Paraguaio, sem falsificação

As seleções da América do Sul tem sido, de modo geral, as mais consistentes e eficazes nessa fase inicial de Copa do Mundo. Dentre os times da América Latina, somente Honduras deve ficar de fora da próxima fase - o que, em si mesmo, já é um grande testemunho da força das seleções do lado de cá do globo. O Paraguai é mais uma das boas notícias do futebol latino. Depois de empatar com a atual campeã Itália em uma partida que poderia ter até vencido, despachou sem sobressaltos a limitada Eslováquia, jogando sempre melhor que seus adversários do Leste Europeu. E não só pedindo as credenciais para as oitavas, mas ganhando autoridade para voar bem mais alto.


É uma bela seleção, a paraguaia. Seu 4-3-3 é forte e envolvente, equilibrando a ofensividade natural de seus atletas com elogiável potencial de contenção. Quando sem a bola, o Paraguai se compacta rapidamente, adiantando a marcação de forma a sufocar o adversário em seu próprio campo de defesa. Por vezes, a linha de zagueiros guarani está praticamente no meio do gramado. E quando está com o esférico em seu poder, a albirroja ataca de forma implacável. Com a entrada de Roque Santa Cruz, o sistema ofensivo fica ainda mais perigoso, com Barrios e Valdez garantindo uma incansável movimentação. Vera e Riveros também chegam de trás com muita força - e o resultado disso é uma seleção invejável, capaz de meter o terror em qualquer defesa do planeta. E isso que Cabañas nem pôde viajar para a África do Sul...


O primeiro tempo no Free State de Bloemfontein demonstrou tudo isso de forma inquestionável. A albirroja não fez um bom jogo, apenas - foi uma das mais consistentes atuações que eu assisti em toda essa Copa, atrás apenas da exuberante estreia alemã contra a Austrália. A Eslováquia, ciente de que precisava mudar depois do repentino e decepcionante empate contra a Nova Zelândia, promoveu algumas mudanças no time, a principal delas a entrada do bom lateral Pekarik, talvez o mais lúcido jogador eslovaco na partida de hoje. Porém, é um time que naturalmente erra muitos passes. Com essa deficiência crônica somada à marcação adiantada dos paraguaios, o fato é que a Eslováquia não articulou quase nada durante toda a partida.


Durante os primeiros quinze ou vinte minutos, a seleção européia praticamente não passou do meio de campo; era um domínio pleno do Paraguai, uma atuação de altíssima qualidade e potencial competitivo. O gol de Vera, bela conclusão depois de passe caprichado de Barrios, era uma consequência inevitável de uma superioridade que saltava aos olhos. Depois do 1 a 0, sejamos justos, até que a Eslováquia tentou reagir. Adiantou-se em campo, começou a alçar bolas na área paraguaia (talvez a maior deficiência atual dos guaranis) e até chegou uma que outra vez, forçando o experiente Villar a um punhado de boas intervenções. Mas em nenhum momento deu qualquer pinta de que poderia empatar o jogo, pelo contrário. Quem quase ampliou foi o Paraguai, em especial aos 38mins, quando Roque Sta. Cruz teve a chance numa péssima saída de bola eslovaca e chutou cruzado. Mucha, o bom arqueiro da Eslováquia, usou a ponta da chuteira para evitar o segundo gol.


Na segunda etapa, o ritmo diminuiu visivelmente. Com amplo domínio e ditando o ritmo do jogo, o Paraguai evitou se expor, optando por conceder a bola para os eslovacos. Como a eficiência do passe da Eslováquia era baixíssima, quase nenhum lance de perigo era criado - ainda mais se considerarmos que Hamsik, supostamente o maior craque do país, fazia uma partida apagadíssima beirando a omissão. Tanto que, mesmo sendo a Eslováquia quem precisava empatar, foram os paraguaios quem tiveram as melhores chances. Aos 26mins, Vera (um dos melhores em campo) quase marcou outro gol, interceptando de cabeça bom cruzamento de Roque Santa Cruz. A Eslováquia colocava atacantes, volantes se erguiam do banco paraguaio, e o panorama não sofria qualquer alteração. O gol final dos guaranis surgiu assim, sem surpresas, quase sem querer. O relógio do Free State marcava pouco mais de 40mins da segunda etapa quando a cobrança de falta foi erguida na segunda trave. Cardoso e Da Silva se confundiram na hora do chute, quase que um arranca a canela do outro, mas no fim das contas a bola sobrou para Riveros. O chute forte e seco, de perna esquerda, foi eficaz e implacável. Como eficaz foram os paraguaios hoje, e implacável foi sua vitória de 2 a 0 sobre uma Eslováquia frágil e incapaz de resistir.


Com esse resultado, imaginar o Paraguai fora das oitavas se torna praticamente uma obra de ficção. A seleção albirroja está bem, e não serão os limitados (embora aparentemente copeiros) neozelandeses a estragar a festa latina. Seja lá quem se defronte com os guaranis nas oitavas, é bom já ir abrindo o olho. Quanto à Eslováquia, é uma das mais fracas seleções da Copa até aqui, e prevejo uma melancólica derrota contra os italianos na sua despedida do Mundial. Milagres acontecem, é claro. Mas fazer a Eslováquia mostrar um futebol realmente competitivo contra a atual campeã do mundo, ainda mais depois do que jogou (ou não) até aqui, é tarefa de fazer qualquer Mandrake desistir da profissão...


Foto: paraguaios festejam primeiro gol em partida de amplo domínio. A Eslováquia, como previsto, nem saiu na foto (Reuters)

Comentários

Prestes disse…
Esse Paraguai pode ir longe!

Aguante Albirroja!

Não vi o jogo, mas tu acertaste muito no texto ao qualificar os neo-zelandeses como copeiros!!!
Vicente Fonseca disse…
Melhor Paraguai de todos os tempos, sem dúvida. Desde 1998, quando participa ininterruptamente da Copa, é o melhor de longe.