O elixir dos polenteiros

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FREDERICK MARTINS
No dia seguinte à conquista da Recopa pelo Inter, peguei o ônibus para rumar ao serviço, como faço todas as manhãs, aguardando dentro do mesmo uma enxurrada de indivíduos trajados com o manto menstruado. Ao adentrar no coletivo, minha surpresa: só dois gatos pingados demonstrando seu amor pelo colorado. Mas pouco me importei com ambos. Havia um desconhecido muito mais honrado, sentado no banco que fica logo atrás do motorista (SO VOSE MEEMS MORTTOISTA) que vestia um abrigo serrano. Um abrigo de clube que contava com um zagueiro, anos mais tarde, campeão de uma Copa do Mundo. Um abrigo vinotinto. Um abrigo do Caxias.
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Estranho? Nem um pouco. Apesar de ter perdido um turno do Gauchão, sabemos da força que os grenás possuem por estes pagos. Força esta que vem sendo demonstrada na Série C do Campeonato Brasileiro, quando a equipe iniciou capenga, instável, e agora vem recuperando pontos e subindo posições, estando próximo não só da classificação, como também da liderança de seu grupo.
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Mas antes de continuarmos, vamos falar um pouco da Série C. Este ano, sobrou para xavantes e grenás representarem a Província de São Pedro no campeonato e tentarem apagar os vestígios da horrorosa campanha gaudéria de 2010. Os nossos irmãos do norte, viventes que gostariam de ser felizes morando neste lado do Mampituba, são representados por Joinville e Chapecoense. O primeiro teve o mérito de subir de divisão, enquanto o segundo jogara contra os gaúchos no torneio do ano passado, quando chegou a dar esperanças pro Juventude não cair ao perder o jogo entre as duas equipes no Alfredo Jaconi.
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Essas quatro representações, junto com o Santo André - o intruso pomposo do ABC Paulista, vencedor de uma Copa do Brasil - compõem o Grupo D da Terceira Divisão Brasileira.
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E foi nesse grupo que o Caxias fez seu primeiro turno sem ganhar uma única partida. Empatou seus jogos contra os catarinenses (2x2 contra o Joinville e a Chapecoense, no Centenário), mas perdeu fora de casa para o Ramalhão (1x0) e para o Xavante. Com apenas dois pontos em cinco rodadas, encontrava-se na última colocação, prestes a cair pra Série D onde, talvez, não encontrasse seu rival alviverde, uma vez que este vem fazendo campanha para voltar pra Terceirona. Seria uma inversão de papéis depois de anos vendo o inimigo divisões acima? Era a tendência.
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Mas aí veio o returno, e os ventos sopraram a favor da nau grená. E logo no clássico gaúcho contra o Brasil de Pelotas. Relatos apontam que o primeiro tempo foi bastante disputado, havendo inclusive confusão no intervalo. No segundo tempo, brilhou a estrela do atacante Pantico, que assinalou dois tentos na caderneta do árbitro e garantiu a primeira vitória polentera na competição por 2x1. O resultado fez com que a equipe saísse da última posição, esta agora ocupada pelo Santo André.
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Mas a partida que melhor marque, talvez, essa reação dos serranos, foi a deste final de semana, onde os jogadores embarcaram em uma unidade do Expresso Caxiense e rumaram para Joinville a fim de enfrentar o time local pela segunda rodada do returno. Histórico negativo? Sim: nunca na história deste país os grenás venceram uma equipe barriga verde jogando no estrangeiro. Mas a vitória, se viesse, recolocaria o time na briga por uma vaga pra próxima fase. E, se a vitória do Xavante contra a Chapecoense, no Bento Freitas, viesse também, a chance dos dois gaúchos passarem juntos seria muito grande.
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E logo cedo, aos 19 minutos do primeiro tempo, os torcedores do Joinville sentiram aquele frio na espinha que os gremistas tiveram naquele 09 de março no Olímpico: falta na entrada da área, bomba de Itaqui, e gol. Aberto o placar, o Joinville buscou o empate dez minutos depois. Mas Têti, aos 35, e Edson Gaúcho, aos 43, colocaram o Caxias na dianteira mais uma vez. No segundo tempo, o Joinville esboçou uma reação e fez seu segundo gol. Pra pior, Pantico, o herói do clássico gaúcho foi expulso. E, quando tudo parecia que acabaria 3x2 pros visitantes, que se defendiam, Têti, mais uma vez, balançou as redes e pôs números finais ao jogo. Um 4x2 histórico para os grenás, considerando que foi a primeira vitória como visitante no campeonato, e a primeira vez também que os serranos amarraram seus cavalos no obelisco de Nossa Senhora do Desterro.
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Com essa vitória, a equipe do centenário fica em terceiro lugar com oito pontos, a apenas dois pontos da líder Chapecoense. Na próxima rodada, a disputa é contra o lanterna Santo André. Se vencer e, dependendo de como for o clássico catarinense, o Caxias pode jogar por um empate, fora de casa, contra a Chapecoense em seu último jogo na fase de grupos.
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Como vocês podem ver, as chances de classificação são muito boas, bem como a volta dos vinotintos gaudérios para a Segundona Brasileira, lugar onde estiveram até 2005. Se isso acontecer, quem sabe não veremos mais homens honrados em Porto Alegre trajando a camisa oriunda dos lados do Centenário...
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Um peteleco, um terremoto
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Pode-se dizer que há uma gangorra no grupo dos gaúchos: se, no primeiro turno, o Caxias penava com a ameaça de rebaixamento, e os pelotenses chegaram a liderar a chave, agora, com a recuperação dos serranos, são os xavantes que estão ameaçados de caírem. Isso porque, desde 2008, os rubro-negros do sul do Estado sofrem com a instabilidade que uma simples mudança pode causar na estrutura do clube.
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Senão, vejamos: em 2008, no octogonal final da Terceirona, depois de uma bela campanha nas fases anteriores, trocou-se o técnico para a disputa dos jogos finais. A equipe não mais se encontrou, perdeu todas as partidas fora de casa e o sonho de subir para a segunda divisão foi enterrado com uma vexatória derrota de 4x1 pro Rio Branco-AC (abra$$o, Zeh). Em 2009, todos sabem: o acidente que vitimou Claudio Millar e mais dois companheiros, fazendo o xavante cair pra Segundona Gaúcha. Não recordo de mudanças em 2010, sendo este ano, creio, a exceção.
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Mas 2011 retoma essa história: com uma campanha inicial muito boa (vitória contra Caxias e Santo André, e empate contra o Joinville), o Brasil liderava a chave, e tudo indicava que a classificação viria com folga. Mas então veio um convite para Beto Almeida treinar uma equipe paraguaia (para o que?) e também a saída de um atacante, e a vaca foi pro brejo junto com as terneiras. Se, nas três primeiras partidas, o aproveitamento chegou a estrondosos 77,78% (7 pontos de 9 disputados), nas três últimas caiu pra 0%: derrotas de 3x0 para a Chapecoense (em Chapecó), 2x1 pro Caxias (no Centenário) e 1x0 novamente pra Chapecoense (no Bento Freitas, dessa vez). Esta última, certamente, a mais sentida: os catarinenses dominaram o jogo e poderiam ter feito mais, e os xavantes saíram de campo, no final do jogo, vaiados.
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As chances de classificação dependem muito desta próxima rodada, onde a equipe de Pelotas folgará. O clube terá que analisar os resultados que acontecerem e, então, colocarem os números na calculadora. Mas tudo indica que, se não houver duas vitórias nos dois jogos vindouros, a classificação não virá. E, mais uma vez, o Xavante terá que esperar pelo seu sonho de subir de divisão.
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Papada está voltando
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Um pouco mais abaixo, na série D, das três equipes locais que lutam pelo acesso à Terceirona para fazerem companhia a grenás e xavantes, só uma tem chances, ainda, de subir. E se trata de um velho conhecido nosso, especialmente dos colorados. Trata-se, obviamente, do Juventude.
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Tentando recuperar os áureos tempos dos anos 90, a Papada tem uma campanha invejável de 4 vitórias em 6 jogos, 13 pontos em 18 disputados e 72,2% de aproveitamento, o que lhe dá a vice- liderança do grupo 8, empatado em pontos com o Cianorte-PR, porém perdendo nos critérios e com um jogo a mais. Nas duas últimas partidas (ambas contra o Metropolitano de Blumenau), gratas surpresas: os alviverdes perdiam de 2x0 no Alfredo Jaconi, quando uma reação no segundo tempo se iniciou, o que fez a equipe virar o cotejo para 4x2. O gol da virada aconteceu aos 41 minutos do segundo tempo, para festa dos torcedores que tanto sofreram nesses últimos anos vendo descensos se acumularem. No jogo seguinte, em Blumenau, nova vitória de 4x2. Os resultados, ao menos, indicam um Juventude forte para ascender, tal qual seus irmãos grenás. Torçamos por isso.
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Os outros clubes gaúchos que compõem a Série D já não possuem mais chances de classificação. O Cerâmica, de Gravataí, bem que tentou honrar os pratos da casa (trocadilho horrível, mas não resisti) porém deu uma de grego e os quebro todos. O início foi trepidante, com um empate e uma derrota para dois times paranaenses. O momento parecia melhorar depois da goleada imposta sobre o CENE-MS (3x0) e um empate sem gols contra o Mirassol, em pleno território paulista. Mas aí vieram mais duas derrotas e não houve mais jeito: os times dispararam e o Cerâmica ficou pra trás. Fica, talvez, pra próxima.
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O mesmo se pode falar do Cruzeirinho de Porto Alegre, que está no mesmo grupo do Juventude: está em último, com apenas um ponto, arrancado justamente contra os alviverdes no Alfredo Jaconi: 1x1. Os dois jogos seguintes apenas servirão para cumprimento de tabela.
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Pós-Ciclone Extratropical
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Depois de uma fase envolvendo monografia, formatura e viagem para o estrangeiro (leia-se Pauliceia Desvairada), estamos retornando com a coluna. Esperemos que fiquem conosco neste retorno a galope de cavalo crioulo.
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Comentários

Sancho disse…
O Juventude tem que classificar e passar por duas finais para subir. Ainda é muito cedo.

O Brasil luta para permanecer na Série C, o que já era esperado. Os resultados bons no início fizeram com que alguns achassem que era possível vôos mais altos. Ainda não dá.

O Caxias recebe o Santo André e decide em Chapecó. O melhor que pode acontecer é o Joinville tropeçar nos próximos dois jogos (Chapecoense, f; Brasil, c) e já chegar eliminado na última rodada.

Podemos ter uma última rodada (BRP x SAD; CPC x CAX) com a seguinte classificação:

Chapecoense, 14
Caxias, 11
Joinville, 10
Brasil, 8
Santo André, 5

Só uma hecatombe rebaixaria o Brasil, e o Caxias estaria classificado.