Jogos Inesquecíveis: Brasil 4 x 1 Itália (1970, final)
FREDERICK POSSELT MARTINS
Façamos um exercício de raciocínio, senhores. Pense numa Copa do Mundo onde três seleções bicampeãs disputam entre si um inédito tricampeonato. Pensem também que, quem levar esse tricampeonato, terá o direito de levar a Taça Jules Rimet em definitivo para sua pátria. Juntamente a isso, imaginem que essas três seleções chegaram nas semifinais dessa Copa, junto com outra seleção que foi vice-campeã na edição anterior do torneio. Ao fim dessa Copa, imagine um confronto decisivo entre as duas únicas seleções que foram bicampeãs consecutivas do torneio. Imagine que esse confronto é considerado o mais consagrado da história das Copas, por envolver as duas seleções mais tradicionais do torneio. Por fim, imagine que esse confronto foi a última partida de Copa do Mundo do maior jogador de futebol que pisou neste planeta.
Obviamente que não vou dizer o clássico clichê "impossível imaginar tudo isso? Pois essa partida aconteceu", como qualquer jornalista da Grande Imprensa que não entende nada do podobálio mundial. Vou, simplesmente, dizer que estes foram os ingredientes da saborosa final da Copa de 1970, fervida e preparada num caldeirão chamado Azteca. Há quem diga que foi a maior Copa do Mundo de todos os tempos. Há quem diga que foi a melhor seleção brasileira de todos os tempos. Há quem diga que foi a melhor Copa de Pelé. Tudo isso são ilações e opiniões próprias tanto de quem viu a Copa na época como de amantes do futebol que assistiram as partidas posteriormente. Mas uma coisa não se contesta: aquele selecionado comandado pelo velho lobo Zagallo levou o tricampeonato com autoridade e méritos, e colocou a Canarinho para sempre, de forma indubitável, no rol das grandes seleções do futebol mundial, de modo a quase sempre entrar como favorita, posteriormente, em uma edição do torneio.
Claro que alguém pode contestar esta afirmação mencionando que "toda seleção campeã já entra numa Copa como promessa" ou "toda seleção campeã já colocou seu nome de forma indelével na história do futebol mundial". A primeira afirmativa é furada. O Uruguai conquistou dois torneios até a década de 50 com méritos, mas após 70, nunca mais demonstrou a grande força da Celeste Olímpica dos tempos de Varela. A segunda afirmativa pode ser discutida, embora ainda ache que não seja motivo de consagração de uma seleção. A Inglaterra conquistou uma Copa em 66 e, depois, nunca mais disputou uma final (chegou numa semifinal em 90, e nada mais). Se compararmos com sua eterna rival França, veremos que esta chegou mais longe mais vezes no torneio (5 semifinais, que resultaram em duas finais).
Ademais, a Canarinho encantou o mundo com as seleções de 58 e 62, mas aparentemente elas não alcançaram uma popularidade tão grande quanto a seleção de 70. E há motivos para isso: foi a Copa onde Pelé jogou todas as partidas. Também foi última Copa que o Rei participou, aplicando dribles e chutes inesquecíveis (como "o gol que Pelé não fez", de fora da área, ou o drible desconcertante em Mazurkiewicz na semifinal, que ficou consagrado mesmo que a conclusão não tenha resultado em gol). Foi a Copa em que até a torcida mexicana local decidiu apoiar a seleção (creio que, na Suécia e no Chile, o carisma e a relação torcida-seleção não foi a mesma). E foi a Copa onde o Brasil venceu todas as suas partidas apresentando um futebol vistoso, com belo toque de bola e jogadores com grande técnica ludopédica.
Por tudo isso, a Seleção de 70 é inesquecível. Não só porque tinha Pelé, um craque em todos os sentidos, que aplicava dribles desconcertantes, cabeceava e chutava de forma precisa e tinha um passe e visão de jogo perfeitos. Também tinha Tostão, um jogador que, como diria Ruy Carlos Ostermann "taticamente interessante": jogava pelos lados e pelo meio, sempre tabelando com os outros companheiros de ataque, tal qual Hidekguti em 54. Tinha Jairzinho, um jogador rápido, valente e mortal, que disputava a bola com vontade. Tinha Gérson, um cerebrino que qualquer torcedor gostaria de ter em seu clube. Tinha Carlos Alberto Torres, grande lateral e líder, que marcava e avançava com qualidade. Isso sem falar de Félix, Brito, Piazza, Everaldo, Clodoaldo, Rivelino. Fiquemos só nos nomes que se destacaram nesta partida. Todos regidos sob a batuta de Mário Jorge Lobo Zagallo, ex-jogador da Canarinho, que já apresentava seus cabelos em tons de cinza (!!!!!!!). Esta Seleção venceu os seus cinco jogos com autoridade, apesar da dificuldade contra Inglaterra e Romênia na fase de grupos. Mas venceu, e é isso o que importa numa partida de futebol.
Ainda assim, não se pode desmerecer a Azzura, um time bem treinado e determinado, que também havia chegado na final da Copa com méritos (ainda mais depois do seu antológico jogo contra a Alemanha nas semifinais). A campanha, na fase de grupos, foi uma típica campanha italiana: uma vitória e dois empates. Nas quartas, um 4x1 sobre os anfitriões do torneio. E nas semi, superaram na marra a Alemanha de Beckenbauer e Müller, até então invicta na Copa. De destaques, o time de Ferruccio Valcareggi tinha Albertosi, um goleiro acima da média. Tinha Facchetti, um lateral esquerdo alto, capitão do time, bastante técnico. Havia também Sisti e Domenghini, dois meias que davam pro gasto. Mas o ponto forte era o ataque, formado por Boninsegna, Luigi Riva e Mazzola. O primeiro era oportunista e tinha bom chute, sempre jogando pelo lado direito do ataque. Já Mazzola era habilidosíssimo, sempre buscando o jogo no meio campo e tabelando com os companheiros, especialmente com Sisti. E Riva tinha uma bomba na perna esquerda, conhecida como "rombo di tuono" (ronco do trovão; muita coincidência com a Patada Atômica de... RIVElino!). Sempre arriscava chutes de fora da área, para surpreender a zaga e o goleiro adversário. Félix quase foi vítima de um desses chutes no início da partida. Pouca coisa? Não. Definitivamente, não.
Antes de irmos direto ao ponto, façamos algumas considerações iniciais sobre a partida. Apesar do placar elástico, não foi uma partida fácil para a Canarinho - Ao menos até os 15 minutos do segundo tempo. No primeiro tempo, apesar da movimentação, o Brasil teve apenas DUAS chances efetivas de gol - duas cabeçadas de Pelé, onde uma delas resultou em gol. Junte-se também ao fato de que alguns jogadores brasileiros na primeira etapa estavam visivelmente nervosos, como o caso de Rivelino, que errou praticamente tudo. Piazza e Brito, às vezes, se embananavam, e Clodoaldo "apenas" cometeu a infelicidade de dar um passe para Boninsegna fazer o gol de empate, em um erro parecido com o de Cerezzo doze anos depois. A Azzurra jogava de igual para igual com o Brasil, e prever um resultado como foi esse 4x1 era muito improvável.
Mas, supostamente, a Itália parou de jogar a partir dos 15 minutos do segundo tempo. Uma primeira hipótese que os amantes do futebol levantam é que a Azzurra sentiu o desgaste do jogo contra a Alemanha, que foi uma verdadeira batalha. É possível. Mas aí também podemos fazer outro raciocínio: a Itália já apresentara esse estado apático contra a Alemanha, igualmente no segundo tempo, quando os germânicos dominaram o jogo e só não ganharam a partida por detalhe. Seria uma característica daquele time italiano? O preparo físico não seria bom? Está aí um ponto interessante para se discutir. Mas é fato, senhores: a partir dos 15 minutos do segundo tempo, os italianos não mais esboçam ataques perigosos e efetivos. Não é à toa que os três gols brasileiros que nos deu o tricampeonato aconteceram após esse momento.
E ainda temos a arbitragem do alemão Rudolf Gloeckner, que pouco acostumado com a estreia dos cartões amarelo e vermelho na Copa, pouco os usou - embora motivo para usá-los não faltasse. Houve muitas entradas ríspidas de ambos os lados, algumas com um quê de violência. Os jogadores de ambos os times se provocavam, e o árbitro simplesmente deixava que eles se desentendessem, sem usar de sua autoridade para coagir o antijogo. Coisas da época, certamente.
Logo cedo, com a saída de bola, a Itália vai pro ataque. E não poderia ser de outra maneira: com um "rombo di tuono" de Riva. Pela direita, Mazzola enxerga o seu companheiro e passa para ele. Riva conduz a bola pelo centro e, dá intermediária, manda o seu potente chute. Mesmo indo em direção ao centro do gol, Félix precisa se esticar todo para praticar a defesa e colocar a esférica para escanteio. Um chute que fez os noventa milhões de brasileiros em ação se arrepiarem.
Pode-se dizer que esse chute perigoso de Riva foi a única situação real de gol dos 15 primeiros minutos de jogo, acreditem. O que viria, após, seria um jogo equilibrado, com ambas as equipes se revezando na posse de bola e nas subidas pro ataque. As situações de perigo ocorreram, mas as conclusões, tanto da Canarinho quanto da Azzurra, foram pífias. O Brasil tinha maior posse de bola e criava mais jogadas que os italianos, especialmente com Pelé e Jairzinho pelo centro e de Gérson e Carlos Alberto Torres pela direita. Everaldo, pela esquerda, fazia um feijão-com-arroz, e Rivelino errava praticamente tudo, desde um passe simples até uma cobrança de escanteio que ele levantou para o nada e que saiu pela linha de fundo, passando pelas cobranças de falta mandadas diretamente pras arquibancadas do Azteca. Já a Itália armava boas jogadas com o capitão Facchetti e com os habilidosos Mazzola e Riva, ora pela direita, ora pela esquerda.
Apesar da insistência do escrete canarinho em criar chances na área de Albertosi - mas nunca ameaçá-lo com chance real de gol - é a Itália que novamente cria uma chance perigosa, aos 16 minutos. Em uma bola alçada na área, a zaga brasileira afasta, e no rebote, Pelé divide com Boninsegna e comete pé alto. O Rei reclama, mas o árbitro marcara a falta, pelo lado esquerdo, perto da área. O mesmo Boninsegna se prepara para a cobrança e avista Riva entrando sorrateiramente pelo lado direito, dentro da área de Félix. Boninsegna lança para Riva, que cabeceia de forma perigosa em direção ao ângulo da meta brasileira, mas a bola sobe e sai por cima do travessão.
O Brasil, então, faz valer seus nomes de talento e criatividade no ataque. Aos 18 minutos, em uma jogada que começa com - pasmem - Rivelino no círculo central, este toca para Everaldo pela esquerda. O lateral gremista enxerga Tostão mais adiante e lança. O 9 brasileiro, de primeira, levanta para a área. Facchetti, o capitão italiano, afasta de cabeça para a linha lateral, ainda pelo lado esquerdo. O grito estava pronto para ser dado e ecoado. Na cobrança do lateral, Tostão toca para Rivelino, que também de primeira cruza para a área. A esférica vai em direção de Burgnich e Pelé. Melhor para o rei, que vence seu marcador e, de cabeça, manda a pelota no ângulo esquerdo da meta de Albertosi. Estava inaugurado o placar da partida, para alegria verde e amarela. Pelé comemora e abraça Jairzinho. E um grito é ecoado na vila do Chaves...Se a vantagem finalmente aparecera no placar, não se poder dizer o mesmo do jogo em campo: ele continuava equilibrado, com a Azzurra ainda agredindo da forma como podia. Boninsegna começava a aparecer no jogo, ajudando Mazzola e Riva no ataque. E o resultado disso não tardaria a aparecer: aos 23 minutos, a zaga brasileira tocava a bola perto da linha central. Piazza tocara para Brito, que tentara uma ligação direta. Mas Riva, tal qual Paolo Rossi em 82, interceptara a esférica, e teria apenas Félix à sua frente, porém seu toque adiantou demais a pelota: o arqueiro brasileiro abandonava sua meta e chutava a bola pro mato, porque aquilo era final de campeonato, completando a jogada com berros para os zagueiros, para que não dormissem no serviço.
Quem achou que esse seria um esboço do gol da Itália ainda no primeiro tempo, acertou. Durante dez minutos, os times continuaram se revezando nas situações de gol. A Canarinho com seu belo toque de bola que surpreendia a zaga italiana, e a Azzurra apostando nos contra-ataques e nos erros de passe da defesa brasileira. Aos 34 minutos, Jairzinho avançou pelo centro e driblou três jogadores italianos e toca para Gérson. Este tenta devolver a bola para o avante, mas perde o equilíbrio devido à forte marcação, e só tem tempo de rolar a esférica para Pelé. O Rei enxerga Tostão avançando pela direita e lança para ele, mas o 9 brasileiro chuta fraco e sem perigo para Albertosi.
Aí aos 37, vem a jogada do "volante entregador". A mesma jogada que vitimou Cerezzo em 82. Não tão igual, porque nesse caso, a culpa foi realmente do volante. Começa com Everaldo dominando uma bola afastada pela zaga italiana. O lateral toca para Piazza, que lança para Brito. Este toca de cabeça para Clodoaldo, que sabe-se lá por que cargas d'água tentou um toque de calcanhar para Everaldo, e não viu Boninsegna de seu lado. O avante italiano não teve dificuldades em interceptar a bola e disparar em direção à meta brasileira (parênteses: no momento da jogada, apesar da narração do jogo que tenho gravado ser inglesa, ouvi na mente Geraldo José de Almeida berrando "QUE QUE É ISSO!" nos microfones). A seguir, em toque genial, tira Piazza da jogada. Félix sai da meta para tentar afastar a esférica, mas tromba com Brito. Riva chega na jogada, mas apenas deixa para que Boninsegna, de fora da área e com o gol livre, pela esquerda, tranquilamente chuta rasteiro para o fundo do gol. Era o empate da Azzurra, que refletia bem o equilíbrio que imperava no primeiro tempo.
O jogo fica nervoso, e os italianos começam a arriscar um pouco mais. Aos 43, em jogada envolvendo Boninsegna e Mazzola, a bola sobra para Domenghini, que avança poucos metros pelo centro e desfere um canhotaço potente, também no centro do gol, tal qual a primeira chance de gol da partida. Félix se estica todo e faz uma defesa difícil. E aos 45, um lance interessante: Tostão sofre falta pela esquerda, embora o juiz demore para marcar a infração. Rivelino e um italiano se chutam e o árbitro amarela o brasileiro. Na cobrança da falta, Gérson a manda para a área e, surpreendentemente, ouve-se o apito do final de primeiro tempo. Pelé recebe a bola e a chuta pro gol, mas o árbitro alemão disse que o tento não valera. O rei se desespera com a decisão e sai do gramado reclamando. Com um gol anotado para cada lado, um segundo tempo quente viria por aí.
Para que vocês não achem que eu estou de implicância com a seleção de 70, segue abaixo um vídeo contendo 30 bizarrices cometidas pelos jogadores da Canarinho naquela Copa. Contem os erros cometidos contra a Itália.
Com o placar e o jogo em campo equilibrados, e tendo em vista que o cotejo valia a posse definitiva do troféu mais importante de todos os tempos (abraço, Nobel; Abraço, Oscar), as duas seleções voltaram sem substituições e a todo o gás no segundo tempo, tanto nas chances criadas quanto no nervosismo que, por vezes, descambava pra violência. Mas seria a Canarinho que dominaria as ações do segundo tempo, devido ao fôlego e à criatividade de seus homens da frente.
Logo a dois minutos, o Brasil já chegava: A zaga italiana espana uma bola e a mesma sobra para Jairzinho. Este domina e toca para Carlos Alberto, que disparava pela direita. O capitão chega na linha de fundo e realiza um cruzamento rasteiro, mas não inofensivo: a pelota passara pelos defensores italianos e até por Albertosi, a milímetros (sim, milímetros!) da linha do gol. Pelé chegava pelo centro, deu um carrinho, esticou ao máximo sua perna, mas errara o timing da jogada, lançando a bola pela linha de fundo. Grande chegada da Seleção, e grande chance perdida.
A etapa complementar iniciara tensa, e não aparentava um domínio por parte dos brasileiros, num primeiro momento. Após uma chegada da Itália pela esquerda com Boninsegna, o que obrigou Félix a fazer uma defesa firme, Everaldo errou um passe bobo, que resultou em ataque da Itália, anulado pela zaga. Na sequência, Tostão acertou uma cotovelada em um adversário, que o juiz só não apresentou cartão porque não quis. Na cobrança, Jairzinho recuperou a bola e partiu pro ataque, sendo derrubado. No levantamento pra área, Facchetti puxou Pelé pelo pulso e o Rei caiu. O árbitro mandou o jogo seguir, apenas ouvindo os berros de Pelé pelo pênalti não marcado. Tudo isso num espaço de dois minutos. Quem via, tinha a impressão que, muito em breve, haveria pancadaria e o juiz nada faria para conter os ânimos dos jogadores.
Aos poucos, a Canarinho começou a mostrar seu futebol. Rivelino voltara mais dinâmico e aceso no segundo tempo, Jairzinho infernizava os defensores italianos, Gérson continuava genial e Pelé... Bem, esse dispensa comentários. Aos seis minutos, numa falta da intermediária, Rivelino finalmente mostrou sua patada atômica e quase alvejou Albertosi, que colocou a pelota pela linha de fundo. Na jogada seguinte, envolvendo Gérson e Tostão, este tenta tocar para o rei, mas Facchetti corta temporariamente. No rebote, Pelé mete a cabeça na bola, pertíssimo da linha da área, ao mesmo tempo que Burgnich metia o pé na esférica. Não havia como o lance acabar bem: o Rei foi a nocaute e o árbitro marcou falta, para desespero dos jogadores brasileiros, que queriam a marcação do pênalti. Pudera: o Brasil chegava, mas não conseguia converter. E qualquer chance de gol, nessa hora, seria valiosa.
A Itália ainda teria tempo de esboçar duas subidas pro ataque, que resultaram em chutes medianos a gol, sem perigo para Félix. Já começava a se notar o desgaste da Azzurra, que agora ficava quase que inteiramente no campo de defesa esperando a Canarinho, da mesma maneira que agira na semifinal contra os alemães. Os brasileiros seguiam pressionando, mas não conseguiam concluir com precisão. Pelé cobrara falta de forma bisonha aos 12', Rivelino carimbara a trave aos 14' e a barreira aos 16'. A pelota teimava em não entrar, mas se notava que isso seria uma questão de tempo: a Itália parava de ambicionar a meta de Félix a partir dos 18 minutos, quando realizara seu último ataque perigoso no jogo.
Aos 20', os noventa milhões entraram em ação. Carlos Alberto trazia a pelota pela direita e tocara para Gérson. O meia encontra Everaldo pela esquerda e lança para o lateral, que passa para Jairzinho. O avante tenta vencer a zaga italiana, mas Facchetti o desarma. A esférica sobra para Gérson, que como gostava de levar vantagem em tudo, puxou para a esquerda e, surpreendendo seu marcador, desferiu um balaço de fora da área no ângulo esquerdo de Albertosi, anotando um lindo gol. Seria o início da caminhada ao tri.
Com o gol tomado, a Azzurra tentou reagir, mas não tinha forças para tanto. Tentava chegar, mas não conseguia passar dos defensores brasileiros. Quando surgia uma falta, batia de forma desesperada e pouco efetiva. O Brasil se aproveitava disso: a torcida mexicana começava a gritar a favor, e o jogo fluía de forma mais solta. O título parecia que viria de qualquer forma. Era só esperar o apito final do árbitro.
Houve tempo, ainda, para a violência gratuita. Aos 25, Pelé desferiu um chute em Domenghini no meio campo. O italiano devolveu a agressão com um soco no peito do avante brasileiro, que caiu e simulou uma lesão na perna. Os jogadores de ambas as equipes foram para cima do árbitro, que, omisso, nada fez. Os italianos tentavam catimbar e faziam o que podiam para irritar os brasileiros e desequilibrar a partida a seu favor.
Mas isso não foi o suficiente para impedir o terceiro gol canarinho no minuto seguinte, que surgiu em cobrança de falta de Everaldo. O lateral rolou a bola para Gérson, que avança poucos metros e cruza para a área, em direção a Pelé. O Rei, bem posicionado, cabeceia para o centro da área, e a esférica encontra Jairzinho, tocando em sua canela. Ele ainda tenta desferir o petardo fatal, mas não consegue. Não haveria problema, pois os defensores italianos haviam se complicado, e Albertosi fora vencido pelo toque do avante brasileiro. Era terceiro gol brasileiro, o sétimo de Jairzinho na Copa, o único a anotar em todos os jogos da Seleção no torneio. Mais: era o gol do choro de Tostão no gramado enquanto a partida prosseguia. De Geraldo José de Almeida berrando nos microfones: "OLHA LÁ, OLHA LÁ, OLHA LÁ, OLHÁ LÁÁÁÁ!! NO PLACAR, NO PLACAR!!!" da certeza do tricampeonato. Da posse definitiva da Jules Rimet.
A Azzurra teria que ser mais épica do que foi contra a Alemanha nas semifinais. Mas os contra-ataques não surgiam, os erros de passe eram frequentes, e o fôlego terminara. Mazzola e Boninsegna sumiram, Riva troteava em campo. E ainda faltavam vinte minutos para o fim. Os brasileiros, crentes na conquista, já demonstravam toda a alegria no rosto, e é difícil não se emocionar com o momento, mesmo assistindo a partida quarenta anos depois. E abusavam do momento: Rivelino pegara a pelota e aplicara três elásticos no defensor Bertini, antes de passar para Gerson concluir com uma bomba defendida por Albertosi.
É clara a impressão de que todos estão esperando, apenas, o fim da partida. O Brasil joga no campo de ataque, mata o tempo, enquanto a Itália tenta uma reação inútil. Haveria tempo, ainda, para mais um gol, aos 42'. Como se estivesse dando tapa em bêbado, Clodoaldo dribla três jogadores italianos pela esquerda e lança para Rivelino. Este toca para Jairzinho, que tenta penetrar na área adversária, mas sem conseguir, lança Pelé pela direita. O Rei, esperto, já havia visto Carlos Alberto disparando pela direita e só rola para ele desferir um tirambaço rasteiro, fazendo a grama pegar fogo e fuzilando o canto direito de Albertosi. Era o placar sacramentado.
Ninguém conseguia segurar a comemoração. Os fotógrafos invadem o campo e infestam a grande área, tirando fotos e tentando entrevistar os jogadores antes do final da partida. O árbitro alemão não reinicia a partida antes que todos os jornalistas saiam. Os torcedores mexicanos, em uma cena simbólica, acenam com seus sombreros nas arquibancadas, pedindo o final do jogo. Vários jogadores, jornalistas e pessoas da comissão técnica ficam à beira do gramado, aguardando o apito final. O juiz, firme, deixa o jogo rolar até os 46, e talvez deixasse que fosse mais longe, até. Mas um torcedor mexicano, com sombrero e roupas pretas, invade o gramado e corre em direção a Pelé. Ali, o árbitro vira que não teria mais condições de continuar, e aponta para a marca central, selando o tricampeonato da Seleção Brasileira.
Pelé era cercado por centenas de fãs, que logo arrancaram sua camisa e o alçaram para o alto, carregando-o ao redor do Azteca e colocando um sombrero em sua cabeça. O mesmo acontecia com Tostão. Félix, irritado, quase saiu aos socos com um torcedor, e Gérson largou suas chuteras no gramado, deixando que os torcedores brigassem por elas. Todos sabiam o que significava aquele momento. Era sublime. Perfeito. Único.
Após a euforia, os jogadores se abraçam. Zagallo chora com a conquista, e Carlos Alberto Torres iça a Jules Rimet para o alto. Foi o último jogador a alçar aquele troféu para o alto na história.
Um jogo de fortes emoções no primeiro tempo, mas de certeza no segundo. Um clássico do futebol mundial para decidir o maior dos títulos em definitivo. Um público de cem mil pessoas extasiado com cinco gols em uma final de Copa. A última partida de Pelé no torneio. É pouco para resumir este onírico Brasil x Itália de 1970. Uma emoção única, onde só os presentes naquele estádio puderam desfrutar da beleza do momento, assistido por outros tantos milhões em ação no território brasileiro. Uma emoção que se repetiria, igualmente, no mesmo clássico, na mesma porção do continente, vinte e quatro anos depois.
Aos 20', os noventa milhões entraram em ação. Carlos Alberto trazia a pelota pela direita e tocara para Gérson. O meia encontra Everaldo pela esquerda e lança para o lateral, que passa para Jairzinho. O avante tenta vencer a zaga italiana, mas Facchetti o desarma. A esférica sobra para Gérson, que como gostava de levar vantagem em tudo, puxou para a esquerda e, surpreendendo seu marcador, desferiu um balaço de fora da área no ângulo esquerdo de Albertosi, anotando um lindo gol. Seria o início da caminhada ao tri.
Com o gol tomado, a Azzurra tentou reagir, mas não tinha forças para tanto. Tentava chegar, mas não conseguia passar dos defensores brasileiros. Quando surgia uma falta, batia de forma desesperada e pouco efetiva. O Brasil se aproveitava disso: a torcida mexicana começava a gritar a favor, e o jogo fluía de forma mais solta. O título parecia que viria de qualquer forma. Era só esperar o apito final do árbitro.
Houve tempo, ainda, para a violência gratuita. Aos 25, Pelé desferiu um chute em Domenghini no meio campo. O italiano devolveu a agressão com um soco no peito do avante brasileiro, que caiu e simulou uma lesão na perna. Os jogadores de ambas as equipes foram para cima do árbitro, que, omisso, nada fez. Os italianos tentavam catimbar e faziam o que podiam para irritar os brasileiros e desequilibrar a partida a seu favor.
Mas isso não foi o suficiente para impedir o terceiro gol canarinho no minuto seguinte, que surgiu em cobrança de falta de Everaldo. O lateral rolou a bola para Gérson, que avança poucos metros e cruza para a área, em direção a Pelé. O Rei, bem posicionado, cabeceia para o centro da área, e a esférica encontra Jairzinho, tocando em sua canela. Ele ainda tenta desferir o petardo fatal, mas não consegue. Não haveria problema, pois os defensores italianos haviam se complicado, e Albertosi fora vencido pelo toque do avante brasileiro. Era terceiro gol brasileiro, o sétimo de Jairzinho na Copa, o único a anotar em todos os jogos da Seleção no torneio. Mais: era o gol do choro de Tostão no gramado enquanto a partida prosseguia. De Geraldo José de Almeida berrando nos microfones: "OLHA LÁ, OLHA LÁ, OLHA LÁ, OLHÁ LÁÁÁÁ!! NO PLACAR, NO PLACAR!!!" da certeza do tricampeonato. Da posse definitiva da Jules Rimet.
A Azzurra teria que ser mais épica do que foi contra a Alemanha nas semifinais. Mas os contra-ataques não surgiam, os erros de passe eram frequentes, e o fôlego terminara. Mazzola e Boninsegna sumiram, Riva troteava em campo. E ainda faltavam vinte minutos para o fim. Os brasileiros, crentes na conquista, já demonstravam toda a alegria no rosto, e é difícil não se emocionar com o momento, mesmo assistindo a partida quarenta anos depois. E abusavam do momento: Rivelino pegara a pelota e aplicara três elásticos no defensor Bertini, antes de passar para Gerson concluir com uma bomba defendida por Albertosi.
É clara a impressão de que todos estão esperando, apenas, o fim da partida. O Brasil joga no campo de ataque, mata o tempo, enquanto a Itália tenta uma reação inútil. Haveria tempo, ainda, para mais um gol, aos 42'. Como se estivesse dando tapa em bêbado, Clodoaldo dribla três jogadores italianos pela esquerda e lança para Rivelino. Este toca para Jairzinho, que tenta penetrar na área adversária, mas sem conseguir, lança Pelé pela direita. O Rei, esperto, já havia visto Carlos Alberto disparando pela direita e só rola para ele desferir um tirambaço rasteiro, fazendo a grama pegar fogo e fuzilando o canto direito de Albertosi. Era o placar sacramentado.
Ninguém conseguia segurar a comemoração. Os fotógrafos invadem o campo e infestam a grande área, tirando fotos e tentando entrevistar os jogadores antes do final da partida. O árbitro alemão não reinicia a partida antes que todos os jornalistas saiam. Os torcedores mexicanos, em uma cena simbólica, acenam com seus sombreros nas arquibancadas, pedindo o final do jogo. Vários jogadores, jornalistas e pessoas da comissão técnica ficam à beira do gramado, aguardando o apito final. O juiz, firme, deixa o jogo rolar até os 46, e talvez deixasse que fosse mais longe, até. Mas um torcedor mexicano, com sombrero e roupas pretas, invade o gramado e corre em direção a Pelé. Ali, o árbitro vira que não teria mais condições de continuar, e aponta para a marca central, selando o tricampeonato da Seleção Brasileira.
Pelé era cercado por centenas de fãs, que logo arrancaram sua camisa e o alçaram para o alto, carregando-o ao redor do Azteca e colocando um sombrero em sua cabeça. O mesmo acontecia com Tostão. Félix, irritado, quase saiu aos socos com um torcedor, e Gérson largou suas chuteras no gramado, deixando que os torcedores brigassem por elas. Todos sabiam o que significava aquele momento. Era sublime. Perfeito. Único.
Após a euforia, os jogadores se abraçam. Zagallo chora com a conquista, e Carlos Alberto Torres iça a Jules Rimet para o alto. Foi o último jogador a alçar aquele troféu para o alto na história.
Um jogo de fortes emoções no primeiro tempo, mas de certeza no segundo. Um clássico do futebol mundial para decidir o maior dos títulos em definitivo. Um público de cem mil pessoas extasiado com cinco gols em uma final de Copa. A última partida de Pelé no torneio. É pouco para resumir este onírico Brasil x Itália de 1970. Uma emoção única, onde só os presentes naquele estádio puderam desfrutar da beleza do momento, assistido por outros tantos milhões em ação no território brasileiro. Uma emoção que se repetiria, igualmente, no mesmo clássico, na mesma porção do continente, vinte e quatro anos depois.
Melhores momentos o vivente pode assistir abaixo (Geraldo José de Almeida os abençoe):
COPA DO MUNDO 1970 – Final BRASIL 4x1 ITÁLIA Local: Azteca (Cidade do México); Juiz: Rudolf Gloeckner (ALE); Público: 107 412; Gols: Pelé 18' e Boninsegna 37' do primeiro tempo; Gerson 21', Jairzinho 26' e Carlos Alberto Torres 41' do segundo tempo; Cartão amarelo: Rivelino (B) e Burgnich (I) BRASIL: Félix; Carlos Alberto, Brito, Piazza e Everaldo; Clodoaldo, Gérson e Rivelino; Jairzinho, Pelé e Tostão. Técnico: Mário Jorge Lobo Zagallo. ITÁLIA: Albertosi; Burgnich, Cera, Rosato e Facchetti; Sisti, Bertini (Giuliano) e Domenghini; Boninsegna (Rivera), Riva e Mazzola. Técnico: Ferruccio Valcareggi. Fotos: Getty Images

Comentários
Mas o prof.Girafales tá genial
Obviamente que não vou dizer o clássico clichê "impossível imaginar tudo isso? Pois essa partida aconteceu", como qualquer jornalista da Grande Imprensa que não entende nada do podobálio mundial.
Mas o prof.Girafales tá genial
(2)
E como fui eu quem postei o artigo no blog, vi a do Prof. Girafales antes de todo mundo. Contrações abdominais de tanto rir =P
Excelente, Fred.