a equipe carioca criasse oportunidades. Por outro lado, Ricardo Goulart era sempre um perigo no contragolpe, embora mostrasse deficiência nas finalizações.
O pênalti de Bolívar em Everton Ribeiro, bem cobrado por Júlio Baptista, definiu a parada aos 36 minutos. Abatido, o time carioca ainda permitiu o terceiro, novamente de Júlio, aos 42, incendiando o Mineirão de vez com uma festa impressionante dos 46 mil torcedores presentes. É incrível como o ex-meia da seleção entrou bem na equipe de Marcelo Oliveira. Uma equipe tão encaixada que só poderá perder o título para si mesma - e olhem, é difícil, pois precisaria desencaixar algo que parece ter sido colado com Super Bonder.
Em tempo:
- Em 2003, a "final antecipada", entre Cruzeiro e Santos, foi disputada no Mineirão a 15 rodadas do fim, quase como o jogo de ontem. E a Raposa ganhou por 3 a 0, com a mesma autoridade que se impôs ao Botafogo. Outra curiosidade, esta apontada pelo grande Lourenço Fonseca, é que o último título nacional da Raposa veio tendo como centro técnico da equipe um meia com passagem pelo Coritiba. Sem comparar Alex e Everton Ribeiro, claro.
Campeonato Brasileiro 2013 - 22ª rodada
18/setembro/2013
CRUZEIRO 3 x BOTAFOGO 0
Local: Mineirão, Belo Horizonte (MG)
Árbitro: Luiz Flávio de Oliveira (SP)
Público: 46.167
Renda: R$ 2.337.530,00
Gols: Nílton 45 do 1º; Júlio Baptista (pênalti) 36 e 42 do 2º
Cartão amarelo: Júlio Baptista e Elias
CRUZEIRO: Fábio (7), Ceará (7), Dedé (7), Bruno Rodrigo (5) e Egídio (6,5); Nílton (7,5) (Henrique, 16 do 2º - 5,5), Lucas Silva (6,5), Ricardo Goulart (6) (Dagoberto, 29 do 2º - 6), Everton Ribeiro (6) e Willian (6,5); Borges (5,5) (Júlio Baptista, 17 do 2º - 8). Técnico: Marcelo Oliveira (8,5)
BOTAFOGO: Jefferson (7), Edílson (5,5), Bolívar (6), André Bahia (4,5) e Júlio César (5,5); Marcelo Mattos (5,5), Renato (5,5) (Hyuri, 21 do 2º - 5,5), Seedorf (5) e Lodeiro (6); Elias (5) (Alex, 31 do 2º - sem nota) e Rafael Marques (5,5) (Henrique, 40 do 2º - sem nota). Técnico: Oswaldo de Oliveira (5,5)
Comentários
no mais, uma pena o penal perdido pelo Seedorf. E essa velocidade louca do Cruzeiro tem me lembrado do NOB.
Eu dei só 6 porque não achei que o Everton Ribeiro fez a diferença como em outros jogos. Acho que não foi ele quem conduziu o Cruzeiro à frente, esteve meio sumido em alguns momentos, embora tenha tido sua colaboração. Já o Dagoberto, embora tenha jogado pouco tempo, acho que entrou bem. A nota (totalmente subjetiva, claro) tem a mais ver com o desempenho do que a taxa de participação em si. E gosto de dá-las porque quando vocês discordam ensejam discussões boas, como esta.
Lourenço, concordo parcialmente. A briga pelo título parece estar mesmo esfriando, mas fora isso (e ela é a principal, claro) o campeonato é uma loucura de tão parelho. Acho que os pontos corridos entram mais em xeque pelo calendário apertado do que pelo interesse que o campeonato em si desperta.