Água mole em pedra dura
Tem coisas nessa vida que são muito, muito difíceis de conseguir. Chegar no topo do Everest, alcançar o polo sul geográfico, cruzar o Cabo da Boa Esperança e entender a mente feminina são algumas que me ocorrem de imediato. Mas o fato é que o homem, esse eterno cabeça dura, tanto faz até que consegue realizar essas tarefas de Hércules - mesmo entender as mulheres, dizem por aí que alguns homens chegaram lá...Enfim, brincadeiras de gênero à parte, não é nada difícil dizer qual é a mais complicada das tarefas possíveis em uma Copa do Mundo: fazer gol na Suíça. Acreditem, não é nada fácil. Em 2006, por exemplo, ninguém conseguiu - a Ucrânia precisou dos pênaltis para matar os suíços nas oitavas de final, porque no tempo normal não teve santo ou espírito guerreiro que ajudasse.
Na primeira rodada dessa Copa da África do Sul, o drama continuou - e os espanhóis, tão cantados em prosa e verso mundo da bola afora, acabaram sentindo o gosto meio-amargo do chocolate da derrota, em uma partida na qual jogaram bem e mereciam algo melhor. E hoje, nessa partida no Nelson Mandela Bay, a Suíça bateu o recorde de tempo sem tomar gols em Copa do Mundo, mais de nove horas sem buscar a bola nas próprias redes. Um desafio e tanto, diga-se.
Dito isso, dá para ter uma dimensão da façanha que foi essa vitória chilena, apertado 1 a 0 na tarde de inverno em Port Elizabeth. O esquema chileno era um 3-4-3 ousadíssimo, daqueles que sabe o que quer e vai atrás sem pensar duas vezes. Suazo (substituindo o contundido Valdivia), Sánchez e Beausejour iam para cima dos suíços, empurrados por uma torcida tão barulhenta que, em alguns momentos, conseguiu a proeza de se sobressair ao som das vuvuzelas.
Mesmo assim, não se pense que a equipe andina era pura faceirice: a marcação era adiantadíssima, começava já no campo de ataque, e logo encurralou uma Suíça bem postada e que, sejamos justo, não fazia tanta questão assim de ter liberdade para jogar. As barreiras suíças, por sinal, eram muitas. Com duas linhas de quatro no sistema defensivo, a Suíça tinha em Behrani e Inler um primeiro combate muito forte. Os que resistiam à primeira muralha tinham que encarar a ótima zaga suíça - e, caso milagrosamente superassem a intempérie, ainda precisavam vazar o extraordinário Benaglio, que estava em partida inspirada e fez uma série de defesas impressionantes.
A tendência era de um zero a zero eterno até os 30mins, quando Behrani perdeu a compostura e aplicou deselegantes cotoveladas em Beausejour e Vidal. Para não perder tempo, o suíço resolveu fazer tudo no mesmo lance, o que conta pontos em praticidade, mas amplia a carga de feiúra do lance. Após a justa expulsão, a Suíça viu-se com dez homens - o que nem chegou a ser tão problemático assim: bastou tirar Frei, que voltava de lesão, e colocar Barnetta para que as duas linhas de quatro voltassem impávidas a seus devidos lugares. Até rolou um alarme falso, aos 3mins da etapa final - mas González de fato interferiu no lance, sendo justa a anulação do que seria o primeiro gol chileno.
Foi aos 22mins do segundo tempo, com a bola pererecando serelepe e inofensiva no meio de campo, que a Suíça conseguiu o primeiro e mais histórico de seus objetivos no cotejo. Fechando 551 minutos sem sofrer gols, deixou na saudade o recorde italiano das Copas de 1986 e 1990 e consolidou-se como a mais eficiente retranca da história dos mundiais. Mérito justíssimo. E não pensem, infiéis, que foi obra de um ferrolho qualquer: a retranca suíça tem método, grandes jogadores e notável disciplina tática. Eleva a disposição defensiva ao status de arte futebolística. Pode não animar muito os sopradores de vuvuzela, e deixar deprimidos os ofensivistas mundo afora, mas é de fato uma conquista digna de respeito.
Marcelo Bielsa, vendo que a água estava mole demais para furar a pedra suíça a tempo, partiu para a ignorância ofensiva e colocou Gonzáles no lugar de Vidal, transformando a equipe em um inusitado 3-3-4. Além disso, tirou o irregular Suazo e colocou o descontado Valdivia - que, mesmo combalido, foi nome decisivo no milagre que se seguiu. Com um excelente passe, encontrou Paredes em inacreditável liberdade - talvez o primeiro momento em todo o jogo no qual um chileno não tinha um suíço a fungar em seu cangote. O cruzamento foi preciso, e o cabeceio de González teve o ímpeto de um grande desafogo. Um gol tão justo quanto o recorde suíço - fruto de uma equipe que atacou sempre e nunca desistiu em sua carga rumo à vitória.
A batalha teve lá as suas baixas: Valdivia segue descontado, e Fernández e Carmona foram suspensos e não jogam contra a Espanha. Mas a vitória deixa o Chile praticamente classificado, além de manter a excelente campanha da América Latina até aqui. E a Suíça, mesmo derrotada, mantém boas chances de classificação - além de poder se concentrar daqui para a frente na mui digna tarefa de superar o próprio recorde. Para o meu gosto, um jogaço de futebol, promovido por duas das mais dignas seleções que eu posso imaginar. Se a Espanha tropeçar diante de sua touca histórica e não conseguir vencer os hondurenhos, Chile e Suíça estarão a dois singelos empates da classificação. Aguante, Catrachos!
Foto: Valdivia ergue as mãos para o céu após promover milagre em Port Elizabeth (AFP)
Comentários
Apesar da péssima arbitragem, o jogo foi muito bom.
De qqr forma o Chile ainda é o melhor do grupo. A Espanha vai ter que suar pra ganhar do Chile.
Chico, permita-me discordar, mas o que o Behrani fez é muito feio. Nem precisava acertar para merecer ir para a rua...
E eu concordo contigo, Vicente. Certo que a Suíça virar símbolo da retranca eterna é uma sacanagem - mesmo porque jogou bem contra a Espanha, e seu ferrolho tem muito método, não é um mero pega-ratão à CLÁUDIO DUARTE.
E não menosprezem Honduras, o jogo nem começou ainda! =P