O solapamento do futebol pampeano

Juventude campeão da Copa do Brasil 1999: maior glória do interior gaúcho

Frederick Posselt Martins*

Primeiramente, gostaria de dizer que é um prazer inenarrável estar com uma coluna semanal neste mui valoroso espaço, ainda mais para falar sobre o futebol dos pampas, das coxilhas, do mar de chocolate e dos cavalos crioulos que já desbravaram  diversos obeliscos fora da província, deixando uma singela e malcheirosa lembrança neles. Desde já, meu muito obrigado aos amigos pela oportunidade dada. Espero, um dia, recompensá-los com uma boa picanha sangrenta num futuro Churrasco na Manga. Também entrarei com o espeto, se assim for do agrado de vocês.

Sem mais rasgações de couro e seda, vamos ao que interessa.

Não, amigos. Não exagero no título da coluna. O que está acima escrito é a realidade do que está acontecendo na província: nosso futebol está em decadência. Ok, o Inter foi bicampeão da América. Ok, o Grêmio lidera o returno do Brasileirão. E daí? A Dupla é forte no cenário nacional há 30/40 anos - e isso que nem precisamos chover no molhado em relação ao cenário regional. É verdade que houve percalços, tempos de vacas magras, rebaixamentos, mas no fim das contas, a Dupla tem muita expressão no país. Ok, e desde quando o futebol gaúcho se resume na Dupla? Porque, obviamente, ele não se resume. Temos todo um interior gaúcho a desbravar. Times que já fizeram frente a Grêmio e Inter nos Estaduais, pioneiros nestas conquistas (lembremos que xavantes e alvirrubros bageenses ganharam um Gauchão antes de gremistas e colorados), de grande relevância regional no século XX (em alguns momentos, nacional). Mas, infelizmente, nestes pampas, a pelota não rola mais do mesmo jeito que outrora.

Vocês devem se lembrar bem do Juventude levantando uma taça em pleno Maracanã em 1999 e jogando uma Taça Libertadores em 2000. Devem se lembrar do Caxias lutando para subir à Elite do futebol brasileiro em 2001, gerando polêmica nacional na sua partida contra o Figueirense (abraço, Loebeling). Devem se lembrar do São Gabriel, em 2004 derrotando o Palmeiras nestes pagos, gerando declarações fortes por parte dos paulistas. E devem se lembrar do XV de Novembro, também em 2004, chegando nas semifinais da Copa do Brasil com Mano Menezes na casamata. E isso que nem vamos falar do Brasil de Pelotas de 1985 descendo o sarrafo no Flamengo de Zico.

E o que temos hoje? Quase nada. A começar que, desde que Juventude começou a rolar água abaixo tal qual a cachoeira do Parque Caracol, não temos uma terceira força. O São Gabriel e o XV de Novembro fecharam as portas de seus departamentos de futebol. O Caxias caiu de série (B para C, em 2005). O Brasil de Pelotas foi abalado por um acidente de ônibus que comoveu o Estado. Logo, percebam que nenhum time do interior gaúcho está revelando forças para voltar a fazer boa campanha numa das divisões inferiores do Brasileirão, quiçá numa Copa do Brasil.

Sim, em 2010 tivemos o melhor Gauchão dos últimos anos. Mas de que adiantou, se os cinco times que jogaram as séries C e D do certame nacional (Brasil-Pe, Caxias e Juventude na C; Pelotas e São José na D) caíram logo na primeira fase – e para times catarinenses e paranaenses, cujas tradições, teoricamente, não superam a nossa? Some-se isso ao fato de que, no Gauchão do próximo ano, teremos nada menos que 5 times da Capital, e mais 2 da Região Metropolitana, quase metade do total de representantes da elite do futebol gaúcho.

Claro que o lado financeiro pesa muito. Os clubes que se concentram nos polos econômicos mais desenvolvidos do Estado (Serra e Região Metropolitana), não obstante, são os que estão conseguindo se manter, apesar, também, dos percalços que surgem (Esportivo caiu e Juventude, sabemos, não foi bem nesta edição do Gauchão.

É fato também que a FGF sempre se compromete a ajudar os clubes que disputam a série C com busca de patrocínios para pagamento de despesas com deslocamento para outros estados. Mas será que deve ficar só nisso? Não está na hora de se analisar a situação dos clubes do interior e estudar alternativas para que eles se recuperem e possam fazer frente, ao menos, à Dupla Ca-Ju? Quem não sente saudades de um Gauchão com Glória, Grêmio Santanense, Guarani de Garibaldi, Lajeadense (graças a Allah vai subir!), Aimoré, Guarany de Bagé, a Dupla Bra-Pel ou o saudoso São Paulo de Rio Grande?

O pífio desempenho nas séries inferiores do Brasileirão é um alerta. Algo necessita ser feito. Pra hoje.

Rapidinhas
Enquanto apenas a Dupla Gre-Nal segue em competições nacionais, alguns clubes já se ajeitam pras competições regionais do próximo ano. O Santa Cruz contratou Paulo Porto, que fez bons trabalhos à frente do Veranópolis em 2007 (abraço, Marcos Alexandre) e no Inter-SM em 2008 (abraço, Alê Menezes). Boa contratação, que pode indicar um time competitivo para a próxima edição do Estadual.

Gilmar Iser não vai ficar no xavante. Foi tentada uma permanência, mas o treinador alega que está recebendo boas propostas de outros clubes, dentro e fora do Estado, e a direção decidiu, desde logo, buscar outro nome. Com isso, Hélio Vieira, ex-jogador do xavante, será o técnico do time que buscará a ascensão pra elite em 2011. Terá como auxiliar técnico Cléber Gaúcho (ele mesmo!), que pendurará as chuteiras e irá para a casamata do Bento Freitas.

Sendo assim, tudo indica que figurinhas carimbadas de outros entreveros pampeanos (abraço, Cabral) deverão requentar a primeira competição ludopédica de 2011 por estes pagos. Esperança de um belo estadual, como foi o desse ano? É ver pra crer.

Foto: Antônio Batalha/Folha Imagem.

* Estreia hoje coluna todas as quartas-feiras sobre futebol do interior gaúcho.

Comentários

Vicente Fonseca disse…
É com extrema alegria que declaro inaugurada esta nova coluna do Carta. Amanhã, mais novidades por aqui!
Vicente Fonseca disse…
Sobre o texto. É interessante mesmo essa questão do Gauchão deste ano. Também vi o melhor cammpeonato dos últimos tempos, e não era enganoso: o Zequinha tinha um bom time, o Caxias também, o Novo Hamburgo, o Pelotas, o Veranópolis... Todos incomodaram a Dupla Gre-Nal em algum momento.

Aí chega nas competições e caem por terra. Acho que as equipes voltaram muito desfiguaradas para o segundo semestre. Talvez tenha sido isso. Espero sinceramente que tenhamos um campeonato parecido ano que vem.

Quanto ao Juventude, sem comentários. Três vitórias no ano é brincadeira.
Sancho disse…
Ocorre que no atual cenário, as equipes se preparam para 4 meses. O foco tem que ser anual.

Tchê, a Segundona dura SEIS MESES! Isso é ridículo...

Esses resultados deveriam servir de alerta para a Federação, clubes, jornalistas e amantes do futebol no Estado. Mas, parece, não são muitos que dão bola para isso.
Vicente Fonseca disse…
Concordo plenamente, Sancho.
Problema do Juventude, esse ano, foi ter apostado no Osmar Loss por muito tempo. Quando o Beto Almeida assumiu lá, o time não perdeu mais na Terceirona. Mas aí já era tarde demais.

E concordo, os clubes se preparam todo ano para jogarem apenas o Gauchão, ou outra competição expressiva que estejam. Não há um planejamento anual ou de longo prazo. O Brasil-Pel., por exemplo, já deixou acertado com pelo menos uns 4 jogadores que eles estariam liberados para jogarem a primeira divisão em outros times, mas que quando a Série C 2011 começasse, eles voltariam. Aí não tem como.

A discussão, creio, deveria começar por aí. A FGF só se intromete pra mandar Gre-Nal pra fora do RS ou pra intermediar patrocinadores que paguem as despesas de viagens pros times da Série C. É muito pouco perto do que, por exemplo, eu vejo a FPF fazer.
vine disse…
Alguma semelhança com a nossa amada CBF? Omissão total...
Anônimo disse…
Eu quero, sim EU QUERO! Que um time do interior (de preferência com nome exarcebando a pampa - Platense - São Gabriel - Etc Etc)ganhe algo GRANDE, numa espiral de sorte e futebol força com direito a interior do estado mobilizado, casa cheia (10 mil torcedores e olhem lá...)