Desequilíbrio juvenil
BRASIL 4 x 2 EQUADOR
Na verdade, não dá para dizer que o Brasil tenha jogado mal ou mesmo de forma insuficiente contra os equatorianos, na partida que encerrou a campanha brasileira na primeira fase da Copa América. Não bastasse os quatro gols a negar qualquer ineficiência mais exacerbada, tivemos algumas boas atuações individuais, como Neymar (pode não ter humilhado o universo, mas fez dois gols) e Pato. Mas também não é caso para maiores euforias: o Brasil passou considerável aperto contra uma equipe muito inferior tecnicamente, demonstrando sinais de desequilíbrio emocional, e não deu pinta nenhuma de que esteja encaixando a mecânica de jogo ou qualquer coisa parecida. Venceu, é fato, mas não chegou nem perto de convencer.
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Tecnicamente, o Brasil apresentou alguns progressos. A movimentação dos atacantes foi mais efetiva, com boas trocas de posição, e a entrada de Maicon foi um grande acréscimo de qualidade no lado direito, onde Daniel Alves andava sendo tão eficiente quanto um aspone numa sexta-feira à tarde. O Brasil fez a bola girar, conseguiu algumas boas infiltrações e contou com a inegável eficiência de seus homens de frente - ou seja, melhorou com relação a si mesmo, o que certamente merece o registro.
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O principal problema, na verdade, foi fruto do desequilíbrio emocional dos brasileiros. Nas ditas Condições Normais de Temperatura e Pressão, o primeiro gol equatoriano (marcado por Caicedo, tinhoso provocador de trocadilhos infames no Twitter) seria pouco mais do que um incômodo momentâneo, um pequeno alerta talvez. Afinal, era um empate casual, fruto de um frango do geralmente seguro Júlio César, e não refletia em absoluto os rumos da partida. Porém, foi o suficiente para que o Brasil quase sucumbisse. Tremeu violentamente nas bases, deixou-se encurralar, por pouco não sofreu a virada no final do primeiro tempo. Poucas vezes um intervalo foi tão providencial. Convenhamos, uma equipe que pretende vencer uma competição continental não pode ficar tão abalada assim diante de um revés perfeitamente contornável.
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Para que o Brasil consiga uma vitória respeitável contra o Paraguai, será necessário que algumas peças façam mais do que têm feito. Ganso, por exemplo, segue sumido, enquanto Robinho manteve a média de suas atuações recentes, capaz que é de transformar-se em figura quase invisível em dadas circunstâncias - ainda que, sejamos justos, tenha chutado uma bola na trave e marcado um gol mal impedido no finzinho do jogo. O principal porém, de qualquer modo, não é de natureza técnica: falta imposição a essa seleção brasileira. É uma equipe que pode, mas que não consegue passar firmeza de que fará ou mesmo de que esteja disposta a fazer. Fica no meio termo, achando que a conquista vai cair do céu - e a mocinha fica ali no canto, ajeitando o cabelo enquanto espera que algum dos garotos brasileiros a tire para dançar.
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Talvez seja hora de parar de olhar para o Barcelona e buscar exemplo mais perto, no próprio Santos campeão da América - que joga para frente, sim, e que é formado por vários garotos, sim, mas que não treme diante de qualquer gol sofrido e que avança diante do adversário com a confiança de quem confia no próprio taco. Mano Menezes precisa ser o Muricy Ramalho desta seleção: capaz de reforçar a consciência coletiva de seu time, sem emasculá-lo. Perturbação como a vista hoje, diante de uma equipe ajustada e qualificada como o Paraguai, pode perfeitamente ser fatal.
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Comentários
Por vezes, os três atacantes, Ganso e André Santos afunilam o jogo de tal maneira que obrigam um dos volantes a desafogar a jogada. Então, quando o time perde a bola, os dois volantes são obrigados a correrem feito loucos atrás dos adversários.
No segundo tempo, Pato voltou bastante para recompor, mas não é ele quem precisa fazer isso. Se há dois ponteiros, eles que marquem os laterais, deixem o primeiro combate pro Ganso e o resto pra Lucas e Ramires.
Por enquanto, os três atacantes, Ganso e André Santos têm ficado inertes sem a bola e vendo a bomba estourar nos volantes e na defesa.
A troca mais óbvia parece ser retirar Robinho e colocar Elano. Ou experimentar Lucas ou Jádson, para que a meia-cancha tenha mais contundência.
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Após a Copa de 2014, Maicon permanecerá no Brasil e passará a jogar no Novo Hamburgo, onde, ao lado de Preto, Luis Henrique, Márcio Hahn e Micael, levará o Anilado ao inédito título gaúcho