Relatos porteños


Aproveitei a breve passagem por Buenos Aires para conhecer o Estádio Antonio Vespúcio Liberti, conhecido mundialmente como Monumental de Nuñez, palco do River Plate e da seleção argentina. Apesar de visitar frequentemente a cidade, foi curiosamente a primeira vez que entrei em uma cancha por lá. Antes, apenas a Bombonera, mas mesmo assim pelo lado de fora.

É inacreditável que um estádio da importância do Monumental, localizado numa região distante do centro de Buenos Aires, enfrente tantas dificuldades de acesso. Só se chega à cancha, basicamente, de carro. A linha de metrô mais próxima deixa os torcedores há nada menos que 16 quadras de lá, quase dois quilômetros de distância. Foi preciso, portanto, tomar o Subte, descer na última parada e tomar um táxi de lá até a Av. Figueroa Alcorta, seu endereço. Menos mal que o peso argentino anda desvalorizado perante o real, e a corrida de AR$ 12 saiu por equivalentes R$ 6, preço irrisório se comparado aos táxis brasileiros. Se não fizéssemos esta engenharia toda, pagaríamos do hotel, no bairro do Retiro, ao estádio, pelo menos AR$ 40 para cobrir os nove quilômetros do trajeto.

Vencida esta dificuldade, passamos primeiro pelo Museo de River, que conta toda a sua história década por década, sempre relacionando os feitos do clube com fatos da época. Nos anos 50, por exemplo, há uma réplica de um carro de Juan Manuel Fangio, lendário piloto argentino pentacampeão mundial de Fórmula-1. Os destaques, evidentemente, são as galerias dos anos 80 e 90, período mais rico da história do clube. A década de 60, na qual os millonarios passaram em branco e acumularam nada menos que oito vice-campeonatos, é completamente esquecida. Trata-se de um museu em nível semelhante ao dos clubes europeus, muito superior ao dos poucos brasileiros que vi até hoje. O museu do Grêmio, por exemplo, restaurado em 2004, ainda está alguns passos atrás.

O estádio tem estrutura interna semelhante aos brasileiros, tanto em tamanho quanto em conservação. Por dentro, é imponente: em comparação com os nossos, parece mais acanhado, mas é muito mais alto. Faz menos pressão que a Bombonera, mas certamente mais que todos os grandes estádios daqui. A distância da torcida para o campo não é tão imensa como parece, e a altura da construção impressiona.

Em termos de conservação, há partes extremamente bem cuidadas (lembrando que é o estádio onde joga a seleção argentina), e outras nem tanto. As cadeiras não são muito confortáveis e a grama estava com um aspecto seco e duro, apesar de boa. Não pudemos entrar nas cabinas de imprensa. Como não há fosso, o que separa a torcida do campo é uma grade e uma cerca de arame farpado, algo já superado nos melhores estádios brasileiros.


Naturalmente, apesar de ser a casa da Argentina joga, não há qualquer referência ao xeneize Maradona no espaço da AFA dentro do estádio. O River Plate utiliza a seção para homenagear os seus campeões do mundo, como o atual presidente do clube, Daniel Passarella. Outro jogador que mereceu destaque foi D’Alessandro: aparece em uma seção de chuteiras de ouro, que homenageia os grandes craques do passado do clube, e ainda participou de um vídeo que conta a história do River.

A crise dos grandes
O futebol argentino vive um momento peculiar no que diz respeito a seus clubes. Equipes pequenas têm abocanhado os títulos nacionais. Sempre há pelo menos uma disputando a taça: já a ganharam recentemente Lanús e Banfield; o Tigre foi vice-campeão no final de 2008; e agora o Godoy Cruz está a um passo de tomar a liderança das mãos do gigante Independiente, bem como o Argentinos Juniors, time já campeão da América nos anos 80, mas há tempos adormecido em péssimas temporadas.

A rivalidade em Avellaneda se acirrou esta semana de forma parecida com a de Porto Alegre no final do ano passado (aliás, se há imagem impressionante ao chegarmos de avião é ver os dois estádios, um azul e outro vermelho, colados). Se o Racing vencesse o Godoy Cruz no meio de semana, ajudaria o Independiente a manter-se na ponta. Empatou sem gols, mas a derrota dos Rojos para o cambaleante San Lorenzo em casa coloca o atual líder em situação difícil, podendo cair para o terceiro lugar após a rodada de hoje.

Mas complicada mesmo é a fase de Boca e River. Ninguém se atreve a tocar flautas. O poderoso clube da Bombonera é penúltimo, com 11. Abel Alves, técnico até a última quinta, atritou-se com vários jogadores e deixou o cargo após os 3 a 0 sofridos diante do Colón. Já o River é 17º colocado, e pode ficar em situação dramática a partir da temporada que vem, quando sua média de pontos será baixa e o clube deverá lutar contra o rebaixamento. Pensa-se em trocar todo o plantel. Passarella pensa em contratar grandes reforços. D’Alessandro é o primeiro deles.

Fotos: Vicente Fonseca.

Comentários

André Kruse disse…
Trata-se de um museu em nível semelhante ao dos clubes europeus, muito superior ao dos poucos brasileiros que vi até hoje. O museu do Grêmio, por exemplo, restaurado em 2004, ainda está alguns passos atrás.

Fiquei curioso agora. Eu visitei o museu do Barça e do Real e saí com a sensançao de que, guardada as proporçoes, o museu do Grêmio não está tao distante. Precisaria de alguns poucos ajustes para se igualar (museu do Grêmio carece de maior espaço físico).

Seria interessante se alguém fizesse o comparativo com o recém inagurado museu do beira rio.
Vicente Fonseca disse…
O museu do River é muito bem cuidado e moderno, com grande espaço. Só é inferior ao Museu do Futebol do Pacaembu, que não pertence a clube algum.

O problema do museu do Grêmio é justamente a falta de espaço físico. Em termos de história do clube e informações, está no mesmo patamar destes.

Não visitei o museu do Barça, mas este do River é de nível parecido com o do Real Madrid e bem superior ao do Ajax - embora o tour pelos estádios europeus (que incluem o restante da visita) sejam, em si, bem superiores.
Vicente Fonseca disse…
Esqueci de mencionar no texto que os clubes argentinos são até disciplinados na Libertadores quando fazem intervalos de 20 minutos. Em um dos jogos (não lembro qual) que vi por lá, o entretiempo durou nada menos que 32 MINUTOS. As TVs chegam a cronometrar o tempo de intervalo, tal o absurdo.
Prestes disse…
Bah, 32 minutos é muita falta de respeito com o torcedor.