Chances que não voltam

Não entendo como as pessoas ainda se surpreendem que a Espanha tenha tido dificuldades em superar o Paraguai. A seleção de Gerardo Martino não apenas estava invicta nesta Copa como, além de eliminar a (bem ou mal) campeã Itália, fez uma campanha de Eliminatórias equiparada com a do Brasil, e muito superior à da Argentina, por exemplo.

Evidentemente que não daria para enfrentar de igual para igual. Mas o Paraguai, fiel à sua história em Copas, jogou fechado, marcando muito, e esperando a chance de dar o bote. Começou o jogo com postura surpreendente, marcando lá em cima. Mesmo quando a Espanha começou a se encontrar, raramente conseguia entrar na área guarani. A grande chance do primeiro tempo, inclusive, foi paraguaia – mais que uma chance, um gol mal anulado por mais uma desastrosa arbitragem nesta Copa do Mundo.

O segundo tempo foi marcado pelos dois pênaltis seguidos. A favor do Paraguai, muito bem marcado, mas pessimamente validado pelo guatemalteco do apito, já que vários espanhóis invadiram a área, o que deveria anular a defesa de Casillas, um monstro pegador de pênaltis de Copas como desde Goycoechea não se vê. A favor da Espanha, duvidoso, discutível. Bem anulado o gol de Alonso, mas, na segunda cobrança, Villar defende e faz novo pênalti, desta vez em Fabregas, não marcado. Tudo errado.

Fabregas, aliás, substituiu Fernando Torres, o goleador que se transformou de solução em problema espanhol nesta Copa. Colocou-se já Pedro, Llorente, Fabregas, qualquer um. Sempre que Torres sai, a Espanha melhora. No caso de hoje, ganhou robustez e qualidade no meio, em favor de um peso morto. Peso morto que pode derrotar a Alemanha na semifinal, como na Euro 2008, pois se trata de um dos melhores centroavantes do mundo. Mas que tem sido zero nesta Copa.

A Espanha passa na qualidade de seus jogadores, especialmente o meio-campo. Xavi fez ótima partida, Iniesta é sempre perigoso, e Villa, artilheiro da Copa, um demônio. Lá atrás, quando precisou, Casillas esteve presente. Mas o time pode e deveria jogar muito mais. Ao contrário de outras Copas, nesta a Fúria nunca goleou ou deu show no começo. Sempre foi de mediana para boa, sem dar espetáculo – mas desta vez chegou. Para enfrentar a Alemanha, será preciso muito mais futebol do que hoje ou qualquer outro jogo. Se a questão da tradição de derrotas não tem pesado contra os espanhóis em 2010, a questão da bola será implacável diante do melhor time do Mundial. A Espanha precisará de sua melhor atuação na história para chegar à final. Ao natural, cairá fora.

Já o Paraguai fez uma Copa interessante, talvez um pouco abaixo do que eu esperava, mas, em termos de resultados, excelente. A seleção guarani poderia ter um desempenho ofensivo mais de acordo com a capacidade de jogadores como Barrios, Santa Cruz, Valdez e Cardozo, mas novamente destacou-se por uma defesa sólida e firme. Hoje foi um time aguerrido, brioso, honrado, comovente. Ah, se aquela bola de Cardozo entrasse...

Em tempo:
- Só o Uruguai continua na Copa, o que não anula o bom desempenho da América do Sul, especialmente de seus times menos cotados. A final de Brasil x Argentina fica para a próxima. E apesar do mau começo, futebol europeu prova que sua “decadência”, sim, é que era uma farsa. Muito mais por alemães e holandeses que por espanhóis.

- Guatemala, Japão e Uzbequistão com árbitros em jogos de quartas-de-final de Copa do Mundo. É muita vontade de agradar federações. É muito risco de complicar o que não se pode.

Foto: Cardozo lamenta a perda do pênalti que poderia ter posto o Paraguai entre os quatro melhores do mundo (AFP).

Comentários

Chico disse…
Chegou a Fúria. Outros mais badalados ficaram pelo caminho.

Villa está carregando a Espanha "en las espaldas".

Discordo, Vicente. A Albiroja nunca foi tão longe numa Copa. Fez seu papel.

Chora, Morel!
Vicente Fonseca disse…
Chico, eu esperava um pouco mais futebol do Paraguai, apenas. Resultado não, foi bem demais.
Lourenço disse…
Eu creio que é paradoxal a Espanha ter ido mais longe que o Brasil. Todos nós apostávamos que o Brasil era mais de chegada, mais de resultados etc.
Ducha de água fria para a América do Sul, que perdeu os 3 confrontos diretos com a Europa. Ainda temos o Uruguai, mas alguns exageraram e se precipitaram. Deveriam exaltar agora a supremacia européia, ou são tão eurófilos que acham que isso nem é notícia.
Lourenço disse…
Eu só tenho uma ressalva à Alemanha: no único jogo que saíram atrás e tiveram de buscar o resultado, fracassaram. A Espanha a mesma coisa. São duas equipes, no entanto, que têm ótimo contra-ataque e jogam em velocidade. Logo, acho que o primeiro gol nesse confronto será mais do que nunca importante. Mas sim, a Alemanha é a favorita da Copa.
Igor Natusch disse…
Perdeu os 3 confrontos diretos das QUARTAS DE FINAL, né? Acho importante frisar, mesmo que obviamente vencer nas quartas seja muito mais importante do que fazer o mesmo nas fases classificatórias. Acho que as vitórias européias servem para baixar um pouco a bola dos latinoamericanos, além de mostrar que a escola européia não está nessa "decadência" que se dizia. Mas acho que a Copa da África do Sul mostra sim um crescimento do futebol da América Latina. Comparando os classificados para as oitavas de final nas últimas Copas, tivemos três seleções em 2002, em 2006 foram quatro times e em 2010 tivemos seis. De todas as seleções latinas possíveis, só Honduras não entrou nas oitavas este ano. Da Europa, ao contrário, as médias tinham sido oito (2002), dez (2006) e apenas seis em 2010. Com muito menos vagas na Copa, a América Latina repetiu o número de seleções da Europa, que deixou oito países na fase classificatória. Esses números sozinhos não provam nada, esses números - mas são indícios, e vão longe da mera hostilidade aos europeus.
Igor Natusch disse…
Quanto ao jogo em si, me admirei com a postura inicial do Paraguai, muito adiantado e encurralando os espanhóis. Mesmo derrotado no final, o Paraguai fez uma partida mui digna, sua melhor nessa Copa, e poderia até mesmo fazer o crime.

A Espanha está avançando sem convencer. Isso até é "perigoso", já que geralmente eles convenciam sem avançar... De qualquer modo, a Alemanha é favorita no confronto, e ainda acho que está faltando coesão para a Espanha do meio para a frente, é muita marra e pouca eficiência. Enfim, veremos.
Prestes disse…
Se Alemanha e Espanha jogarem o que vem jogando será mais uma goleada alemã.

MAS, a Espanha tem jogado com adversários que a respeitam demais. Talvez por isso sua produção ofensiva esteja tão pequena. Por outro lado, tb foi pouquíssima atacada, enquanto q a Alemanha enfrentou Argentina e Inglaterra.
Prestes disse…
Enfim, Alemanha é bem favorita.

Aliás, só duas Copas não tiveram Alemanha, Brasil ou Itália na final.
Prestes disse…
E o Paraguai??

COMOVENTE DEMAIS!

MERECEU MUITO MAIS QUE OS ESPANHÓIS.
Vicente Fonseca disse…
Seleção grande é seleção grande, não importa se da Europa ou da América do Sul. Umas chegam, outras não. O que aconteceu claramente nesta Copa é que as seleções médias da América (México, Chile, Paraguai e até mesmo o Uruguai, que é bicampeão mas perdeu espaço nas últimas décadas) tomaram o posto das médias da Europa, como Suíça, Grécia e Portugal.

Um fato que precisa ser visto com cuidado é o fato de os dois grandes da América do Sul ficarem de fora das semifinais pela segunda vez seguida (no caso argentino, quinta vez). Não vivem crise técnica ou decadência alguma, mas chama a atenção dois fracassos seguidos conjuntos assim.
Lourenço disse…
Não sei se o termo é crise técnica. Ocorre que a Argentina não ganha um torneio profissional de futebol desde 1993.
A minha geração, cuja primeira Copa foi 1994, nunca viu a Argentina passar das quartas. São 5 copas sem saber o que é uma semifinal. Crise, sim. Não sei se técnica.
Felipe disse…
Baita jogo, cheio de emoções. O paraguai mereceu mais, até por que teve um gol mal anulado. A Espanha toca, toca mas não finaliza. Duvido que passe da Alemanha.
Vicente Fonseca disse…
O grande problema do Paraguai foi desperdiçar quando teve a chance. Contra times mais fortes, isto é imperdoável. Verdade que a Espanha também não fica muito à frente, perdeu outro pênalti logo depois.