Pelo bem das criancinhas
Há pouco menos de um ano atrás, esse humilde escriba que vos digita começava sua participação fixa no Carta na Manga com esse texto, no qual contava uma breve história sobre as agruras de uma infância vivida na rivalidade Gre-Nal. Era um relato sobre um antigo colega meu de escola, colorado que sofreu as dores de vestir vermelho em uma época na qual só dava Grêmio nos gramados do RS, do Brasil e da América do Sul. Como a própria crônica conclui e qualquer um pode constatar olhando o passado recente, a coisa mudou drasticamente de figura: hoje o Inter coleciona títulos, está a um passo de conquistar pela segunda vez a América e já está comprando as passagens para Dubai, enquanto o Grêmio só tem conquistado Gauchão e Série B, luta para escapar de vez da lanterna no Brasileirão e perdeu para o desmilinguido Goiás a chance de sonhar com algo melhor na Copa Sul-Americana. Meu retorno a esse assunto foi motivado por uma curiosa observação que tenho feito, nesses primeiros dias de retorno definitivo a Porto Alegre depois de quase um ano e meio em São Paulo. Como vocês podem imaginar, essa coisa de andar na rua com camiseta do clube do coração é algo bastante gaúcho - não que não aconteça em Sampa, mas é algo bem menos comum e bem mais concentrado no Corinthians do que em qualquer outro time. Está sendo uma alegre mudança para os olhos a chance de ver, mesmo no friozito do Porto dos Casais, a grande quantidade de gente usando acessórios de Grêmio ou Internacional. Mais do Inter, claro, que vim cair nessa cidade bem na hora que vão ganhar a segunda Libertadores da década, mas enfim. Um grande e revigorante desfile de gremistas e colorados, inclusive com muitas crianças, claro. E muitos, muitos jovens gremistinhas.
Deve estar complicada, a vida desses piás. Encarar a crueldade inerente à infância em um momento no qual o time herdado do pai está afundado em crise, grande como poucas vezes se vivenciou na história e muitas nessa década que insiste em não acabar. Ouvir os guris colorados citando de cor o nome de ídolos recentes e ser forçado a puxar pela memória para lembrar algum nome gremista que valha a pena. Chutar bolas improvisadas nos recreios dos colégios, tentando fazer com que o Grêmio ganhe do colorado pelo menos ali, pelo menos naquele momento de deliciosa fantasia. Ver pela tevê o Inter ganhar fora de casa do Chivas e, no dia seguinte, engolir em seco uma derrota do Grêmio em casa para o Goiás. Complicado ser um piá gremista nesses dias de domínio colorado, meus amigos/as. Muito complicado.
E mesmo assim eles estão por aí, subindo nos nossos ônibus, batendo bola nas nossas pracinhas, indo nas lojas e lanchonetes, rindo entre si ou de mãos dadas com suas mães. Moleques gremistas que ainda sonham, ainda acreditam na mística do uniforme tricolor. Óbvio que essa fé não é exclusividade gremista; esses jovens adultos que estão se preparando para a festa de quarta-feira, esses foram os coloradinhos sofridos da metade dos anos 90 e também encararam a flauta cruel dos coleguinhas e do Destino. A coisa é cíclica, e há de chegar o momento em que os gremistas de hoje estarão lotando os bares e avenidas de amanhã, recebendo os ídolos tricolores no retorno de outra conquista imortal. Mas ainda não é assim - e essa fé herdada dos pais, essa determinação de escolher o lado da gangorra que está mais perto do barro e das poças d'água, esse sentimento de fidelidade ao que dá pouca ou nenhuma recompensa... Ele sempre me fascina. E vê-lo nas ruas de Porto Alegre nesses dias de inverno tem me feito muito bem.
Dá para perceber com muita clareza a imensa responsabilidade de Renato Gaúcho nesse momento de retomada gremista. Ele lida com algo muito maior do que sua história com o Grêmio, tem necessidades muito mais amplas do que simplesmente ganhar partidas e colocar o Grêmio na disputa de alguma coisa boa, seja o que for. Ele tem um compromisso com os sonhos cada vez mais embotados de uma jovem geração que não aguenta mais perder. Ele tem o dever de dar algo a esse bando de moleques, de oferecê-los algum título, alguma conquista, algo que eles possam usar quando seus colegas e amigos colorados vierem se gabar do bicampeonato da América. Renato tem esse poder. Talvez não seja o melhor treinador possível, mas é um homem capaz de anular todas as tensões e transformá-las em apoio apaixonado, como a reação da torcida na partida do último domingo é eloquente em demonstrar. Pode colocar na cabeça de seus comandados esse compromisso, esse entendimento fundamental de que existe uma geração de torcedores que nunca viu o time ganhar nada e precisa ser resgatada dessa situação. Temos que cuidar das criancinhas, diria Pelé. Eis aí a grande tarefa de Renato Gaúcho - esperemos que ele coloque a mão na massa.
Foto: o futuro gremista precisa ser salvo (Grêmio.Net)
Comentários
mas eu ainda acho que a vantagem do inter diante do gremio nos ultimos dez anos foi mais questão de sorte do que qualquer outra coisa. nos anos 90 o inter era muito mais insignificante do que o gremio foi nos 00. vice da libertadores, entre outras boas campanhas, boas colocações em brasileiros (2 terceiros, 1 vice).
era "só" o gremio ter conseguido a libertadores de 2007 (se o boca não tivesse se classificado para a final, quase caiu para o cucuta, quase não se classificou na primeira fase, não foi? e aquele gol com tres impedidos não me desce. ou a presença de de tuta e patrício numa final de libertadores. ENFIM). teria sido um 00 ainda mais glorioso para os gauchos. claro que rolou uma série b ali, mas nos 90 também rolou e nem por isso o gremio deixou de ser grande: só fez crescer.
O tempo é foda, eu, que tô beirando os 30, ainda tenho essas memórias frescas, o Grêmio dos anos 90 não tá tão distante assim pra mim, mas a verdade é que está sim. E o que nos resta é sermos o Inter da vez. Mas não o dos anos 90, e sim o do início dos anos 2000. O Inter de Fernando Miranda e da primeira gestão Carvalho. O Grêmio precisa começar de novo, precisa por ordem na casa, pagar as contas e trabalhar pra ganhar uma Copa do Brasil ou uma Sul-Americana, pra só então tomar corpo e partir pra títulos maiores.
Tá foda, srs.
sigam mamando.
a própria questão do ronaldino, que foi a primeira patuscada imperdoável da década.
mesmo assim, a diferença passa por vários detalhes de sorte. mas assim é o futebol.
Já me serve.
Com o passar do tempo a coisa ficou TÃO feia pro Inter que uma vez, na década passada, testemunhei ela chorando, se sentindo culpada por ter "doutrinado" para o lado vermelho da força dois afilhados cujos pais não davam muita bola prá futebol. Desde o berço era mamadeira do inter, chupeta do inter, camiseta infantil do inter...
Pelo bem dessas crianças (que nem são mais crianças, um até já é PAI) e da minha irmã é que eu agradeço as últimas conquistas do colorado.
2006 fez tudo valer a pena.
Que texto, meu amigo! Difícil reunir as duas torcidas em um sentimento comum. Parabéns.
Realmente, quando em dezembro de 2006 eu gritei a plenos pulmões e com os olhos cheios de lágrimas "Campeão do Mundo!" na sacada da minha casa em Cruz Alta, eu me dirigia a toda minha vizinhança – amplamente gremista –, a Paulo Nunes e Jardel, ao Felipão, ao Leandro Guerreiro e tantos outros que infernizaram minha infância no crepúsculo desse período de mais de 20 anos sem um grande título. Não esqueci a Copa do Brasil de 1992, mas, comparada ao que o Grêmio vinha conquistando, ela perdeu importância; sempre foi a irmã feia das quatro estrelas que por tanto tempo habitaram o topo do símbolo Colorado.
Lique:
Em termos quantitativos, considerando que as décadas acabam nos anos terminados em 9 (1990-1999, 2000-2009), o Inter foi MELHOR na de 1990 que o Grêmio na de 2000. Conquistamos uma Copa do Brasil e quatro Gauchões, enquanto vocês ganharam um Gauchão a menos no período seguinte. Em favor de vocês, uma final de Libertadores. No nosso lado, uma goleada histórica no Grêmio recém campeão em pleno Olímpico. Sem contar os rebaixamentos. Enfim, tudo isso pode ser discutido.
Mas sorte não, tá? Isso apequena o debate.
Abraço
na verdade, o próprio gremio de 2007 contou com muito rabo pra chegar na final da libertadores daquele ano. um time tão ruim fora de casa quanto copeiro em casa. mas chegou, tá valendo.
eu lembro em 2006, no meio do ano ali, meu chefe, colorado fanático, falava mal do inter, do fernando carvalho, do abel braga. dizia que o abel era um tchuco, tava sempre com os olhos vermelhos de bebida. dizia que o fernando carvalho não tinha CLASSE para guiar um clube ao campeonato da libertadores. e que tinha conversado com o paulo paixão na época, ouviu da boca dele as palavras "esse grupo do inter não tem raça pra ser campeão, não vai dar". isso foi um pouco depois daquele 0 x 0 contra o nacional, fora de casa. de repente, foi campeão, o abel é o cara, o fernando carvalho é comparado ao fabio koff, etc. hehe. não tô tentando falar nada contra nem a favor, apenas lembrando de como o resultado, a taça, mudam um mundo de fatores.
mas enfim, eu não sou dos mais secadores, que ganhem e que celebrem bem, comemorem bonito.
lembrei de uma engraçada: dois amigos colorados, que assistiam ao jogo com a gente, pra secar, saindo pra festear junto na goethe pela libertadores de 95. tem uma hora que o cara cansa de secar, não tem jeito. SÓ NÃO ME GANHA O BI MUNDIAL, senão não brinco mais.
E aí vejo o Grêmio nos 2000 em quatro Libertadores, contra uma do Inter nos 1990; em três delas, chegou à semifinal, enquanto o Inter parou na primeira fase; um vice brasileiro, dois terceiros e um quarto lugar, enquanto o Inter chegou em 3º em 1997 e só.
Tudo é passível de discussão, sem dúvida. Eu só esperava que 2010 não fizesse parte da década passada, mas pelo jeito faz. Ao menos futebolisticamente. :)