Desagravo à retranca

COLÔMBIA 0 x 2 PERU
Costumo usar a retranca como um bom critério para distinguir quem realmente aprecia o futebol dos pobre-diabos deslumbrados que acham que uma boa partida tem que ser uma espécie de espetáculo a Cirque de Soleil. Alguém que vê a retranca como um tipo de deslealdade com o futebol está, do meu ponto de vista, errado além de qualquer esperança. A retranca pode não ser um exemplo de plasticidade, mas é o recurso certo e adequado para equipes inferiorizadas tecnicamente - e que, como todas as outras, querem e têm o direito de vencer de vez em quando.
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Veja o bonito exemplo de hoje. O Peru, time bem inferior à Colômbia, fez o único jogo que permitiria igualar as ações e tentar algum tipo de vitória sobre seu adversário: a boa, velha e indefectível retranca modelo sul-americano. Era a fórmula para conter o ímpeto colombiano, melhor campanha na primeira fase - e diga-se, funcionou muito bem na maior parte do tempo. Na primeira parte do jogo, em especial, quase nada aconteceu: era um jogo modorrento, arrastado, com a Colômbia tentando chegar e o Peru, em competentes e compactas duas linhas, espanando a bola para longe sempre que possível.
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No segundo tempo, o jogo ganhou em emoção e em estatísticas. E a retranca peruana, além de competente e obstinada, mostrou-se também sortuda. A Colômbia adiantou o time, passou a acionar intensamente as laterais, empilhou bolas na trave e conseguiu perder até pênalti, chutado para fora por Falcão Garcia. Jogou melhor, a Colômbia. Mas pergunto: desde quando o futebol é um jogo onde o melhor necessariamente vence? Nunca foi, jamais será - mais do que jogo de méritos, o futebol é uma emocionante disputa de nervos, entrega e principalmente competência. Um time superior que perde várias chances de gol em uma partida como essa é, simplesmente, incompetente. E não merece vencer.
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Não houve, portanto, injustiça nos gols peruanos e na desclassificação colombiana, sacramentada em um surpreendente 2 a 0 na prorrogação. Em duas falhas defensivas, abriu espaço para as traulitadas certeiras de um Peru que esperou pacientemente pela oportunidade. Faltou tranquilidade à Colômbia - consequência, talvez, da inexperiência de uma equipe ainda jovem e sem lideranças consolidadas. Não é caso de jogar tudo fora e começar de novo, pelo contrário: a Colômbia tem qualidades inegáveis e, se continuar investindo na consolidação de um grupo de jogadores, chega em boas condições para pleitear uma vaga na Copa 2014.
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O Peru, por sua vez, não parece ter fôlego para sonhos mais altos - a retranca é solução para algumas partidas específicas, mas dificilmente segura a onda em uma longa campanha. Mas chegou nas semifinais da Copa América, depois de ostentar a lanterna sem pilhas das eliminatórias, o que é uma façanha considerável. Chega como zebra, seja contra Argentina ou Uruguai. Mas não está justamente no trote da zebrinha um dos mais lindos aspectos do futebol?
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Comentários

Professor: essa primeira frase do texto é primorosa, e além de abrir alas para os comentários que seguem, definem com sabedoria o que faz do futebol um esporte único.

Depois do jogo fica a CERTEZA do uruguai na Final, e de que o Peru não tem chance alguma de ir para a Copa de 2014, mesmo que acabe essa Copa América em terceiro lugar.

ME COBREM.
Vicente Fonseca disse…
Não vi o jogo, e achei interessante tu ter falado em retranca. Nos dois jogos que vi do Peru, contra Uruguai e Chile, jogou de igual para igual com ambos os adversários e ameaçava-os seguidamente. Veremos na semifinal.
Igor Natusch disse…
Pois concordo, Professor. O Peru de fato promoveu uma mudança no modo de jogar, apostando no fechamento de espaços ao invés de encarar de frente o adversário. Talvez Sergio Markarián tenha percebido que, por ser o setor de frente colombiano muito rápido, seria melhor congestionar o campo defensivo para dificultar as ações. Sei lá, é uma suposição. O fato é que, em alguns momentos, os onze peruanos estavam fincadinhos na defesa, nem o centroavante ficava na frente para segurar a zaga adversária.
Vicente Fonseca disse…
Acho que repetirão a estratégia retrancadita contra o Uruguai. Mesmo que tenham jogado bem encarando a Celeste na estreia.