A volta da vitória e um começo de time
O Grêmio precisava demais da vitória hoje. Não apenas por sua complicada situação na tabela, pelo jejum de cinco rodadas sem ganhar, mas também para obter o alívio e uma forma de afirmar-se. Derrotar o Coritiba, que ainda não pontuou fora de casa, mas é uma boa equipe, era o começo de uma nova fase no Campeonato Brasileiro, sob o comando de Julinho Camargo.
Foi uma vitória do novo Grêmio, não só de Julinho, mas de um meio-campo que começa com o pentacampeão Gilberto Silva, que deu uma aula na contenção aos adversários e ainda fez o importantíssimo gol que abriu o placar, numa cabeçada inapelável. Foi o Grêmio de um Mário Fernandes que é zagueiro - aviso de Julinho na coletiva - e foi bem como zagueiro, não demonstrando as fragilidades físicas de outros tempos (ainda que peque um tanto no jogo aéreo). E um Grêmio que, finalmente, volta a ter um centroavante. André Lima está longe do ideal fisicamente, pena com a falta de ritmo, mas já deixou sua marca com uma conclusão perfeita no 2 a 0.
O começo foi bastante confuso. O primeiro tempo foi de um equilíbrio rigoroso entre um Grêmio afoito e um Coxa bem postado, mas que perdeu as chances que teve. Marcos Aurélio, após pisada na bola de Neuton, teve a bola do jogo nos seus pés. Muito mais méritos de Marcelo Grohe, que praticou defesa dificílima, em chute forte e rasteiro. Léo Gago ainda obrigou o goleiro gremista a outra defesaça no ângulo, de mão trocada. O tricolor, por sua vez, teve duas chances: uma com Escudero, bela defesa de Edson Bastos, e outra com Leandro, que entrou pela direita e chutou torto.
Julinho corrigiu no intervalo um erro seu de escalação: retirou Neuton, que jamais poderia entrar em campo, pois estava 99% negociado com a Udinese, para a entrada de Bruno Collaço. O time perdeu um jogador que estava visivelmente nervoso e errou simplesmente tudo o que tentou por um lateral de ofício, bom apoiador, cheio de apetite. Deve ter ganhado a posição de titular hoje. Mas não foi só isso. Douglas entrou no jogo, aproximou-se de Leandro, que também cresceu. André Lima passou a participar mais. Escudero seguiu com boa atuação, e com a companhia de Collaço compôs um lado canhoto liso e envolvente. O Grêmio dominava a partida, o gol de Gilberto Silva foi só consequência.
Com o 1 a 0 veio uma maior tranquilidade. O Coritiba ainda quase empatou antes do segundo gol, mas seria errado enxergar outro segundo tempo que não fosse o de um Grêmio superior, dominador, como nos velhos tempos de Olímpico. A entrada de Miralles foi apenas para agradar parte da torcida, que pedia o argentino. Não havia razões para retirar quem quer que fosse do ataque. Talvez Julinho esteja começando a achar um time. Repetindo a escalação do segundo tempo, organizando-a, pode dar certo. O elenco é longe de ser ruim ou qualquer coisa que passe perto da zona de rebaixamento.
O Coritiba, frise-se, veio desfalcado de alguns titulares. Mesmo assim, fez um enfrentamento complicado com o Grêmio. O centroavante Leonardo, embora tenha jogado pouco dentro da área, é extremamente perigoso com a bola nos pés. Falta, ainda, melhorar a campanha longe do Couto Pereira. Mas é equipe para pegar, no mínimo, uma vaga com tranquilidade na Sul-Americana.
Comentários
1) Escudero, hoje, fez sua melhor partida com a camisa do Grêmio. Movediço, interessado e atrevido mesmo no péssimo primeiro tempo gremista. Vai virando titular - e se conseguir manter o nível de hoje, merecerá muito.
2) Neuton, por sua vez, fez possivelmente a pior atuação da sua carreira. Errou quase tudo. De fato, cabe questionar a validade de escalá-lo quando a única preocupação em sua mente deve ser a arrumação das malas para a Itália.
3) No segundo tempo, vi o Grêmio em 4-2-3-1, com Leandro e Escudero abrindo bem pelos flancos, quase como pontas. Talvez seja esse o esquema ideal, levando em conta as peças disponíveis - o mesmo que se pensava adequado no começo do ano, aliás.