Messiânico

Lionel Messi é tão fantástico que os demais craques do Barcelona parecem, todos eles, menores do que realmente são. Em todos os quatro gols que marcou, o argentino mostrou qualidades diferentes: no primeiro, um chute potente, certeiro, além de uma rapidez na definição da jogada raríssima; no segundo, oportunismo puro; no terceiro, velocidade e qualidade na definição; no quarto, persistência.

O que este rapaz de 22 anos vem fazendo talvez eu nunca tenha visto. Talvez Barcelona x Arsenal fosse um grande confronto, parelho, sem ele. Com ele, vira covardia. Não devia valer. Não por acaso, Arsene Wenger, técnico dos gunners, disse que Messi é um jogador de Playstation. Verdade pura. Não se trata de um jogador comum, definitivamente.

Mas é preciso ressaltar algo mais além dele. O Barcelona é a melhor utilização do futebol total desde a Laranja Mecânica de Cruyff e Michels. Um time que joga tão junto que a distância entre o último zagueiro e o centroavante pode ser, dependendo do caso, inferior a 30 metros. Um time de alta rotatividade, troca de posições, pressão forte na saída de bola adversária. Todos sabem onde devem estar a cada instante. Todos marcam e atacam, sempre com perfeita sincronia e coordenação. Só Messi é peça livre. Parece não ter posição definida, mas é justamente o contrário: ele tem todas as posições que quiser. Joga livre, no bom sentido: sem a bola, corre atrás dos zagueiros e marca a saída de bola adversária com o afinco do mais troncudo volante de contenção; mas, com ela, faz o que quiser. Literalmente.

O jogo de hoje, por momentos, lembrou aquele Holanda x Uruguai de 1974. A bola era toda do Barça, que tonteava os ingleses. Quando estes recuperavam a posse, logo a devolviam, sem ter o que fazer, tão forte era a pressão. No primeiro tempo, os catalães obtiveram 67% de posse de bola, sua (altíssima) média habitual. Trocaram mais de 200 passes, com índice de acertos superior a 80%. Os londrinos trocaram somente 81 passes, acertando apenas 61%. Números que exprimem com exatidão o que quero dizer. Jogo do Barcelona é isso: do Barcelona. Só ele joga, a princípio.

Por isso é tão difícil jogar contra o Barcelona. Dar a posse de bola a eles é suicídio. Mas atacá-los pode ser uma faca de dois gumes: qualquer erro pode resultar num contra-golpe fatal. Afinal, se dar a bola na retranca já é problemático, ceder a posse dela e ainda conceder espaços é assinar embaixo a derrota por antecipação. Não bastasse toda essa qualidade coletiva ímpar, há Messi. E Xavi. E Iniesta. E Pedro. E Daniel Alves. Ibrahimovic e Henry, craques em nível mundial, nem jogaram hoje. Guardiola pôde prescindir deles.

Barcelona 4, Arsenal 1. Quatro gols de Messi. E já alertei aqui, no 2 a 2 de quarta passada, que o empate fora muito enganoso, pois os espanhóis simplesmente encurralaram os ingleses em pleno Emirates Stadium. Qualquer time pode ser batido, e o futebol é bonito por isso. Mas haja o que houver, ganhe a Liga dos Campeões quem ganhar, a melhor equipe do mundo hoje é, de longe, a de Josep Guardiola; e o melhor jogador do planeta, bem, vocês sabem. Nem a Copa do Mundo e suas nuances especiais será capaz de causar grandes dúvidas quanto a isso. Afinal de contas, o Barcelona e Lionel Messi, atualmente, não são deste mundo.

Corrientes, 348
Viajo hoje a Buenos Aires, retorno no domingo. Apenas saberei o que acontece em Porto Alegre, mas sem poder acompanhar de perto. O trabalho por aqui, obviamente, seguirá seu ritmo normal, com nossos colaboradores assumindo a bronca enquanto eu estiver fora. Algum relato portenho, evidentemente, poderá ser feito, durante ou após este retiro.

¡Hasta pronto!

Foto: Messi comemora um de seus quatro gols na noite mágica do Camp Nou (Globo Esporte).

Comentários

Unknown disse…
morra, messi.
inútil.

lúcio salvará. só duas: uma tira da champions, outra tira da copa.
Prestes disse…
Não tem como não dar a posse de bola pro Barça, só tendo a qualidade de passe equivalente a deles. Difícil.

Messi jogou demais, mas o Arsenal não conseguiu mudar sua proposta de jogo ao ver que estava errada. Não tem sentido deixar dois atacantes (Bendtner e Walcott) cercando a zaga do Barcelona.

Pra jogar contra o Barça tem q recuar todo o time pro próprio campo, senão tu fica cercando e a zaga já mete no Xavi, no Busquets, em igualdade de condições contra teus meias. Tem q apertar mais o espaço, não dar espaço pro meio-campo deles.

Quanto ao Messi, tem q ter marcação mista. Individual, mas por jogadores diferentes, dependendo do lado em que ele estiver.

Pra atacar o Barça tem q ser vertical. Abrir pontas rápidos e lançar. Tem q ter qualidade absurda pra se livrar da marcação pressão do Barça no toque de bola. Em compensação, os laterais e o meio-campo deles correm pra atacar a defesa adversária, deixando espaço prum lançamento certeiro pegar a zaga deles em maus lençois.
Prestes disse…
Me lembro que eu e outros aqui criticamos o Mourinho por jogar entrincheirado contra o Barça em Milão na fase de grupos.

Agora eu acho que ele estava certo, só falta arrumar melhor o contra-ataque.
Igor Natusch disse…
Gostei da ideia de projetar um time para encarar o Barcelona, e de modo geral concordo com o Prestes. Não acredito nisso de time imbatível, mas querer ganhar do Barça jogando "sem medo" é pedir para tomar goleada, não importa o quão qualificado seja o teu time. Tem que armar um esquema muito competente de contenção, trancar o jogo mesmo, enchendo os espaços do meio para trás, e sem jamais se expor. Sair com a bola dominada contra o Barcelona, por ex, simplesmente NÃO EXISTE. Sério, eu acho que é melhor até dar o chutão para a frente e segurar na mão de Deus do que querer organizar jogadas contra um time desses. Nem é questão de reter a posse de bola, ter um toque de bola rápido ou cadenciado ou qualquer coisa assim - tocar a bola contra o Barça, especialmente nesse momento em que estão jogando toda essa bola absurda, simplesmente NÃO FUNCIONA.

Se fosse eu, escalava um 3-6-1 (abraço, Fossati) com dois caras muito rápidos fincados nas laterais, capazes de contra atacar com agudez. Contra ataque é a chave para vazar a defesa do Barça - e fechar espaços, muito mais do que marcar jogadores, é fundamental. O Messi, mesmo - ficar correndo atrás dele campo adentro é bom como exercício físico intenso, mas ineficiente para qualquer coisa parecida com impedi-lo de jogar. Revezar marcadores nele, tipo um dá o combate num primeiro lance e outro vai no seguinte, talvez fosse uma. E tem que seguir a lição do Claudião Duarte e aplicar o PEGA RATÃO na defesa - NINGUÉM PASSA DA INTERMEDIÁRIA DO PRÓPRIO CAMPO, independente das circunstâncias.

E tipo, percebam que estou brincando de FM aqui e plenamente consciente disso - se os grandes técnicos da Europa não conseguem deter o Barça, não sou eu com meia dúzia de palpites que vou dar a letra. Mas que eu acho que o "approach" para encarar o Barcelona está sendo errado - e no caso do Arsenal foi pateticamente equivocado - acho mesmo...
Prestes disse…
E o problema de tentar jogar contra o Barça nem é a bola que eles estão jogando, mas sim como DESARMAM.

O Barcelona deve ser o time que mais desarma no mundo atualmente.
Prestes disse…
Claro, aí vem o segundo passo:

o que eles fazem depois que te roubam a bola tb não é legal, uasdasuhdasuhdsuhdsuhd