Um escrete de caráter

O Corinthians completa hoje 99 anos de existência. Há pelo menos 19, vem enchendo o saco de todo mundo, conquistando tudo o que é Campeonato Brasileiro e Copa do Brasil. Nessa toada, já me deu alegrias como a de ver Viola de chuteira vermelha no Olímpico e tristezas recentes sobre as quais me reservo o direito de permanecer calado.

Essa sina de conquistas começou em 1990. Coincidentemente, foi quando o Corinthians apareceu na minha vida, pois antes eu estava mais interessado em chorar, dormir e tomar mamadeira. À primeira vista, aquele time é um dos piores que já conquistou um Brasileiro. Mas um olhar mais carinhoso nos mostra que era um time com jogadores de caráter, senão vejamos.

Defendendo a meta, nada mais nada menos que Ronaldo. Apenas bom goleiro com breves passagens pela seleção, mas era a cara do Corinthians. Um típico paulistano de classe média baixa, quase um motoboy, ta ligado? Ainda por cima tinha uma banda de rock chamada “Ronaldo e os Impedidos”, ou seja, muito melhor que o almofadinha Rogério Ceni.

A linha de defesa era das coisas mais obscuras. Na lateral-direita Giba, que não ganhou nada além daquele título e depois virou um treinador mediano. No miolo de zaga havia o célebre Marcelo Djian, que sumiu por anos tal qual Belchior, até voltar ao Brasil e chegar à seleção Brasileira.

Mas o que mais me intriga são os outros dois nomes que completam esta linha. Como alguém consegue ser campeão brasileiro com Guinei e Jacenir? Fica a pergunta para os detratores de Nelsinho Baptista. Aliás por onde andam esses dois jogadores?

Segundo o site do Milton Neves, o zagueiro Guinei foi crucificado por falhar nas duas partidas contra o Boca Juniors pelas oitavas-de-final da Libertadores de 1991. A partir daí, rodou por equipes do interior de São Paulo e até do Rio Grande do Sul. Encerrou a carreira profissional em 2004 e hoje atua no time de masters da empresa Villares.

Jacenir rodou por clubes menores até ir jogar no Atlanta Silverback, dos Estados Unidos, onde atuou por quatro anos e encerrou a carreira em 2000. Conseguiu o green card, e dá aulas de “soccer”, obtendo renda anual de cerca de U$ 40 mil. É mole ou quer mais?

Percebam que já estamos diante de uma verdadeira academia de futebol. Pois o meio-campo daquele time guardava reserva moral altíssima. Pegue as estatísticas da primeira metade da década de 90, o volante Márcio liderará todos os rankings de expulsões. Henrymárcio Bittencourt (chorei ao descobrir o nome completo) depois seria campeão da Copa do Brasil com o Inter em 1992 antes de se tornar um treinador medíocre.

Wilson Mano fez mais de 400 partidas pelo Corinthians. Só há isso de interessante, uma vez que não ganhou nada de importante fora o título de 90 e só atuou por equipes medianas. Mas eu quero mesmo é falar do craque daquele time: José Ferreira Neto.

Com uma barriguinha saliente e a cara inchada de trago, o homem era um demônio. Fazia golaços de tudo quanto era parte do campo. Saudosos tempos em que os craques podiam tomar birita e ainda assim jogavam mais que os outros. Pra completar o caráter desse ídolo, fala sempre o que dá na telha. Neto eterno.

Pra completar o escrete, atacantes com o mesmo brilho de Guinei e Jacenir. Fabinho, um ponteiro roliço que ainda papou a Copa do Brasil de 94 pelo Grêmio e passou pelo Internacional já em total decadência. Além dele, Mauro, o jogador mais obscuro desse Corinthians – nem o Milton Neves registra o rapaz.

Fechando o onze com chave de ouro, o talismã da fiel. Pedro Francisco Garcia, o Tupãzinho. Jogador mediano, supria com muita raça as carências da equipe do Corinthians. O gol do título não poderia ser mais emblemático: de carrinho.

Apesar da mediocridade individual, o Coringão venceu o embrião do São Paulo de Telê nas duas partidas da final, em ambas por 1 a 0. Obteve doze vitórias, oito empates e cinco derrotas. Neto foi o artilheiro da equipe com nove gols.


Foto: Corinthians campeão brasileiro de 1990. Em pé: Giba, Marcelo Djian, Wilson Mano, Guinei, Márcio e Ronaldo. Sentados: Fabinho, Tupãzinho, Guinei, Neto e Mauro.

Comentários

Lourenço disse…
A Band AM fez uma homenagem irônica ao aniversário do Corinthians, desmerecendo todas as conquistas desse que é um dos gigantes, em todos os sentidos, do futebol brasileiro. Depois os paulistas são os arrogantes.
Vicente Fonseca disse…
Menos mal que aqui fizemos o registro honroso daquele Corinthians.

Aliás, este foi um time que me marcou muito. Foi o primeiro Campeonato Brasileiro que acompanhei. Torci muito pelo Corinthians naquela final contra o São Paulo: era fã do Neto e por causa da roubalheira que deu ao tricolor paulista a classificação à final em pleno Olímpico. Doeu ver o Grêmio, melhor time da primeira fase e daquele torneio, ser eliminado assim.

Hoje, vendo com outros olhos, tenho a certeza que veria muitos méritos no trabalho do Nelsinho. Esse foi um Corinthians muito mais honrado que com HMTF, MSI e outras siglas malignas.

E que bela camiseta esta do poster.
Vicente Fonseca disse…
E claro, parabéns aos corintianos e ao Prestes pela grande lembrança do Prestes. Mui oportuna.
Prestes disse…
Os paulistas é que ainda não enguliram a derrota em 32, uhasdhuasdhuasdhuasdhu

Falando sério agora, até em uma aula comentávamos como a mídia usa o bairrismo como estratégia de marketing. Foda.

Depois causam incidentes e reclamam. Antes da final da CB a Band armou aquele circo de bairrismo confrontando jornalistas (?) gaúchos e paulistas. Aí os profissionais deles apanharam aqui e aí choraram.

Não defendo a atitude de torcedores do Inter. Mas foi muita hipocrisia da Band.
Prestes disse…
Brigado, Vicente.

Aquele foi o primeiro campeonato do qual tenho lembranças, embora mui pequenas.

Saudosos tempos em que o Bahia botava banca.
luís felipe disse…
o treinador sempre tem muitos méritos se leva um time ruim a conquistar títulos.

o Corinthians tem um histórico de times que ganham com raça, enquanto os craques mesmo não ganham porra nenhuma. Isso acabou em 1998, quando foi formado um dos melhores times da história do Brasil com o Luxemburgo.

---

o que importa, porém, é que são 99 anos e nenhuma Libertadores. Que assim persista pelos próximos 99.
Vicente Fonseca disse…
Aquela briguinha bairrista foi brabo de aguentar mesmo. Muito ridículo. Podiam usar profissionais dos dois estados para debaterem mais civilizadamente, trazer informações de qualidade, mas não. Preferiram as brigas bisonhas mesmo.

Só uma coisa. Aquele time de 1990 do Corinthians, já classificado, levou 3 a 0 do Inter em pleno Pacaembu na última rodada da primeira fase, resultado que, aliados a tropeços de adversários, salvou o colorado do rebaixamento.
Vicente Fonseca disse…
Campanha daquele Corinthians:

PRIMEIRA FASE (terminou em 4º lugar)
Grêmio 3 x Corinthians 0
Corinthians 0 x Cruzeiro 1
Vitória 0 x Corinthians 0
Corinthians 2 x Palmeiras 1
São José-SP 1 x Corinthians 2
Corinthians 1 x Fluminense 0
São Paulo 1 x Corinthians 1
Corinthians 1 x Inter de Limeira 0
Flamengo 1 x Corinthians 2
Corinthians 1 x Náutico 0
Bragantino 2 x Corinthians 2
Corinthians 0 x Bahia 0
Corinthians 0 x Portuguesa 0
Botafogo 1 x Corinthians 0
Corinthians 0 x Vasco 0
Corinthians 1 x Santos 0
Goiás 3 x Corinthians 1
Atlético-MG 1 x Corinthians 3
Corinthians 0 x Internacional 3

QUARTAS DE FINAL
Corinthians 2 x Atlético-MG 1
Atlético-MG 0 x Corinthians 0

SEMIFINAIS
Corinthians 2 x Bahia 1
Bahia 0 x Corinthians 0

FINAL
Corinthians 1 x São Paulo 0
São Paulo 0 x Corinthians 1
Prestes disse…
É verdade. A derrota do São José já fez com que um empate bastasse. Mas pra garantir 100% precisava vencer.

Valeu, Corinthians!

usduhduhduuhduhdaauhduhaduh
Vicente Fonseca disse…
Sim, foi uma tarde de intenso nervosismo. Nada menos que CINCO times terminaram empatados com 15 pontos, quando eram dois por vitória.
Prestes disse…
Ainda bem que eu não entendia bem o que tava acontecendo, uhasduhsduhsduhasdsuhduhuhsda
Vicente Fonseca disse…
Pelo que estou vendo, o Inter entrou na rodada em 18º. Com a vitória da Portuguesa sobre o Goiás por 2 a 0 (gols de Vagner Mancini e SUPER ÉZIO), ficou na obrigada de vencer o Corinthians para não cair.

Pois é, eu também não entendia muito, senão teria ficado MUITO brabo.

jhdjhsdahadssda
Unknown disse…
vejam que RONALDO já BRILAVA MUTCHO NU CORINTIA muitos antes de RONALDO
Vicente Fonseca disse…
Ronaldo que tinha toda uma MANDINGA debaixo das traves antes de começar o jogo. A Placar até fez uma matéria sobre isso, acho que em 1995.
Lourenço disse…
Bah, cara, saudosismo dos anos 90 bateu forte.
luís felipe disse…
naquele ano de 1990, o Inter desencavou um ponteiro chileno chamado Juan Carlos Letelier que jogou muita bola nas três últimas partidas, inclusive teve participação nos três gols desse jogo contra o Corinthians.

Era da seleção e foi ídolo na Universidad do Chile. Foi embora depois do campeonato pq o Inter não tinha como pagar por ele.
Lourenço disse…
Só para confirmar: a camisa do Corinthians que tá no bolão é dessa época mesmo? Com a 10 do Neto?
Vicente Fonseca disse…
Sim, é a mesma, com patrocínio Kalunga e tudo mais.
Saulo disse…
Parabéns para o Corinthians!
Samir disse…
Cara, a lembrança do Ézio foi fantástica. Um dos maiores artilheiros do futebol brasileiro na década de 90.

E o tupanzinho era fantástico, o cara entrava e fazia gol...