O repentino fim de uma era

Receber R$ 8 milhões por um goleiro é muito difícil. Mas achar um goleiro que valha esses R$ 8 milhões é muito mais difícil ainda. Talvez a direção do Grêmio não tenha se dado conta disso. Ou então, preferiu ouvir teorias de pseudo-psicanalistas, que definem o "espírito" dos jogadores, levando em conta este tipo de análise, que em nada é científica, para vender o melhor goleiro do clube nos últimos 10 anos.

Victor nunca foi um goleiro sanguíneo. Não é justo lhe cobrar uma postura diferente. Logo que iniciou sua carreira no Grêmio, a frieza (característica valorizadíssima em goleiros) era apontada como a principal de todas as suas qualidades. "Homem de gelo", apelidavam os mais entusiasmados. Por isso, aliás, ele nunca deu certo como capitão. Sua liderança, quando houve, era técnica, não anímica. Com a braçadeira, ele deixou de lado a frieza e viveu os seus piores momentos tecnicamente nos quatro anos e meio de Estádio Olímpico.

É verdade que os últimos 18 meses não foram tão bons quanto os 36 anteriores, mas é cedo para dizer que Victor está decadente. Seu 2011 foi mais de baixos que de altos, o 2012 era mais seguro, mas ainda longe do brilho dos velhos tempos. A exigência com ele sempre foi mais alta, o que é justificável pelas defesas espetaculares que já fez em outras épocas. E isso, aliado ao inegável desempenho abaixo da média em alguns Gre-Nais, provocou a ira de muitos torcedores, impacientes com a falta de títulos, e que naturalmente cobram de quem mais pode oferecer - no caso, Victor.

Mas o Grêmio não fica mal de goleiro. Marcelo Grohe, 25 anos, tem potencial e demonstrou evolução nos últimos tempos. Surgiu muito bem em 2006, fez um Brasileirão irregular a seguir, o que fez o clube buscar Saja. Reserva desde 2007, alternou atuações boas com outras inseguras até 2009. No ano passado, chegou a ser titular algumas vezes, e fechou o gol na maioria delas. Talvez seja uma boa hora para ele assumir a camisa 1. Talvez ele esteja realmente pronto para isso. Talvez o Grêmio não precise contratar goleiro. Talvez.

O problema está justamente aí. Grohe, apesar de conhecido, é uma aposta. Victor, apesar da insegurança dos últimos tempos, é uma certeza bem maior. Goleiro de seleção brasileira, várias vezes eleito o melhor do Brasileirão. Trazido a preço de banana do pequeno Paulista, virou do nada um dos nomes do campeonato de 2008. Manteve o bom nível em 2009, já com a responsabilidade de ser um ídolo. Falavam que não pegava pênaltis, era seu único defeito técnico. Em 2010, pegou seis, só no Campeonato Brasileiro. Não ganhou grandes títulos? Centenas de jogadores que atuaram no Olímpico entre 2001 e 2012 também não ganharam. Quem acha que Victor é o culpado pela falta de títulos de Grêmio, e não que o Grêmio é o culpado pela falta de títulos de Victor, entendeu os últimos anos do futebol tricolor de forma completamente equivocada.

Aliás, se um goleiro de 29 anos está condenado por todo o sempre como um perdedor, imaginem o que seria de Rogério Ceni e Clemer. Rogério, com a idade de Victor, havia ganhado apenas um Paulistão, pelo São Paulo. Clemer, aos 29, ganhara um Campeonato Goiano com o Goiás e dois paraenses, com o Remo. Tão pouco quanto um Gauchão pelo Grêmio - fora a Copa das Confederações pelo Brasil e a Copa do Brasil pelo Paulista, mas como reserva.

Analisar goleiros, times ou o que quer que seja no futebol por rótulos é plenamente admissível no folclore, nas brincadeiras de torcedores. Sem isso, o esporte não teria metade da graça. Mas quem trabalha profissionalmente com o futebol não pode se apegar a este tipo de coisa. Enxergando por este lado, é fácil ver que o Atlético/MG, agora, tem um senhor goleiro embaixo de suas traves. Resta torcer para que a direção do Grêmio tenha vendido Victor por pensar que o negócio valia à pena, e não por levar em conta uma corneta que, de profissional, não tem absolutamente nada.


Comentários

Pedro Heberle disse…
Cara, eu tô absolutamente incrédulo.
Vicente Fonseca disse…
No meu caso, os butiá caíram do bolso e eu tô até agora catando.
Igor Natusch disse…
Aguardo para as próximas horas discurso de Odone dizendo que Grohe é "o herói sobrevivente dos Aflitos" ou algo que o valha. Tenho medo de perder a sanidade.
Anônimo disse…
Agora que não há mais quem culpar pelos gols sofridos, muita gente vai se dar conta de que a defesa é fraca e os laterais não marcam. Só que como não há como vender todos os que comprometem nessas posições, veremos os mesmos problemas de sempre em campo, apenas com outro goleiro. E essa história de jogador ser um “amuleto da derrota” (como já disseram do Tcheco, por exemplo) é um papo de botequim de 5ª categoria para justificar todos os outros problemas no elenco, que passam em brancas nuvens.

E o pior: tudo isso para adquirir 50% dos direitos do WERLEY, quando já se cogitou Lugano, Miranda, Luisão e quinhentos outros zagueiros melhores no início do ano. Prova de que a direção realmente acredita nessa psicologia furada de que o “espírito” dos jogadores é o que determina os resultados em campo.

Tiago
Marcus Staffen disse…
Vicente,

Grande análise. Victor é um Senhor goleiro e temo pela reposição. Não pelas qualidades do Marcelo, mas pela sombra que tanto afastou goleiros do Olímpico.

Abraços e amanhã todos novamente apoiando o time...

Marcus
Vicente Fonseca disse…
E essa história de jogador ser um “amuleto da derrota” (como já disseram do Tcheco, por exemplo) é um papo de botequim de 5ª categoria para justificar todos os outros problemas no elenco, que passam em brancas nuvens.

Concordo plenamente, Tiago. Só discordo de ti em relação ao fato de a defesa ser fraca. Acho que o Grêmio precisa de zagueiros (talvez tenha resolvido as laterais com o Fábio Aurélio), mas tem a melhor defesa do Campeonato Brasileiro até agora. E isso não se deve só ao Victor. Em suma: a ZAGA não é boa para ter este rendimento todo, mas o sistema defensivo, guarnecido pelos bons volantes, tem feito a diferença.

Agradeço os elogios, Marcus. Vi gente muito boa, de conteúdo e que acessa o blog, que discorda da minha análise. Seria legal ver esse pessoal comentando pra aprofundarmos ainda mais a discussão.

Abraços.
Pedro Heberle disse…
Vicente, se permites que o amigo colorado (que concorda com a tua análise) faça um pequeno contraponto, o Victor via de regra não ia muito bem em Gre-Nais. Ou pelo menos perdeu muito mais do que ganhou, e aquela falha no gol do D'Alessandro em 2009 ficou marcada.

De qualquer forma, como já disseste, isso é reflexo do bom momento em geral do Inter/mau momento em geral do Grêmio nos últimos anos. Aliás, o Taffarel adorava falhar em Gre-Nais e não ganhou NENHUM título pelo Inter; mesmo assim, o Asmuz - que não era exatamente um dirigente modelo - vendeu-o para o Parma, não para um rival brasileiro de menor expressão em termos de títulos.

Certamente ainda não dá pra comparar Victor com Taffarel, nem era essa minha intenção, mas o ex-gremista é um baita goleiro; foi muito feliz a lembrança de Rogério Ceni e Clemer, que foram conquistar suas glórias maiores tarde (principalmente o Clemer). É difícil mesmo encontrar razões plausíveis, que fujam da questão financeira, para essa venda. Acho que foi a FALHA DELE NO GOL DO BARCOS MESMO (ZH piada).
Anônimo disse…
Bom, considerando que a dupla de zaga é o Gilberto Silva (deslocado para a posição) mais quem estiver melhor no momento, reconheço que o desempenho está bom. Só que isso não é resultado de qualquer definição do setor, mas das gambiarras que o técnico tem de fazer para resolver os problemas à medida que eles vão aparecendo. E repito: comparados com os nomes que foram cogitados para o setor no começo do ano, o que temos hoje é um conjunto de “planos b” em campo e no banco, pois nenhum zagueiro comprovadamente bom foi contratado. E cadê a corneta para reclamar disso agora? É mais fácil culpar um jogador específico do que constatar as carências deste ou daquele setor, pois as soluções demandam tempo e investimento para fazer efeito, algo que os corneteiros de plantão não querem pensar.

Obrigado pelo espaço,
Tiago.
Vicente Fonseca disse…
Pedro: boas análises sempre são bem-vindas, de colorados ou gremistas. A média de desempenho do Victor em clássicos é inegavelmente pior que sua média geral, mas existe também um mito que se criou que ele falha SEMPRE em clássicos ou momentos decisivos, o que não é verdade. Este ano, chegou a ser apontado como culpado por alguns por causa do gol do Dátolo no primeiro Gre-Nal, uma bola desviada e impossível de pegar. Tudo porque "dá azar". É brincadeira. Quando a mística determina se um cara fica ou é vendida, tá tudo errado. Espero que isso não tenha sido critério para a direção do Grêmio vendê-lo.
Vicente Fonseca disse…
Tiago, eu concordo plenamente contigo neste sentido. Os zagueiros que se cogitou são realmente muito melhores do que os que há hoje no elenco. Mas vamos lá: quem tem um plantel de zagueiros muito melhor que o Grêmio hoje no futebol brasileiro? Pouquíssimos. Não acho o Vilson ruim, por exemplo. O Werley chegou aqui sob muita desconfiança por ser "reserva do Rafael Marques", e isso é quase uma maldade. O cara só jogou no Galo a vida toda, e teve seus bons momentos lá também. Aqui no Grêmio, não vi desempenho ruim que justificasse tanta corneta em cima dele.

São só contrapontos, mas em geral eu concordo contigo. Tanto que eu disse: ainda acho que seria bom trazer um zagueiro de mais nível. O Henrique, do Palmeiras, que foi cogitado no começo do ano, já me serviria, por exemplo.

Eu que agradeço a oportunidade de discutir em alto nível contigo, cara. Abraço.
Igor Natusch disse…
Azar é isso aqui: http://www.gremio.net/news/view.aspx?id=14619&language=0&news_type_id=4

PICO VEM AÍ.
Vicente Fonseca disse…
Bah. Me caiu os butiá do bolso, parte 2.
André Kruse disse…
Baixa texto.

Tambem refiro acreditar que a direçao tenha achado que a venda foi um bom negocio, e nao tenha tomado tal decisao por ter dado ouvido a esse tipo de baboseira psicologia/esoterica.

Espero que esse tipo de corneta pare ou diminua um tempo.

Nao sei o que é pior. A ideia do talisma/amuleto invertido ou a da técnico/presidente sabotador
Vicente Fonseca disse…
Valeu, André!

É como tu disse uma vez: as teses psicológicas são as minhas preferidas. É muita gente querendo atacar de doutor por aí. Aceito qualquer restrição técnica que se faça ao Victor, por mais que de algumas eu possa discordar. Mas daí a elaborar teses de "espírito perdedor" é dose.
Luiz Paulo Telo disse…
De um modo geral, acho que o Grêmio fez um bom negócio. Oito milhões é um valor que não se paga por quase nenhum goleiro de 29 ou 30 anos. Werley, por mais que não seja incontestável, também não é um péssimo zagueiro. Tem suas virtudes, é jovem e vive bom momento. Pode representar uma boa venda para o Grêmio futuramente.

E como o Vicente disse, também acho que o Marcelo está preparado. E este é o fator fundamental para arriscar se desfazer de um goleiro ídolo como foi o Victor.

Como a proposta é boa para jogador e clube, e tem no elenco um substituto natural, concluo que o Grêmio não tenha se equivocado.

Sobre a zaga, ninguém no Brasil tem jogadores de excessão no elenco. Portanto, o que faz diferença é o posicionamento e a solidez do sistema defensivo como um todo. Faz falta no Grêmio um grande zagueiro, mas com G. Silva e Werley a coisa não tá tão ruim não...