Roteiro reescrito
ARGENTINA 3 x 0 COSTA RICA
Existe um conceito muito caro ao modelo norte-americano de produção cinematográfica: o turning point, ou ponto de virada, como é chamado nos cursos de cinema e televisão Brasil afora. Trata-se, basicamente, do evento que acontece em determinado ponto da história para, basicamente, mudar completamente a direção dos acontecimentos, seja de forma positiva ou negativa. Para quem ainda não entendeu bem o conceito, posso dar um exemplo bastante tangível: o primeiro gol de Agüero, aos 45mins do primeiro tempo, que abriu a porteira e permitiu a vitória da Argentina contra a Costa Rica e a classificação dos donos da casa para as quartas de final da Copa América. Eis um turning point digno de manual de cinema, um evento que mudou completamente os rumos do jogo - e que olha, sendo bem sincero, pode ter sido o ponto de virada de toda a Copa América.
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Até aquele momento, o confronto dava toda a pinta de um dramalhão latino, com potencial para virar um tremendo filme de terror. A Argentina, sejamos sinceros, jogava bem - buscava o jogo, dominava as ações, deixava claro a cada lance seu interesse pelo gol e pela vitória. Criava chances, inclusive - apenas para serem desperdiçados por Higuaín e Agüero, os dois atacantes mais agudos do time argentino, que devem ter desperdiçado algumas dezenas de lances decisivos cada um. Com aplicadíssimas duas linhas de quatro, a Costa Rica sustentava o empate com surpreendente controle dos próprios nervos e apresentando até mesmo boas atuações individuais, como Mora, impecável. Os minutos passavam, a bola não entrava e o Estadio Mario Alberto Kempes, ainda que sempre favorável, começa a murmurar os primeiros acordes de uma vaia que, se viesse, rugiria com a fúria de um Puyehue-Cordón em plena erupção. Mas então veio o bate-rebate na área e o gol oportunista de Agüero - e o clima ruim foi desfeito, instantes antes de um intervalo que seria uma panela de pressão a cozinhar em fogo alto a desgraça albiceleste.
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A partir do ponto de virada tão aguardado, foi de fato uma outra partida. E um novo personagem principal surgiu, com o destaque de um verdadeiro protagonista: Messi. La Pulga já vinha bem no primeiro tempo, mas na segunda etapa a coisa beirou a palhaçada. Impetuoso, combativo e distribuindo o jogo com qualidade impressionante, Messi não apenas mostrou o futebol que faz dele o melhor do mundo, mas deixou bem claro para todos os envolvidos que sim, quer a Copa e vai lutar por ela o quanto puder. Forçados a abrir um pouco o jogo, os bravos costariquenhos viraram presa fácil. Levaram mais dois, a cargo de Agüero e Di Maria; poderiam ter sido quatro ou cinco, sem que a verossimilhança sofresse maiores abalos.
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Nos quarenta e cinco minutos finais do jogo de hoje, a Argentina foi a equipe que se esperava desde o início. Jogando sem pressão e melhor escalada, atropelou a Costa Rica sem a menor cerimônia. Jogando assim, é time para brigar por título. E eis a possibilidade de termos um turning point ainda maior do que aparente no primeiro momento - não apenas do jogo, mas da própria Copa América. Será mesmo que a bucha oportunista de Agüero marcará a retomada da Argentina e o surgimento de um forte candidato ao título? Resta-nos esperar pelas próximas cenas do que, no momento, se desenha como um drama humano daqueles - aquelas histórias de vitória pessoal que movem as Sessões da Tarde de nossas vidas.
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Comentários
O time argentino é o que jogou ontem. Talvez com Milito no lugar de Higuaín - que é bom, mas teve péssima pontaria dentro de uma atuação bastante interessada. Tevez perdeu espaço.
Acho que dá Argentina x Uruguai nas quartas. Preparem os nervos. Além das Copas de 1950 e 2010, a Celeste eliminou a dona da casa da última Copa América, em 2007. Também nas quartas.