Uma mística, uma história

Não restava alternativa. Eram 15 minutos do segundo tempo da prorrogação quando Gana levantou a bola na área uruguaia. Depois de rebater uma vez em cima da linha, ela sobrou para Appiah, que cabeceou firme. Luis Suarez, postando à linha do gol, tinha duas alternativas: ou metia o rosto na bola – o que provavelmente a faria voltar para um ganês dar o golpe definitivo e, portanto, não servia – ou ia com a mão mesmo, rezava para que as pífias arbitragens da Copa não vissem mais um erro grosseiro, e daria à Celeste uma última chance de sobreviver rumo à dramaticidade de uma disputa de pênaltis. É fácil concluir que ele simplesmente não tinha escolha. Para salvar o Uruguai de uma eliminação no último lance da partida, só se interviesse com o único órgão de seu corpo que é proibido pela regra do futebol. Em nome da vida, fez o serviço sujo. E esperou o milagre.

Asamoah Gyan, artilheiro ganês que curiosamente joga com a camisa 3, de zagueiro, postou-se para a batida. Nada levava a crer que perderia: batera dois pênaltis já na Copa, convertendo ambos com cirúrgica precisão. Do outro lado, Fernando Muslera, solitário contra o centroavante adversário e a imensa maioria dos 84.017 torcedores presentes no Soccer City, que clamavam por uma classificação que orgulhasse o continente-sede deste Mundial. Gyan foi confiante, bateu forte, mas em vez de pesar seu instinto finalizador, pesou o número de sua camisa – a de zagueirão. Foi no abençoado travessão da goleira direita do Soccer City que o Uruguai se classificou às semifinais da Copa do Mundo de 2010, 40 anos depois. Nem precisava a decisão por pênaltis. Foi a primeira vez na história que, antes mesmo das batidas, uma equipe entrou vencedora, e a outra derrotada.

A classificação uruguaia premia a equipe que não apenas faz melhor campanha, mas jogou melhor hoje. O primeiro tempo foi dividido em dois. No começo, a Celeste tomou a iniciativa e criou chances de abrir o placar. Gana atuou como contra a Alemanha, mas só passou a encaixar contra-golpes na metade da etapa inicial, quando Prince Boateng (excelente jogador, embora se pareça muito com Wellington Paulista) começou a puxar seu time para o ataque, na base de imposição física e grande qualidade nas arrancadas. Quando o intervalo era ótimo negócio para os charruas, Muntari acertou um tirambaço curvo, que pegou Muslera fora do lugar. Levar o gol no último lance do jogo poderia ser o prenúncio de uma desgraça. Parecia.

O Uruguai voltou com a força que marcou sua história no segundo tempo. Mesmo sem o capitão Lugano (e o outro titular, Godín, que nem jogou), ganhava todas as divididas, foi para cima na base da raça e do peso de sua camisa. Mesmo com Cavani ainda destoando dos demais, o time levou sempre mais perigo. Forlán acertou uma falta lateral no melhor estilo dos romenos Dumitrescu e Gica Hagi, empatando o jogo. A tônica do jogo passou a ser uma Celeste tentando definir a partida nos 90 minutos, com Gana se segurando e freando o ritmo para ter fôlego numa possível prorrogação.

No tempo extra, já com Abreu no lugar de Cavani, a Celeste se viu na situação inversa: foi pressionada por Gana e tentava sair nos contra-golpes. Até que veio o lance descrito no primeiro parágrafo. O maior lance da Copa do Mundo. A jogada que poderia ter enterrado o Uruguai cruelmente, mas que o colocou nas semifinais.

Era previsível que a Celeste se daria melhor nos pênaltis, mesmo que seja uma disputa marcada pelo imponderável muitas vezes. Um time entrou na disputa completamente renascido; o outro, com a sensação de que deixara escapar a grande chance da vaga. Muslera teria sido o grande personagem da batalha final com suas defesas, mas Loco Abreu, com a cavadinha mirabolante que o caracteriza, é quem entra para a história.

Se bem que Muslera também, redimindo-se da falha no gol ganês com duas defesas. Pensando melhor, Fucile, que ganhou simplesmente todas as disputas, merece as reverências. Ou Diego Pérez, leão do meio-campo, melhor guardião de defesas desta Copa. Ah, mas como esquecer de Forlán, o maestro, um dos craques da Copa, o autor do golaço, de mais um chutaço que calou o estádio, como na goleada sobre a África do Sul? E Maxi Pereira, incansável. E Lugano, o capitão que deixou a partida em favor de Scotti. E Suarez, claro.

O Uruguai chega onde quase ninguém imaginava. E acho que ninguém mais duvida que consiga ir até mais longe. Mesmo contra a grande Holanda, mesmo sem Suarez, talvez sem a zaga titular. De um time que calou duas vezes os estádios cheios da África nesta Copa, como sua melhor tradição pede, convém não duvidar.

Foto: Forlán, candidato à craque da Copa, comemora mais um golaço na África do Sul (AFP).

Comentários

Cícero disse…
Que roteiro brilhante! Um DVD dessa partida faz-se mister.
Felipe disse…
Quinze minutos do segundo tempo da prorrogação. Penalti para Gana, que esta prestes a se classificar para a semi-final. Não tem como a vaga escapar! Nesse momento, Mick Jagger pensa: 'tá, acho que eu vou ligar a TV pra dar uma torcidinha pra Gana'.
vine disse…
Suco de laranja azeda semana que vem!