Acostumados com a frustração
Por Igor Natusch*
Se há uma sensação que a torcida da Portuguesa conhece como poucas nesse país é o sabor amargo da frustração. Esqueçam os dramas midiáticos de Globo Esporte, os vídeos emocionados de corintianos amargurados e vascaínos sem rumo, as batalhas dos aflitos e os times que perdem vagas e títulos que estavam na mão – tudo isso, bem ou mal, foi ou será transitório na existência dos clubes envolvidos. Difícil mesmo é conviver com a falta de perspectivas, com a ausência crônica de motivos para comemorar; difícil é ver seu clube ter no cartel solitários três títulos estaduais (o último ganho numa confusão de arbitragem há mais de trinta e cinco anos), perder um título nacional em uma partida na qual podia até ser derrotado em um gol para ser campeão e ficar mais de década sem sequer chegar nas fases decisivas do estadual. No último domingo, rumei para o Canindé para a cobertura do jogo da Lusa contra o Santo André pensando em relatar um fato incomum na vida da Portuguesa – um triunfo, uma vitória, um motivo de comemoração para os sofridos torcedores de um dos clubes mais simpáticos do país. Porém, me vejo agora na posição de relatar um acontecimento bem mais banal na história do clube – ou seja, um insucesso. Seja como for, tratou-se de um belo jogo de futebol, cheio de drama e emoção, daqueles que rende muito mais que uma ficha técnica e um resumo de lances de gol.
Já na chegada ao Canindé (um estádio de fácil acesso, próximo do metrô e servido por inúmeras linhas de ônibus) era possível sentir um clima diferente, uma sensação agradável de estar cercado de animação e confiança vinda de pessoas que sinceramente não estão acostumadas a confiar muito no seu time. Havia um sabor quase provinciano de festa popular no ar, muito diferente do clima de batalha (no bom sentido) que se pode sentir em jogos decisivos no Olímpico e no Beira Rio, para citar exemplos próximos dos leitores. O estádo tinha bom público, mas estava longe da lotação – e a torcida presente era, digamos, singular. Graças à promoção do clube, que dava acesso gratuito a mulheres e crianças acompanhadas de homens pagantes, tínhamos uma enorme quantidade de mulheres no Canindé – muitas senhoras, mas também muitas adolescentes e jovens mulheres, algumas bastante bonitas, diga-se de passagem. E muitos, muitos senhores acima dos cinquenta anos – ao meu lado sentou-se um velhote de cabelos branco-amarelados, vestido com uma camisa antiquíssima do clube e que ficou longos minutos xingando as administrações anteriores da Lusa, lembrando de fatos que recuavam ao título de 1973 ou ainda mais longe. A única torcida organizada, os Leões da Fabulosa estavam empolgados e cantaram durante quase todo o jogo – nada parecido com a atitude quase autista de uma Geral do Grêmio, mas era um espetáculo bonito de ver. E para todos os lados que se olhasse era essa bonita festa de vermelho e verde, tão contagiante que durante os noventa minutos fui praticamente um torcedor da Portuguesa, tomado por essa sensação de entrega quase ingênua a uma torcida apaixonada e quase irresponsável, confiante num sucesso depois de tantos fracassos. Crianças corriam nos espaços vazios das arquibancadas, famílias levaram seus bebês de colo para o jogo, em tudo o jogo decisivo parecia mais com uma grande festa familiar – e tudo isso dava ao confronto um ar desanuviado e leve que era sem dúvida bastante agradável.
Depois de uma apresentação a cargo das cheerleaders dos dois times (algumas delas muito graciosas, mas a coisa toda é sinceramente um tanto brega), eis que as equipes entram em campo e o jogo tem início. Desfalcado de Athirson – que atualmente é sem dúvida o centro criativo do time, tendo uma liberdade imensa para jogar no esquema de Paulo Bonamigo – a Lusa colocou Preto em campo, escalando Wilton Goiano como um ala mais típico e deslocando César Prates para a esquerda. No início, essa idéia funcionou muito bem – afinal, desde o apito inicial a Lusa foi senhora do jogo, tomando controle das ações e amassando um Santo André confuso e sem iniciativa. A maioria das jogadas era pelo lado direito, onde a defesa adversária era especialmente frágil – mas foi pelo meio que o primeiro gol surgiu aos 22 minutos, em um lançamento primoroso de Ygor nos pés de Edno, que avançou às trombadas como um tanque de guerra e colocou Christian na cara do gol, sem chances para o arqueiro Neneca. Edno, aliás, que está jogando demais, teve uma partida iluminada e será excelente contratação para qualquer clube que conseguir tirá-lo do Canindé. Sete minutos depois, a festa se multiplica: em lançamento de Preto, o mesmo Edno invade a área e fuzila sem piedade. Eram menos de 30 minutos, dois a zero no placar, e a classificação da Portuguesa para as semifinais estava muito próxima.
Com o intervalo, chegou a chuva – de início suportável, depois mais forte, e como uma grade me impedia de acessar a área coberta do pequeno estádio e pagar 10 reais numa capa de chuva vagabunda não me pareceu uma opção, acabei tomando um caldo mesmo, sem reclamar. Jornalismo também é sacrifício, pois não. Como eu não tinha rádio, fui acompanhando o desenrolar de Ponte Preta x Santos pela reação do público – e foi assim que soube, pouco antes do fim da primeira etapa, que o Peixe tinha feito 1 a 0 e estava próximo de colocar água no chopp da Lusa, mesmo que a primeira etapa tenha sido toda rubro-verde. Porém, a mudança viria no jogo – e ela atendeu pelo nome de Ricardo Goulart. Substituindo o inútl Onsy, o reserva colocou fogo na partida e ressuscitou o Santo André, deixando a defesa da casa desnorteada com suas avançadas velozes e surpreendentes. Na tentativa de detê-lo, a Portuguesa recuou e cedeu espaços, o que nós sabemos que os Deuses do Futebol não costumam perdoar. E assim foi, como na profecia: aos 7 minutos, Marcelinho Carioca (que teve atuação apagada e foi muito “elogiado” por todos ao ser substituído por Moraes) chutou cruzado, ninguém interveio e Antonio Flavio meteu para as redes. O gol só não desanimou a torcida porque a macaca se encarregou de virar o jogo contra o Santos, o que deixava a massa ensandecida e a Lusa com folga de um empate para se classificar. Mas o descontrole emocional era visível: aos 15, Marcel colocou a bola de cabeça na trave de Fábio, aos 17 um chute do ex-narcotraficante Pablo Escobar foi salvo em cima da linha e, aos 19, o mesmo Escobar cobrou uma falta na trave da Portuguesa. O Santo André agora mandava no jogo – e se empolgou de tal maneira com essa superioridade que colocou o time todo para a frente, abrindo generosos espaços para que a Lusa pudesse contra-atacar e fazer o gol que traria o desafogo.
Porém, acredito que nesse momento caiu sobre os jogadores rubro-verdes o mui famoso e pouco reconhecido “medo de ser feliz”. Depois de finalmente achar a marcação, com oportunidades claras de matar o jogo em um simples contragolpe, a Lusa continuou nervosa e afobada na frente, transformando cruzamentos em balões e conclusões a gol em atentados contra as placas de publicidade. Mais do que vontade de vencer, era um temor irracional que guiava as tentativas atabalhoadas de gol – lances de ataque movidos mais por ânsia do que por ambição, se é que me entendem. Enquanto isso, o Santos reagia, fazendo 2 a 2 e ficando a um único gol da classificação. O clima festivo havia sumido do Canindé, e cedido espaço a uma sensação desagradavelmente comum – a de ver a esperança de sucesso escorrendo como água entre os dedos. Faltava só um gol para a Portuguesa garantir a vaga, de qualquer modo – e esse gol poderia ter saído, se o time da casa colocasse a cabeça no lugar e a bola no chão. Mas tudo estava mergulhado em dramaticidade, e já entrávamos nos descontos no Canindé quando Kleber Pereira fez de pênalti o gol que dava ao Santos a vitória, e obrigava a Lusa a marcar o terceiro para se classificar. Depois de várias chances abortadas por puro nervosismo, Héverton perdeu um gol incrível no finalzinho, chutando errado quando apenas Neneca tentava de modo impotente evitar o golpe fatal. Em resumo, faltou calma, faltou pontaria, faltou confiança, faltou muita coisa para que a Portuguesa fosse além do medo de perder e alcançasse o sucesso que tanto almejava. Logo veio o apito final, selando o destino do rubro-verde – um destino ingrato, convenhamos, e que a chuva emoldurava em um quadro melancólico digno de uma música de Nick Cave.
Curiosamente, no entanto, a coisa não era encarada pela torcida desclassificada com tanto desconsolo quanto seria de se esperar – de fato, havia um conformismo quase trágico no ar, simbolizado brilhantemente pela frase de um pai de família saindo do estádio: “é foda, conosco nunca dá certo, mas que jeito?”. A torcida da Lusa, embora triste com o frustrante e repentino desfecho de seu sonho, parecia conformada com seu destino, de tal modo que o fracasso era encarado quase como a confirmação de uma suspeita, não revelada mas sempre presente. Vi apenas uma jovem torcedora chorando, amparada por alguns amigos; no mais, era uma tristeza muda e branda, nada que vá render matérias espetaculares na TV ou qualquer coisa do tipo. Não era uma torcida alquebrada, portanto - era uma torcida, antes de tudo, conformada, que ouviu os gritos de “segunda divisão” dos visitantes e aguentava com estoicismo a dor da eliminação. De certo modo, tudo havia voltado ao normal no Canindé – e se isso nos traz uma lição, talvez seja a de que nem sempre é o triunfo que dignifica o homem. Afinal, aquela pequena grande tragédia de domingo estava tomada de dignidade – o que nos faz desejar que, um dia, a Portuguesa consiga romper com essas correntes e achar a si mesma não no insucesso, e sim na conquista. No caso do Paulistão, ficou para o ano que vem.
* Igor Natusch é jornalista, reside em São Paulo e é o setorista do Carta na Manga sobre o futebol paulista, especialmente a Lusa.
Se há uma sensação que a torcida da Portuguesa conhece como poucas nesse país é o sabor amargo da frustração. Esqueçam os dramas midiáticos de Globo Esporte, os vídeos emocionados de corintianos amargurados e vascaínos sem rumo, as batalhas dos aflitos e os times que perdem vagas e títulos que estavam na mão – tudo isso, bem ou mal, foi ou será transitório na existência dos clubes envolvidos. Difícil mesmo é conviver com a falta de perspectivas, com a ausência crônica de motivos para comemorar; difícil é ver seu clube ter no cartel solitários três títulos estaduais (o último ganho numa confusão de arbitragem há mais de trinta e cinco anos), perder um título nacional em uma partida na qual podia até ser derrotado em um gol para ser campeão e ficar mais de década sem sequer chegar nas fases decisivas do estadual. No último domingo, rumei para o Canindé para a cobertura do jogo da Lusa contra o Santo André pensando em relatar um fato incomum na vida da Portuguesa – um triunfo, uma vitória, um motivo de comemoração para os sofridos torcedores de um dos clubes mais simpáticos do país. Porém, me vejo agora na posição de relatar um acontecimento bem mais banal na história do clube – ou seja, um insucesso. Seja como for, tratou-se de um belo jogo de futebol, cheio de drama e emoção, daqueles que rende muito mais que uma ficha técnica e um resumo de lances de gol.
Já na chegada ao Canindé (um estádio de fácil acesso, próximo do metrô e servido por inúmeras linhas de ônibus) era possível sentir um clima diferente, uma sensação agradável de estar cercado de animação e confiança vinda de pessoas que sinceramente não estão acostumadas a confiar muito no seu time. Havia um sabor quase provinciano de festa popular no ar, muito diferente do clima de batalha (no bom sentido) que se pode sentir em jogos decisivos no Olímpico e no Beira Rio, para citar exemplos próximos dos leitores. O estádo tinha bom público, mas estava longe da lotação – e a torcida presente era, digamos, singular. Graças à promoção do clube, que dava acesso gratuito a mulheres e crianças acompanhadas de homens pagantes, tínhamos uma enorme quantidade de mulheres no Canindé – muitas senhoras, mas também muitas adolescentes e jovens mulheres, algumas bastante bonitas, diga-se de passagem. E muitos, muitos senhores acima dos cinquenta anos – ao meu lado sentou-se um velhote de cabelos branco-amarelados, vestido com uma camisa antiquíssima do clube e que ficou longos minutos xingando as administrações anteriores da Lusa, lembrando de fatos que recuavam ao título de 1973 ou ainda mais longe. A única torcida organizada, os Leões da Fabulosa estavam empolgados e cantaram durante quase todo o jogo – nada parecido com a atitude quase autista de uma Geral do Grêmio, mas era um espetáculo bonito de ver. E para todos os lados que se olhasse era essa bonita festa de vermelho e verde, tão contagiante que durante os noventa minutos fui praticamente um torcedor da Portuguesa, tomado por essa sensação de entrega quase ingênua a uma torcida apaixonada e quase irresponsável, confiante num sucesso depois de tantos fracassos. Crianças corriam nos espaços vazios das arquibancadas, famílias levaram seus bebês de colo para o jogo, em tudo o jogo decisivo parecia mais com uma grande festa familiar – e tudo isso dava ao confronto um ar desanuviado e leve que era sem dúvida bastante agradável.
Depois de uma apresentação a cargo das cheerleaders dos dois times (algumas delas muito graciosas, mas a coisa toda é sinceramente um tanto brega), eis que as equipes entram em campo e o jogo tem início. Desfalcado de Athirson – que atualmente é sem dúvida o centro criativo do time, tendo uma liberdade imensa para jogar no esquema de Paulo Bonamigo – a Lusa colocou Preto em campo, escalando Wilton Goiano como um ala mais típico e deslocando César Prates para a esquerda. No início, essa idéia funcionou muito bem – afinal, desde o apito inicial a Lusa foi senhora do jogo, tomando controle das ações e amassando um Santo André confuso e sem iniciativa. A maioria das jogadas era pelo lado direito, onde a defesa adversária era especialmente frágil – mas foi pelo meio que o primeiro gol surgiu aos 22 minutos, em um lançamento primoroso de Ygor nos pés de Edno, que avançou às trombadas como um tanque de guerra e colocou Christian na cara do gol, sem chances para o arqueiro Neneca. Edno, aliás, que está jogando demais, teve uma partida iluminada e será excelente contratação para qualquer clube que conseguir tirá-lo do Canindé. Sete minutos depois, a festa se multiplica: em lançamento de Preto, o mesmo Edno invade a área e fuzila sem piedade. Eram menos de 30 minutos, dois a zero no placar, e a classificação da Portuguesa para as semifinais estava muito próxima.
Com o intervalo, chegou a chuva – de início suportável, depois mais forte, e como uma grade me impedia de acessar a área coberta do pequeno estádio e pagar 10 reais numa capa de chuva vagabunda não me pareceu uma opção, acabei tomando um caldo mesmo, sem reclamar. Jornalismo também é sacrifício, pois não. Como eu não tinha rádio, fui acompanhando o desenrolar de Ponte Preta x Santos pela reação do público – e foi assim que soube, pouco antes do fim da primeira etapa, que o Peixe tinha feito 1 a 0 e estava próximo de colocar água no chopp da Lusa, mesmo que a primeira etapa tenha sido toda rubro-verde. Porém, a mudança viria no jogo – e ela atendeu pelo nome de Ricardo Goulart. Substituindo o inútl Onsy, o reserva colocou fogo na partida e ressuscitou o Santo André, deixando a defesa da casa desnorteada com suas avançadas velozes e surpreendentes. Na tentativa de detê-lo, a Portuguesa recuou e cedeu espaços, o que nós sabemos que os Deuses do Futebol não costumam perdoar. E assim foi, como na profecia: aos 7 minutos, Marcelinho Carioca (que teve atuação apagada e foi muito “elogiado” por todos ao ser substituído por Moraes) chutou cruzado, ninguém interveio e Antonio Flavio meteu para as redes. O gol só não desanimou a torcida porque a macaca se encarregou de virar o jogo contra o Santos, o que deixava a massa ensandecida e a Lusa com folga de um empate para se classificar. Mas o descontrole emocional era visível: aos 15, Marcel colocou a bola de cabeça na trave de Fábio, aos 17 um chute do ex-narcotraficante Pablo Escobar foi salvo em cima da linha e, aos 19, o mesmo Escobar cobrou uma falta na trave da Portuguesa. O Santo André agora mandava no jogo – e se empolgou de tal maneira com essa superioridade que colocou o time todo para a frente, abrindo generosos espaços para que a Lusa pudesse contra-atacar e fazer o gol que traria o desafogo.
Porém, acredito que nesse momento caiu sobre os jogadores rubro-verdes o mui famoso e pouco reconhecido “medo de ser feliz”. Depois de finalmente achar a marcação, com oportunidades claras de matar o jogo em um simples contragolpe, a Lusa continuou nervosa e afobada na frente, transformando cruzamentos em balões e conclusões a gol em atentados contra as placas de publicidade. Mais do que vontade de vencer, era um temor irracional que guiava as tentativas atabalhoadas de gol – lances de ataque movidos mais por ânsia do que por ambição, se é que me entendem. Enquanto isso, o Santos reagia, fazendo 2 a 2 e ficando a um único gol da classificação. O clima festivo havia sumido do Canindé, e cedido espaço a uma sensação desagradavelmente comum – a de ver a esperança de sucesso escorrendo como água entre os dedos. Faltava só um gol para a Portuguesa garantir a vaga, de qualquer modo – e esse gol poderia ter saído, se o time da casa colocasse a cabeça no lugar e a bola no chão. Mas tudo estava mergulhado em dramaticidade, e já entrávamos nos descontos no Canindé quando Kleber Pereira fez de pênalti o gol que dava ao Santos a vitória, e obrigava a Lusa a marcar o terceiro para se classificar. Depois de várias chances abortadas por puro nervosismo, Héverton perdeu um gol incrível no finalzinho, chutando errado quando apenas Neneca tentava de modo impotente evitar o golpe fatal. Em resumo, faltou calma, faltou pontaria, faltou confiança, faltou muita coisa para que a Portuguesa fosse além do medo de perder e alcançasse o sucesso que tanto almejava. Logo veio o apito final, selando o destino do rubro-verde – um destino ingrato, convenhamos, e que a chuva emoldurava em um quadro melancólico digno de uma música de Nick Cave.
Curiosamente, no entanto, a coisa não era encarada pela torcida desclassificada com tanto desconsolo quanto seria de se esperar – de fato, havia um conformismo quase trágico no ar, simbolizado brilhantemente pela frase de um pai de família saindo do estádio: “é foda, conosco nunca dá certo, mas que jeito?”. A torcida da Lusa, embora triste com o frustrante e repentino desfecho de seu sonho, parecia conformada com seu destino, de tal modo que o fracasso era encarado quase como a confirmação de uma suspeita, não revelada mas sempre presente. Vi apenas uma jovem torcedora chorando, amparada por alguns amigos; no mais, era uma tristeza muda e branda, nada que vá render matérias espetaculares na TV ou qualquer coisa do tipo. Não era uma torcida alquebrada, portanto - era uma torcida, antes de tudo, conformada, que ouviu os gritos de “segunda divisão” dos visitantes e aguentava com estoicismo a dor da eliminação. De certo modo, tudo havia voltado ao normal no Canindé – e se isso nos traz uma lição, talvez seja a de que nem sempre é o triunfo que dignifica o homem. Afinal, aquela pequena grande tragédia de domingo estava tomada de dignidade – o que nos faz desejar que, um dia, a Portuguesa consiga romper com essas correntes e achar a si mesma não no insucesso, e sim na conquista. No caso do Paulistão, ficou para o ano que vem.
* Igor Natusch é jornalista, reside em São Paulo e é o setorista do Carta na Manga sobre o futebol paulista, especialmente a Lusa.
Comentários
Só aqui a cobertura da Lusa. SÓ AQUI.
Lindo texto, por sinal.
hdfhjdjjhdsjhds
Ainda um clube como o Brasil de Pelotas pode se sustentar na incansável luta de uma comunidade, para preservar a sua identidade local e a sua história; a Portuguesa é natural de São Paulo, uma cidade que concentra toda a mania de grandeza e a cosmopolitude do povo brasileiro em si mesma.
e daí, temos clubes como a Portuguesa e o Juventus, que até hoje resistem como milícias aldeãs numa cultura totalmente oposta a isso.
parece a aldeia do Asterix, com a diferença de que ninguém tem superpoderes e que Julius César não mais se importa em conquistar.
belíssimo texto, Natusch.
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"Quase autista". Sensacional. A descrição perfeita. E o pior é que é verdade. Sem sacanagem.
Muito bom.